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31 de março de 2018, 11h29

A falsa dicotomia “esquerda” versus “movimentos identitários”

A dicotomia “esquerda” versus “movimentos identitários” é falsa e só fortalece o que há de pior no conservadorismo brasileiro

Há pelo menos dois anos uma falsa dicotomia move corações e debates: A esquerda versus os “movimentos identitários” – entre aspas porque essa classificação está repleta de problemas. De um lado argumenta-se que a agenda movida por identidades é extremamente liberal e coloca em segundo plano o principal objetivo dos grupos e partidos à esquerda: a superação do capitalismo e a edificação de um Estado socialista. Este argumento é risível, universal-eurocêntrico e nos remete para o fim do século XIX e começo do XX.

Primeiro é preciso desmontar o argumento universalista que iguala os movimentos da América Latina com aqueles fundados na Europa e nos Estados Unidos. No velho continente, as primeiras articulações começam no fim do século XIX, três pautas marcam esse momento histórico: a luta das operárias comunistas e anarquistas, o sufrágio universal e o movimento homossexual (à época era assim que era chamado, mas ele já era composto por lésbicas, gays, transexuais e travestis) que inicia uma batalha para que a homossexualidade deixe de ser crime. Nos EUA temos, também, o movimento sufragista, a luta contra as políticas racistas e o movimento homossexual contra a despatologizaçao da homossexualidade e pela igualdade de direitos civis.

Na segunda metade do século XX com a conquista do sufrágio universal e da despatologização e descriminalização da homossexualidade a pauta principal são os direitos civis. Especificamente nos EUA, o movimento negro é quem toma a dianteira e serão as feministas negras, muitas delas ligadas ao Partido Comunista e movimentos de contracultura que irão inaugurar a luta interseccional, ou seja, para por fim ao racismo e outras formas de ódio, só derrubando o capitalismo. Notem que estamos falando da década de 1950/1960. Mas, também é preciso atentar para o contexto geográfico, pois, a formação política e do Estado se dá de maneira completamente distinta no velho continente e nos EUA, neste país começa a ganhar força o chamado “feminismo liberal”, o mesmo se dá com o movimento homossexual. Há uma passagem da luta por direitos socais por direitos individuais, porém, não significa que os movimentos à esquerda deixem de existir, pelo contrário. Intensificam a luta e são fortemente perseguidos pelo Estado estadunidense.

Outro fato que é preciso levar em consideração é a composição partidária do velho continente e, principalmente, dos Estados Unidos. No primeiro ainda temos uma tradição à esquerda, ainda que os partidos surgidos no século XIX e XX estejam em franca decadência, o que acabou por abrir espaço para novas siglas à esquerda – França, Inglaterra e Espanha são três ótimos exemplos disso. Já na terra do Tio Sam, ainda que existam outras siglas para além dos partidos Democrata e Republicano, não possuem, ainda, qualquer incidência no jogo palaciano. E não é preciso dizer que as duas principais siglas estadunidense são liberais, o que as separa são alguns pontos na política econômica e nos direitos civis. Portanto, qualquer aproximação entre os movimentos latinos com os europeus e estadunidense está fadado ao equívoco.

A configuração dos “movimentos identitários” no Brasil 

Na primeira parte deste texto tivemos por objetivo explicar, ainda que de maneira rápida e generalista, a configuração dos “movimentos identitários” na Europa e nos Estados Unidos para que possamos compreender porque não é possível aproximar ou igualar os movimentos brasileiros com os já citados. Aliás, este tipo de narrativa tem uma explicação: por sermos ex-colônia ainda carregamos – fortemente, diga-se – em nossa formação epistemológica o pensamento universal eurocêntrico, ou seja, de que fora do Norte Global tudo é reprodução da metrópole colonialista e de que, ainda, somos incapazes de produzir saberes e criatividades políticas.

Para tratar especificamente do Brasil, vamos fazer um recorte para a década de 1970; a ditadura seguia firme e forte, porém, neste momento histórico a contracultura efervescia e foi um grupo de teatro que chamou a atenção para as questões da política a partir dos corpos, no caso o Dzi Croquettes, que se tornará uma febre no eixo Rio-São Paulo. No campo do ativismo político mais stricto senso, é fundado, em 1977, o Grupo Somos, idealizado pelo ativista e escritor João Silvério Trevisan. E, será a partir deste coletivo, que, internamente possuía membros ligados as ideologias anarquista e socialista, que teremos o ponta pé inicial para aquilo que, alguns anos depois irá se configurar enquanto Movimento Homossexual Brasileiro (MHB, à época).

O divisor de águas do Movimento Homossexual Brasileiro se dará com a Greve Geral deflagrada em 1980 no ABC paulista. Os ativistas do Somos e membros da comunidade LGBT da época se dividem entre participar ou não da greve. De um lado havia a percepção de que a esquerda queria apenas se aproveitar do incipiente movimento, no outro campo, ativistas alegavam que era o momento certo para deflagrar a bandeira dos direitos de gays, lésbicas, travestis e transexuais. Não houve consenso e parte do grupo optou por um pique nique no Parque Ibirapuera, enquanto outra parte participou da Assembleia Geral realizada no Estádio da Vila Euclides. Ao chegarem com as suas faixas foram aplaudidos pelos trabalhadores presentes no ato.

Na mesma época outro fato histórico marcaria os próximos passos do movimento LGBT, mas também das feministas e do movimento negr@, que seria a fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), que surgia com o objetivo de ser um partido de massas. Os “movimentos identitários” encontraram guarida na nova legenda, que, desde o seu texto fundacional já defendia as bandeiras pelos direitos civis das LGBT, mulheres e população negra. Era um marco histórico no Brasil que estava saindo da ditadura.

O contexto das redes sociais

Pano rápido para o século XXI e ascensão das redes sociais. Com a explosão e acesso em massa das plataformas digitais, surgiram inúmeros coletivos ligados as pautas feministas, LGBT e negr@s. A principal diferença destes coletivos, digamos, digitais para os grupos formados no fim do século XX, é que eles vão entender e utilizar as redes para uma batalha linguística, que as vezes se mostra efetiva e outras vezes nem tanto, mas isso faz parte da política. Há também um choque de gerações: parte do ativismo à esquerda insiste na ideia de que as pautas “identitárias” mais dividem do que somam, mas, o que esta parcela da esquerda ainda não entendeu é que a demanda a partir das identidades não caminha separada das questões de classe, antes o contrário.

É curioso notar que, boa parte dos detratores dos movimentos LGBT, feminista e negr@ são fortes apoiadores do ex-presidente Lula, que, quando presidente e contra tudo e contra todos, como o próprio revelou, abriu a I Conferência Nacional LGBT, realizada em Brasília, no ano de 2008. Já naquela época o presidente Lula bradou que era preciso acabar com a hipocrisia e a homofobia presente na esquerda (existem vários registros deste momento). Foi também nos governos Lula que tivemos a criação do Brasil Sem Homofobia, o Ministério das Mulheres, e o Ministério da Igualdade Racial, e isso nunca atrapalhou o foco da gestão petista: distribuição de renda e justiça social. É o contrário que acontece: ações como a do governo Lula, no que diz respeito as pautas identitárias são, ainda hoje, pioneiras ao redor do mundo.

Outro argumento utilizado para atacar os referidos movimentos é de que eles são liberais e anti-esquerda. Nada mais equivocado e pior, este tipo de argumento vai ao encontro do que há de pior na direita fundamentalista no Brasil. O grosso dos movimentos LGBT, feminista e negr@s tem a sua formação nas bordas do Brasil e, nos últimos anos, eles têm sido responsáveis por modernizar a agenda da esquerda. Outra questão é que: ao mesmo tempo em que parte da esquerda fica bradando que os “movimentos identitários dividem a esquerda”, na sala ao lado, a direita percorre o Brasil vendendo a ideia de que as LGBT e feministas querem destruir a família.

A dicotomia “esquerda” versus “movimentos identitários” é falsa e só fortalece o que há de pior no conservadorismo brasileiro. Os setores da esquerda que ficam rechaçando os movimentos LGBT, feminista e negr@s – e achando que eles se resumem às bolhas digitais – precisam se decidir: se assumem o seu caráter preconceituoso e datado – a velha cantilena de que as pautas identitárias devem ficar no segundo plano – ou passam a defender, de fato, uma outra sociedade possível e livre do ódio. Pois, enquanto eles acusam os “movimentos identitários” de liberais e “anti-esquerda”, na mesma linha temos a extrema direita pregando o retorno da eugenia.

Os fatos históricos e teóricos citados neste artigo podem ser conferidos em:

Devassos no Paraíso, João Silvério Trevisan

Para além do carnaval, James Green

Mulheres, Raça e Classe, Angela Davis

Nascimento da Biopolítica, Michel Foucault

 


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