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26 de janeiro de 2019, 16h37

Acidente? Não me façam rir de uma tragédia, por Juca Ferreira

Em artigo indignado, o ex-ministro e atual secretário de Cultura de Belo Horizonte, Juca Ferreira, comenta o desastre de Brumadinho

Foto: Reprodução

Raio não cai duas vezes no mesmo lugar?
Esse mote não vale para o Brasil e muito menos para a Vale.

É difícil ficar calado diante deste horror.

Horror! Crime! Crime horroroso!

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Não é a primeira, nem a segunda tragédia de proporções causadas pela Vale. Depois de privatizada, diga-se de passagem.

Acidente? Não me façam rir de uma tragédia. Crime! Usura!

Cadê a magnifica eficiência da empresa privada que nos vendem pela TV e pelos jornais todos os dias e o dia todo?

Cadê a superioridade técnica e operacional das empresas em relação ao poder público?
Cômico, se não fosse trágico.

A usura, somada à autossuficiência e à arrogância, dá nisso.

Claro, tendo como pano de fundo a falta de consciência ambiental e falta de cidadania, agravadas pela promiscuidade e pela cumplicidade entre poder público e o mundo empresarial.

Estado mínimo é o nome do liberou geral que querem impor no Brasil.

Se não conseguirmos interromper esse retrocesso político, vamos viver a tragédia da terra sem lei. Para os “amigos”, tudo! Para os inimigos, a lei!

No mundo inteiro, pelo menos na sua parte desenvolvida e capitalista, EEUU e Europa, o poder público tem plenos poderes para regular, fiscalizar as atividades empresariais, especialmente as potencialmente perigosas e punir rigorosamente em caso de descumprimento. As coisas funcionam razoavelmente bem, por isso.

Regulação rigorosa, regras técnicas com forte caráter preventivo; Estado com poderes e capacidade técnica e administrativa, capaz de representar de fato os interesses da sociedade; fiscalização rigorosa e punição drástica para desestimular a negligência e o crime.

Crimes ocorrem, óbvio, mas não com a frequência e a impunidade que vemos aqui.
Se fosse lá, empresas que agem como a Vale estariam fechadas e seus responsáveis presos.

Esse não é o primeiro nem o segundo crime ambiental cometido pela Vale. E, se depender do governo e da omissão da sociedade, não será o último.

Cadê o movimento e as organizações ambientalistas? É preciso levantar a sociedade para defender os interesses mais elementares. O direito à vida e a um meio ambiente saudável!

Quantos crimes mais para nos levantarmos?

Ê, ê, vida de gado, diria Zé Ramalho.

Estou desconfiando de que querem nos transformar em um país de eunucos. Todos bem-comportados, passivos e cordatos em frente da TV, vendo Faustão, Ratinho ou o JN, com a boca escancarada cheia de dentes esperando a morte chegar e a próxima tragédia acontecer.

A moda no Brasil, neste momento, é a mentira. E o estado mínimo a meta a ser alcançada. O governo e os grupos econômicos que interromperam nossa vida democrática e que tomaram o poder no Brasil sabem que, se não agirem rápido na implantação do seu projeto neoliberal, o povo pode acordar. Alarmes não faltam.

“Somos o país que mais preserva o meio ambiente”, afirmou Jair Bolsonaro em Davos. Preciso dizer que é mentira?

O atual presidente está apresentando um projeto de lei que é demanda dos setores empresariais agrários, mineradores e madeireiros para desregulamentar em definitivo as atividades ambientalmente perigosas.

Eles pretendem acabar com o Eia-Rima, a análise prévia de ameaças potenciais. Autorregulação, dizem.

Já liberaram os agrotóxicos mais perigosos para o meio ambiente e para a saúde das pessoas. Não importa, parecem dizer…

Eles nos adoecem para nos oferecer a cura depois. E assim vai crescendo a economia predatória…

O que hoje é escândalo, descontrole total, abuso desmedido, crime hediondo, amanhã estará devidamente legalizado. As mortes e a devastação ambiental serão apenas efeitos colaterais do modelo predatório que estão tentando implantar no Brasil. Tudo dentro da lei e da ordem.

Nhotim fica na região atingida por esse crime. É muito forte simbolicamente a arte sendo soterrada ou inviabilizada pela lama da atividade empresarial predatória.

Não precisa ser assim. Mas assim é neste momento no nosso país. E, se não agirmos logo, em breve será ainda pior.

* Sociólogo, foi ministro da Cultura e é secretário de Cultura de Belo Horizonte

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