Adriana Dias

direitos humanos e acessibilidade

22 de novembro de 2019, 15h22

Doze pontos para entender nazismo, neonazismo, extrema direita, ódio e esse conjunto de coisas que atravessa a vida da gente

A antropóloga e pesquisadora Adriana Dias inicia uma série de artigos para abordar com profundidade os aspectos que explicam o nazismo

Foto: Divulgação

Em primeiro lugar, preciso explicar de que lugar eu falo. Falo do lugar acadêmico, de alguém que se dedicou bastante, anos, a estudar um objeto. No meu caso, o neonazismo. Eu estudei o nazismo, o neonazismo, os movimentos nacionalistas voltados à supremacia branca. Estudar um objeto exige fazer recortes. Não estudar uma série de coisas. Mas, também no caso de meu objeto, estudar muita coisa. Porque o nazismo é uma coisa imensa: tem aspectos na arte, na filosofia, na história, na antropologia.

Quem conhece de fato minha pesquisa se impressiona com o tanto que eu li sobre o tema que eu abordo. Mas, um tema assim exige profundidade: então, eu tinha que ver filmes e ler livros e pesquisar biografias, ver processos judiciais e entrevistar pessoas, e eu fiz tudo isso. São 18 anos da minha vida dedicados ao tema, é muita coisa.

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Como eu parei nisso? Em 2002, um professor da Unicamp resolveu oferecer uma matéria que discutia Identidades, no caso a trajetória da Identidade Judia e da Identidade Gay, e o idealismo e romantismo alemão. Eu não sou judia, nem gay. Mas, eu me interesso por temas relacionados a Direitos Humanos desde pequena.

Então, fui fazer a matéria. Na matéria, pude ler o livro “A escrita ou a Vida”, e o livro parecia me socar no estômago a cada parágrafo. Fiz uma resenha do livro. Foi super elogiada. E aí ouvi, na matéria, uma denúncia sobre o negacionismo do Holocausto.

Ainda no Altavista, o grande buscador da época, eu achei um site no kit.net sobre revisão Histórica. Na capa, havia quatro jovens formando uma suástica com o corpo para uma bandeira do NS, e uma frase atribuída a Hitler: “Ao amanhecer teremos o Estado Nacional Socialista ou nossos cadáveres”.

Eu não conseguia acreditar naquilo. No Brasil? Nacional-Socialismo? Num primeiro momento, achei, como todo mundo pensa, que era coisa de adolescente, depois vendo o tanto de traduções que havia no site e a rede no qual ele se inseria fui mudando de opinião. Percebi que estava diante de algo medonho, assustador, mas que tinha que ser estudado.

Eu li todos os livros de Primo Levi na semana seguinte. E fiz meu trabalho de fim da matéria sobre a obra de Primo Levi e. Sugeriram que eu pesquisasse o que tinha descoberto, a imensa rede de sites, fóruns, blogs nacional-socialistas, em três línguas, português, inglês e espanhol. E virou minha monografia de fim de curso.  Depois virou Mestrado e Doutorado. São 18 anos estudando o tema. E por isso resolvi explicar algumas coisas sobre eles.

É preciso compreender de que se trata de uma pesquisa acadêmica, portanto li historiadores, cientistas sociais, filósofos, entre outros tipos de pensadores. Há gente que comenta, absurdamente me perguntando sobre coisas que não tem nada a ver com a pesquisa (de início da humanidade ao Renascimento, da Revolução Industrial ao Governo do Paquistão…). Eu tenho conhecimento razoável de História, noções gerais de Economia, Epistemologia pela formação excelente do Curso de Ciências Sociais da Unicamp. Mas, a PESQUISA, eu fiz sobre neonazismo.

Quando as pessoas fazem determinadas observações apenas demonstram o quanto o Brasil está distante de uma sociedade que valorize a pesquisa científica, porque a grande maioria dos comentários são sobre o que não tem nada a ver com a pesquisa, revelando o desconhecimento sobre como se faz pesquisa. E sim, eu adoro metodologia.

Em segundo lugar, queria dizer que fiz um esforço imenso para compreender o movimento. Nunca para justificá-lo. Sempre denunciei o que era passível de denúncia (links, sites, usuários, discursos de ódio). Mas, eu precisava entender o que se passava na mente daquelas pessoas, e para isso eu tinha que “levar a sério” o que elas acreditavam, ainda que para mim, a supremacia racial seja um completo absurdo.

Isso é parte do processo de pesquisa: levar a sério o que seus informantes dizem. No meu caso era muito sofrido, porque me fazia muito mal. Eu vomitei muitas vezes, chorei várias outras, sentia raiva, desespero. Afinal, eu lido cotidianamente com gente que odeia. Então, eu tentei viver, fora da pesquisa, o mais saudável possível, com amigos me apoiando sempre. A Revista Fórum sempre foi um grande apoio, assim como a Comunidade Judaica, mesmo eu não sendo judia.

Por fim, eu sempre entendi que o neonazismo deve ser desmentido e combatido. Através de uma educação voltada à empatia. Mais para frente falamos nisso. Para falar nesse tema tão importante, eu vou dividir em pontos, e sugerir leituras e filmes para aprofundar as questões discutidas (fiz um empenho em escolher o que acho melhor sobre cada ponto).

Primeiro ponto.

  1. O Brasil está se nazificando? O que é nazificar-se? Como surgiu o nazismo?

Na minha tese, discuto que a nazificação tem uma escala de 1 a 5. De muitas formas, já se fechou. Viveiros de Castro tuitou por esses dias que “o índice de nazificação do Brasil é 3,14”. Se o raio do buraco em que estamos metidos é o número de eleitores/defensores do nazismo, estamos num buraco de antimatéria imenso.

O que a palavra nazificação traduz? Ela implica num conjunto de práticas que constitui, cultiva e cultua ódios, estruturados em três elaborações discursivas (meritocracia, “um outro conveniente” e culto da masculinidade) com o objetivo de manter a maioria branca única detentora de direitos, impedindo que minorias histórica e socialmente exiladas de poder social possam ameaçar esse lugar, que a maioria branca quer como “direito natural”. A nazificação se utiliza de símbolos míticos, religiosos e de um léxico biológico para fazer valer seu discurso como verdade única, incontestável. Isso depende de determinadas narrativas sociais e de determinadas condições históricas.

Antes de Hitler assumir o poder, vários elementos percussores da nazificação foram construídos: a prática da política do escândalo, que representa o patamar mais elevado na estratégia de incluir um efeito de afeto negativo, cujo objetivo é gerar o desinteresse da população por política, se somou ao discurso sobre a decadência moral, que culpava gays e judeus pela ascensão das artes não conservadoras da Berlim da década de 20 e 30 e a crise econômica criada não apenas, mas também pelo Tradado de Versalhes, que gerou na burguesia alemã grande desespero pelo medo de seu poder de compra, associado ao medo do comunismo que crescia como inspiração de luta para as camadas mais pobres. Pouca gente conhece de fato o caldo cultural e social da Berlim antes de Hitler, e recomendo muitíssimo uma série alemã, “Berlin Babylon”, baseada nos best-sellers do escritor Volker Kuschner, que trata exatamente disso.

Além desses fatores, há um pouco comentado pelos analistas e pesquisadores, mas fundamental para a ascensão do nazismo alemão: as denominadas “Freikorps”, cuja tradução possível seria “regimentos livres”, grupos paramilitares formados a partir do século 18. Essas unidades, serviam como infantaria e cavalaria e possuíam formações de vários milhares de soldados. Em 1918 eles eram as “milícias paramilitares de direita”, que ostensivamente lutavam contra os apoiados pelos soviéticos e comunistas, e outros que tentavam derrubar a República de Weimar. Muitos deles viviam da corrupção, por cobrarem por segurança em estabelecimentos noturnos e ocuparem bairros pobres. Foram responsáveis por ataques sistêmicos e atos violentos. Alguns membros importantes do partido nazista vieram de suas fileiras, como Heinrich Himmler, futuro chefe da Schutzstaffel, ou SS.

A ideologia eugênica e o antissemitismo de Hitler politizaram essas milícias para permitir sua ascensão ao poder e a manutenção do nazismo, posteriormente. Hitler se sentiu ameaçado por alguns desses milicianos e planejou seu assassinato, sob seu governo.

Odiando as minorias, apoiado em milícias, que os historiadores ingleses chamavam de “Hitlerminions”, a extrema direita alemã foi produto de muitos fatores. É importante perceber como o Brasil está repetindo esses fatores. Mas, isso fica para o próximo artigo.

Foto: Reprodução

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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