Adriana Dias

direitos humanos e acessibilidade

27 de novembro de 2019, 17h38

Neonazismo: Como a cultura do ódio se estabelece

Adriana Dias revela em seu segundo artigo da série mais detalhes sobre como entender nazismo, neonazismo, extrema direita, ódio e outras manifestações do tipo

Foto: Reprodução

Segundo ponto.

  1. Como é o neonazismo no Brasil? Como a cultura de ódio se estabelece?

A nazificação traduz duas questões: ela se refere tanto ao processo como um grupo de ódio vai absorvendo material hitlerista, até estar completamente nazificado, quanto ao processo de como o homem médio, não neonazista, passa a apreender conteúdos, que deveriam ser considerados “de ódio”,  como comuns.

No primeiro exemplo, temos os grupos antinordestinos, antigays, separatistas. Eles podem se nazificar, assumindo para si conteúdos como negação do Holocausto, cultuando líderes nazistas ou neonazistas (Hitler e David Lane são os mais citados), entre outras práticas. No segundo caso, há o exemplo da expressão “racismo inverso”, criado pela Ku Klux Klan nos anos 70 e agora utilizado por pessoas comuns, que muitas vezes ignoram seu conteúdo histórico.

Não é sócio Fórum? Quer ganhar 3 livros? Então clica aqui.

As raízes históricas do nazismo alcançam séculos. Hitler uniu símbolos pagãos e mitologia nórdica ao antissemitismo de raiz luterana e católica, para criar a dimensão simbólica do neonazismo. A partir dessa dimensão os arquitetos da cosmologia nazista construíram uma visão de mundo em que o branco descendia diretamente dos deuses, era a única “raça” verdadeiramente em contato com os princípios da natureza e dotado, portanto, de um “saber ancestral”. Para eles, as outras “raças” deviam servi-los e os judeus queriam destruir a grande raça branca. Aliada a essa dimensão mitológica, os nazistas construíram uma abordagem biológica, fundada na eugenia do final Século XIX e início do Século XX, que abordava a vida como uma espécie de Darwinismo Social, no qual apenas os melhores deviam se salvar.

A “raça” era determinada pela ancestralidade, pelo sangue e pela língua. No neonazismo, ela é determinada pela cultura. Se você se crê ariano, e segundo os neonazistas não tem mais que “um trinta e dois avos de mitocôndria de outras raças” (seja lá o que isso signifique…) e a suástica fale a sua alma, você é um deles.

A partir daí o ódio é criado, cultivado e cultuado.

Cultura do ódio: os alicerces

A nazificação baseada em discurso de ódio é articulada sobre três alicerces fundamentais, nos quais o cultivo do ódio se fundamenta, segundo o historiador Peter Gay: a crença numa concorrência “natural” na qual sobrevive o mais capacitado por meritocracia, que desconsidera fatores sociais e políticos, a criação de um Outro conveniente, para assumir por projeção todas as culpas e responsabilidades pelos males sociais do mundo e, por fim, a construção de um “culto de masculinidade” absurdamente avassalador.

Esses elementos são articulados à noção de raça: para eles uma categoria indubitável, fixadora de identidades, para atribuir a grupos de pessoas características que servirão para defini-las. Definidas, essas pessoas, os Outros, serão OS INIMIGOS. Para vencê-las, os homens brancos (não as mulheres, facilmente enganadas pelo desejo, e muito mais suscetíveis à contaminação racial) terão que construir um mundo eugênico, branco, separado e, se necessário, eliminar todos seus inimigos.

A meritocracia na supremacia branca

O ódio que fundamenta a supremacia branca se baseia na ideia de que apenas o branco é portador da civilização, e que o homem branco é capaz, merecedor de todo sucesso. Na concorrência ele deve ser naturalmente o vencedor. Se não é, está prejudicado por algum outro fator, condicionado pelo Outro (veja o ponto seguinte). Num mundo realmente meritocrático, o branco sempre levaria o melhor emprego, o melhor lugar na universidade etc.

Os jovens que são alvos do proselitismo neonazista são muitas vezes aqueles sem vida definida, sem perspectiva, sem grandes chances intelectuais ou profissionais, pois a eles é dito que são especiais, por serem brancos, e que seu espaço está sendo tomados por seus inimigos, os judeus, os negros e outros (por ações afirmativas, ou outras situações). Dessa forma, o jovem é levado a crer num lugar especial para si, e passa a acreditar que a angústia da existência surge do Outro e não de sua própria incapacidade de realização.

O Outro conveniente

Judeus, Negros, Gays e Pessoas com Deficiência são colocados, pelos supremacistas brancos como inimigos de seus propósitos. Inventam dados, controlam mentiras, fazem falácias de todos os tipos, para construir um discurso de ódio contra essas pessoas que “as ameaçam”. No Brasil, também fazem isso com os nordestinos. Com a cultura de ódio voltada a esse Outro, podem acontecer manifestações graves, linchamentos e até massacres.

O culto à masculinidade

Na supremacia branca, o homem é o herói. A masculinidade é adorada, a mulher é apenas um útero que terá os filhos e o futuro da raça. Há uma valorização, inclusive, do estupro de mulheres brancas. O casamento inter-racial e a adoção de crianças negras são vistos como parte do projeto de genocídio da raça branca.

A masculinidade assume um lugar árido, sem respeito ao feminino. A obra de David Lane, líder neonazista que cunhou as 14 palavras, maior slogan do movimento neonazista, “Devemos assegurar a existência de nosso povo e o futuro para as crianças brancas”, incentiva, inclusive, o estupro de mulheres brancas por líderes neonazistas como forma de correção ao casamento inter-racial. Milhares de jovens neonazistas leem os livros de Lane acerca disso.

É preciso entender que para os grupos mais violentos, o racismo é uma experiência visceral e o ódio construído e alicerçado sobre esses três elementos comentados anteriormente desaloja toda e qualquer possibilidade de diálogo. Há apenas paranoia: o povo branco vive em diáspora, visto que seus inimigos tomaram seu lugar para produzir seu genocídio. É estarrecedor o uso da história das vítimas (diáspora) e do termo cunhado para falar de sua tentativa de extermínio para inverter a história (genocídio). O neonazismo vive de reminiscências, de enfatizar uma Alemanha que nunca existiu, de denominar de glorioso um tempo de vergonha, destruição e desumanidade. Não há diálogo, apenas raiva, e uma doutrinação sem fim, sem sentido e repetida à exaustão.

Foto: Reprodução

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum