Adriana Dias

direitos humanos e acessibilidade

07 de janeiro de 2020, 09h22

Você não precisa ser comunista para estar do lado dos mestres da Escola de Frankfurt, você precisa ser humano

No quarto artigo da série sobre o nazismo, Adriana Dias comenta a luta dos pensadores da Escola de Frankfurt contra o regime de Hitler

Foto: Arquivo

Quarto ponto

  1. A Escola de Frankfurt e o nazismo

O Instituto de Pesquisa Social da Universidade Johann Wolfgang Goethe em Frankfurt, fundado em 1923 por uma fundação do empresário e patrono Hermann Weil e seu filho Felix Weil, desde seus primeiros anos se demarcou como um lugar de concentração de estudos do marxismo acadêmico na Alemanha e em toda a Europa. Quando Max Horkheimer, em 1931, assumiu a direção do Instituto, a teoria crítica encontrou um centro de excelência, e o grupo que ali se concentrava se tornou a denominada Escola de Frankfurt. O termo “teoria crítica” refere-se ao título do ensaio “Traditional and Critical Theory”, publicado por Max Horkheimer em 1937.

Nesse artigo, Horkheimer defendera a importância de uma análise social mais ampla para compreender a Economia. Para ele “não eram mais os processos econômicos que deviam ser examinados como a base da vida social, mas a sociedade em todas as suas esferas se tornara um sujeito interdisciplinar da pesquisa”. Para os autores da Escola de Frankfurt , as relações entre a vida econômica da sociedade, o progresso tecnológico, o desenvolvimento psicológico dos indivíduos e as suas relações sociais, assim como as diversas transformações nas esferas do direito, da ciência, da cultura e da arte pertenciam aos temas que deveriam ser examinados em estreita associação com a filosofia e a pesquisa científica. As ideias centrais dessa forma de análise são expostas no livro Dialética do Esclarecimento, escrito em conjunto por Horkheimer e Theodor W. Adorno, de 1944 a 1947. Entre outros temas o livro aborda o antissemitismo e a indústria cultural burguesa. O argumento dos autores é que o antissemitismo é tratado pelos governos autoritários como um sentimento religioso a ser instrumentado para o fascismo pela cultura de massa. Para eles, o antisemitismo além disso repousa em uma falsa projeção, que acaba levando à paranoia social. “O escolhido como inimigo já é percebido como inimigo. O distúrbio está na falta de distinção entre o sujeito e a parte deles e a parte alheia do material projetado”. Isso é evidente na minha pesquisa, pois o neonazista se trata como um povo em “diáspora, em eminente genocídio” e vê o judeu como o inimigo que está por detrás disso.

Entre os membros do instituto estavam Theodor W. Adorno, Herbert Marcuse, Erich Fromm, Leo Löwenthal, Franz Neumann, Otto Kirchheimer e Friedrich Pollock. Um outro destaque é Walter Benjamin que durante seu exílio foi apoiado financeiramente pelo Instituto, e deu contribuições imensamente significativas. Todos os fundadores eram judeus e marxistas, e foram perseguidos pelo nazismo por seus escritos. O Instituto foi fechado pelos nazistas em 1933. Os ativos da fundação foram transferidos para a Holanda em 1931, assim como uma filial fundada em Genebra, pois os membros da escola já anteviam o que poderia acontecer diante do nacional-socialismo, e dois anos depois transferem a sede definitivamente para Genebra, e posteriormente para o Instituto de Pesquisa Social da Columbia University, em Nova York. No exílio, Adorno e Horkheimer pesquisaram e escreveram estudo sobre o caráter autoritário.

Walter Benjamin, tentando escapar para os EUA, suicidou-se na cidade de Portbou, onde ainda temia a extradição para os alemães, na noite de 26 a 27 de setembro de 1940.

Eles foram perseguidos por serem marxistas, de esquerda, e denunciavam a face autoritária do Nacional Socialismo, um regime de extrema direita. Você não precisa ser comunista para estar do lado dos mestres da Escola de Frankfurt, você precisa ser humano. Eles lutaram contra o pior regime totalitário da contemporaneidade, e escreveram muito sobre Liberdade, Arte e Cultura. Quem os critica não tem capacidade intelectual de compreender a importância de conceitos como tradução e narratividade em Benjamim, ou a profundidade de seus escritos. Provavelmente, porque desejam o mundo totalitário e sem respeito às diferenças.

Infelizmente, outras vozes voltam a combater esses pensadores, como se eles fossem responsáveis por problemas no mundo contemporâneo, quando na verdade, os verdadeiros responsáveis sempre foram problematizados pela Escola de Frankfurt. Ao transferir para as vítimas do nazismo seu ódio, impedem que o público se aproxime de pérolas do conhecimento humano, como Educação após Auschwitz (Theodor W. Adorno), em que Adorno questiona que o propósito fundamental da Educação deve ser evitar outra carnificina, ensinando aos homens o respeito mútuo. Educar depois do Holocausto é nunca esquecer. Sempre evitar a brutalização humana e a hierarquização das humanidades. Simplesmente não dá para ser neutro. Ou estamos do lado da Escola de Frankfurt, ou do lado do nazismo.

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