Alexandre Padilha

12 de março de 2020, 19h33

Coronavírus: O que o governo precisa fazer para o Brasil não ter o pior inverno da saúde pública

Em sua coluna na Fórum, o ex-ministro da Saúde, Alexandre Padilha, aponta alguns caminhos para enfrentar o surto do coronavírus no Brasil; "Não podemos titubear em nenhum protocolo de segurança". Confira

Simulação de atendimento ao novo coronavírus em Manaus | Foto: Alex Pazuello/Semcom/Fotos Públicas

Em tempos de pandemia de coronavírus, o grande desafio do Brasil é estar um passo a frente em relação à dinâmica da epidemia. Temos que executar já o que queremos ter quando o maior impacto dos casos acontecer, no início do nosso inverno.

Os dados obtidos nos demais países em relação ao coronavírus são: 5% dos casos evoluem para UTI e 10%, internação. Com isso, é possível calcular a necessidade de leitos de UTI. Se essa demanda não começar a ser tocada agora, em 90 dias os leitos não estarão prontos, instalados e funcionando.

É importante lembrar que em 11 dias começa o Outono no Brasil. Em três meses, teremos o Inverno. Essa é a minha grande preocupação. Independente do coronavírus, o inverno deve ser muito complexo para as redes pública e privada de saúde. E isso é consequência do golpe e dos desmontes implementados nos últimos anos. A população vulnerável aumentou. Na cidade de São Paulo, por exemplo, dobrou a população de rua. Em Belo Horizonte, triplicou a população em situação de rua. Os dados do Ministério da Saúde de 2019 mostram que aumentou a internação de crianças de até 5 anos de idade por pneumonia – o que é um indicador extremamente sensível sobre a perda da resolutividade da atenção primária em saúde.

Outra consequência do desmonte e da redução dos trabalhadores e trabalhadoras com carteira assinada é o aumento da população SUS exclusiva. Isso porque caiu o número de usuários de planos de saúde. Tivemos também o fechamento de diversos equipamentos importantes da Assistência Social, que são equipamentos decisivos, por exemplo, os leitos de longa permanência para idosos e casa de acolhimento para idosos.

Em 2019 este desmonte do SUS já mostrou seus sinais, não à toa aumentou mortalidade de dengue e aumentou internação por pneumonia de crianças até 5 anos de idade.  Podemos ter um inverno rigoroso com uma pressão maior sobre esses serviços públicos de saúde com o coronavírus. Pessoas que normalmente ficariam em casa por conta de um resfriado, procurarão os prontos-socorros e as UPAs.

Não podemos titubear em nenhum protocolo de segurança, como o que ocorreu com a Anvisa, que teve dificuldade de manter todas as equipes de vigilância nos portos e aeroportos em janeiro e fevereiro deste ano. Essa situação é inaceitável. Precisamos nos antecipar para que não exista essa redução de equipes, com dificuldade de plantão. Se for preciso, é necessário que seja feita mobilização de funcionários de outras áreas, inclusive convocar aposentados. Só assim poderemos ter a presença completa das equipes de vistoria nos portos e aeroportos.

Sobre vacinação: eu defendo e espero que o Ministério da Saúde concretize a redução da faixa etária para 55 anos. Precisamos aproveitar essa oportunidade para vacinação de influenza.

Também é preciso garantir médicos em equipe da família que hoje estão sem esses profissionais, como nas capitais, nas regiões metropolitanas, nas comunidades como a Rocinha, todas as áreas vulneráveis. É necessário que o Ministério da Saúde faça a reposição imediata dos médicos, se não houver atenção primária forte, a sobrecarga sobre os hospitais vai ser impossível de controlar. Essa reposição, ao que parece, começará a ser feita brevemente, pois o Ministério da Saúde, que havia cancelado editais do Programa Mais Médicos para as capitais e regiões metropolitana, soltou novo edital nesta quarta-feira (11). Mas é necessário trazer os médicos brasileiros formados no exterior e os médicos cubanos que moram no Brasil.

O Ministério da Saúde também precisa atuar em outra frente, que é o acompanhamento econômico e a regulação econômica dos itens. É preciso ser fortemente enfrentado o aumento abusivo do preço das máscaras, do álcool em gel, ou seja, do conjunto dos produtos.

Neste momento, sugiro que a Anvisa, que coordena nosso sistema de vigilância, reúna as vigilâncias estaduais e municipais, e o Conass e o Conasems, sob coordenação do Ministério, para definir critérios para determinações sanitárias de bloqueio de eventos. Isso precisa ser feito de forma prévia, pois, com o crescimento dos casos de influenza, doenças respiratórias e coronavírus é preciso gerar medidas de contenção de eventos descoordenadas. O resultado será o crescimento da preocupação da população e uma descoordenação nacional das ações.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum

#tags