Notas Internacionais

por Ana Prestes

13 de agosto de 2019, 13h02

As primárias argentinas e a força da ação política

Ana Prestes: “Nem o pé no freio da imprensa, as fake news de Bannon ou a publicidade melosa de Macri conseguiram iludir a população argentina, suficientemente vacinada em tragédias econômicas”

Cristina Kirchner - Foto: Presidência da Argentina

É importante dizer que Cristina Kirchner foi brilhante em sua tática de não ocupar a cabeça de chapa da Frente de Todos? Sim. Só isso explica a estrondosa votação nas primárias do dia 11? Não. Tem gente no Brasil perdendo tempo com a querela “Kirchner deu ou não uma lição em Lula”? Sim. Isso ajuda a entender o que está ocorrendo na Argentina? Não.

A construção de uma unidade ampla, sem hegemonismos, nem vetos, e o foco na luta para recuperar social e economicamente o país, com garantia de liberdades e funcionamento do Estado de direito, são antes de tudo os grandes ensinamentos deste processo.

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Dito isso, tentemos extrair lições da mudança rumo ao reagrupamento e acumulação de forças da esquerda argentina no último período. Um primeiro diferencial importante a ser lembrado para nós, que estamos do lado de cá do Rio da Prata: na Argentina ainda funciona uma democracia.

Por mais que Macri encarne todos os fantasmas do neoliberalismo e subserviência externa, que nos remete às trevas da América Latina da década de 90, com alguns casos de prisões arbitrárias e perseguições a militantes, ele não conseguiu fechar o país em um regime de exceção e com restrições fundamentais ao funcionamento democrático.

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Embora intelectuais como Atílio Boron defendam que ele faz um governo semi-autoritário ou uma “democradura”, ele não conseguiu calar a oposição. Esse é um dado importante para entender como Cristina não foi presa arbitrariamente ainda, a exemplo do que ocorreu com Lula no Brasil, e com quem ficou do governo Correa em solo equatoriano. Explica também como, dia sim e outro também, há ocupação sistemática do espaço público nas principais cidades do país com protestos e manifestações, especialmente após a agudização da crise econômica.

A Argentina tem uma cultura popular “callejera” (cultura de rua), seja nas artes, seja nas manifestações políticas em forma de marchas e protestos. Tente passar uma tarde na Plaza de Mayo, no coração de Buenos Aires, sem topar com umas três manifestações distintas.

O governo Macri foi o principal combustível da organização política seja de base comunitária, popular ou sindical, nos últimos anos no país. Ao manejar a economia como quem administra um cassino, a economia macrista gerou sérios problemas à atividade produtiva e vendeu facilidades ao setor financeiro.

Os tarifaços macristas levaram a inflação às alturas e o câmbio do peso com o dólar já não toca o chão há tempos. Sob Macri, 200 mil perderam seus empregos e a capacidade da indústria caiu vertiginosamente.

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A pobreza que estava na casa dos 25% no último governo de Cristina foi a 34,1% com Macri, segundo os últimos dados do Indec. Mais de 7%, cerca de um milhão de pessoas, vivem em situação de indigência. Para sair do atoleiro, Macri recorreu ao FMI e o país passou a ser governado pela tróica Macri, Trump e Lagarde. Reciclado o neoliberalismo, a cultura “callejera” não deixou o país dormir.

Quem acompanha minimamente a política argentina, percebeu que nas últimas semanas as eleições foram tratadas pela imprensa com tons moderadores de “Macri não está tão mal assim e pode surpreender” ou “há um forte sentimento anti-Kirchner, como o antipetismo no Brasil”.

Por baixo desse manto de moderação, uma verdadeira intoxicação de fake news varria os grupos de Whatsapp, fenômeno que conhecemos bem aqui no Brasil. Enquanto isso, as peças publicitárias eram de um Macri humilde e humano, que reconhecia os problemas do país e que pedia mais tempo para consertar as mazelas do passado, um verdadeiro lobo em pele de cordeiro, que ao se vitimizar ainda jogou a responsabilidade para a população por não ter dado tempo às reformas necessárias.

Nem o pé no freio da imprensa, as fake news de Bannon ou a publicidade melosa de Macri conseguiram iludir a população argentina, suficientemente vacinada em tragédias econômicas. A casa caiu para o macrismo, como demonstraram as primárias e a consequente queda vertiginosa das bolsas, elevação do peso e dos juros na ressaca do PASO.

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Diante desse cenário, de democracia sobrevivente, aguda crise econômica, cultura popular organizativa e de contestação, além da impermeabilidade às fake news, um fator foi decisivo para a expressiva participação de 75% do eleitorado nas primárias e a estrondosa votação dedicada à Frente Para Todos.

Esse fator se chama unidade política construída com muita articulação, estratégia (como o posicionamento de Cristina na vice) e “fazer político” sem resvalar para o flerte com os supostos movimentos “antipolítica”.

Foi tecido então um reencontro entre as distintas correntes do peronismo, com o apoio da maioria dos governadores, prefeitos e legisladores peronistas espalhados pelo país que somados a radicais, comunistas, autonomistas, humanistas, bolivarianos, cooperativistas, líderes sindicais e de movimentos sociais, formaram uma grande frente.

Um movimento capaz de reabilitar a esperança e capacidade de sonhar dos argentinos. Mais do que tudo, a mensagem do último dia 11 foi a do poder da mobilização e da ação política. Na contramão dos laboratórios de virtualização a aplastamento da política, nada como rua, unidade e voto.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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