Notas Internacionais

por Ana Prestes

08 de outubro de 2019, 10h24

Crise no Equador obriga Lenín Moreno a transferir sede do governo de Quito para Guayaquil

Em sua coluna, Ana Prestes diz que presidente assinou com o FMI um contrato de empréstimo de 4,2 milhões de dólares e, pouco a pouco, foram ficando para trás os rastros das políticas sociais de Rafael Correa

Foto: Reprodução/Twitter/RonnyAleaga

– A crise no Equador ganhou proporções bastante dramáticas. Nesta segunda-feira (7), funcionários administrativos e dos meios de comunicação foram retirados do Palácio de Carondelet, presidencial, como medida de segurança diante das manifestações que tomaram conta dos arredores da Plaza Grande, onde está situado o palácio. O presidente Lenín Moreno havia programado falar por rede nacional, pela tarde, de dentro do palácio, mas igualmente foi suspensa a transmissão. A tarde foi de tensão nas principais ruas de Quito.

– Somente após a transferência da sede do governo de Quito para Guayaquill foi que Lenín Moreno realizou seu pronunciamento, em cadeia nacional de rádio e televisão. Em sua transmissão, o presidente, considerado traidor por aqueles que apoiavam o governo de Rafael Correa, de quem Moreno inicialmente seria um sucessor por fazer parte do mesmo partido, Alianza País, disse que tanto Correa como Maduro são os culpados da atual crise no Equador. Nas suas palavras: “Eles são os que estão por trás da tentativa de golpe de Estado”. Acusou, também, o ex-chanceler Ricardo Patiño da tentativa de desestabilizar o país. No discurso, acenou aos indígenas ao dizer: “Estou decidido a dialogar com vocês, irmãos indígenas”.

– Várias marchas indígenas estão em curso no Equador. Uma delas, com aproximadamente 3 mil integrantes, avançou nesta segunda (7) desde Cotopaxi e outras zonas do extremo sul do país e se somaram aos protestos em Quito. O mesmo com o movimento indígena de Tugurahua, Shuar Tsuraku, na região amazônica do Equador, Imbabura, Azuay, Pichincha, Chimborazo, Cañar, Loja e várias outras.

– Houve enfrentamento nas ruas, com bloqueio de avenidas importantes, como a Simón Bolivar e outras. Sob os cânticos de “Se va caer, se va caer, Lenín se va caer” e “El pueblo unido jamás será vencido…” grupos de indígenas vão se somando. Além disso, está convocada para esta quarta-feira (9) uma paralisação geral de atividades em todo o país. Nos confrontos de segunda (7) houve gás lacrimogênio por parte da polícia e veículos militares blindados queimados pelos manifestantes.

– Outra frente de ataque dos manifestantes tem sido as instalações petroleiras. Na segunda (7), o Ministério da Energia e Recursos Naturais Não Renováveis informou que as operações em três campos petroleiros, localizados nas províncias de Orellana e Sucumbíos, operados pela empresa pública Petroamazonas, foram suspensas devido à tomada por grupos de manifestantes. As vias de acesso às petroleiras estão bloqueadas, impedindo a saída dos caminhões-tanque. Calcula-se que com a interrupção da produção e da distribuição haverá um prejuízo de milhares de barris/dia.

– Em Guayaquill, uma parada militar, que estava prevista para esta quarta (9), em atenção aos 199 anos da Independência de Guayaquill, ao largo da avenida Narcisa de Jesús, foi suspensa por conta do estado de exceção.

– Segundo o presidente da Conaie (Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador), Jaime Vargas, os indígenas exigem “a imediata libertação dos 350 detidos arbitrariamente por exercer seu direito constitucional de resistência” e acrescentou que só haverá conversações com o Executivo uma vez que cheguem a Quito. Escolas e estradas estão fechadas em todo o país. A expectativa é da chegada de cerca de 20 mil indígenas à capital entre terça (8) e quarta (9).

– A sublevação contra Lenín Moreno se justifica por seus planos de ajustes no país, em conformidade com o FMI. Seu governo conseguiu unir organizações sindicais, camponesas, indígenas e populares em uma grande onda nacional de protestos contra o “paquetazo” (fim dos subsídios aos combustíveis) e a “flexibilización laboral”.  Há vias fechadas desde Imbabura, ao norte do país, na fronteira com a Colômbia até Loja, ao sul e no limite com o Peru. Moreno assinou com o FMI um contrato de empréstimo de 4,2 milhões de dólares em fevereiro e, pouco a pouco, foram ficando para trás quaisquer rastros das políticas sociais de Correa, de quem Moreno foi vice-presidente por seis anos. Moreno tem defendido a intervenção na Venezuela, a entrega de uma base aérea em Galápagos para uso da inteligência dos EUA, além de ter retirado o Equador da Unasul (a sede da organização está no país) e da OPEP.

– O Equador, através de sublevações sociais como essa, já derrubou três presidentes no período recente: Abdalá Bucaram (1996-1997), Jamil Mahuad (1998-2000) e Lucio Gutiérrez (2003-2005).

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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