Notas Internacionais

por Ana Prestes

08 de março de 2019, 06h00

O 8 de Março entre a plastificação e a conexão global das agendas

A cientista política Ana Prestes, autora do livro "Mirela e o Dia Internacional da Mulher", aborda para a Fórum aspectos da data que marca a resistência feminina

Foto: Reproduçãp/Facebook Ana Prestes

Lá se vão mais de 100 anos do 8 de março. A data que Alexandra Kollontai e Clara Zetkin nos legaram já nasceu na confusão entre as feministas burguesas e as socialistas da época, enquanto umas lutavam pelo sufrágio, outras queriam discutir uma deep democracy com substantivos direitos econômicos e sociais para as trabalhadoras.

De lá pra cá, a data está sempre envolta na disputa por sua agenda. Recentemente, com a virada do milênio e o intenso desenvolvimento das tecnologias de comunicação a data passou a ser ainda mais divulgada e conhecida.

Dois fenômenos chamam atenção, um deles é o da crescente “plastificação” da data em uma tentativa de transformá-la em algo semelhante a um “dia dos namorados”, dia “das mães” ou “dos pais”, no sentido de estimular trocas materiais e esvaziar seu conteúdo ideológico progressista e reforçar uma ideologia que precisa do estereótipo da mulher mãe, cuidadora e submissa ao patriarcado.

Na contramão da plastificação da data, foi reforçado o fenômeno da globalização do feminismo, com o fortalecimento das redes de mulheres que de forma atomizada ou a partir de organizações e movimentos se identificam com algumas pautas que a vida foi impondo com maior destaque, como a do combate à violência de gênero e a do direito ao aborto.

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Do lado de cá do mundo, nas Américas, alguns movimentos se destacaram nos últimos anos e demonstram a consagração dessas pautas impulsionadas por uma sociedade cada vez mais conectada em rede. São eles o movimento Que Sea Ley em defesa do direito ao aborto na Argentina, o Ele Não contra o candidato conservador à presidência do Brasil, o Me Too e a Women´s March em defesa das denúncias contra assédio, abuso sexual e racismo nos EUA, além das Tomas Feministas chilenas contra o sexismo na educação. O amálgama dessas lutas nos dá um panorama da força da pauta feminista no continente.

Esta nova onda feminista nas Américas está na linha de frente da resistência contra a ascensão da extrema direita e a pauta reacionária de vários governos da região. Na contramão crescem as iniciativas, de grupos religiosos em especial, para estereotipar qualquer movimentação em busca da igualdade de gênero com o carimbo de “ideologia de gênero” a ser combatida pelo Estado.

Excelente documento sobre a materialidade desta luta está registrado no filme Genero Bajo Ataque, no qual são destrinchados os feitios de batalhas políticas recentes como a da eleição presidencial da Costa Rica, o plebiscito pela paz na Colômbia, a eleição presidencial do Brasil, demissão de uma ministra da educação no Peru, em que o quesito “gênero” foi instrumentalizado para vitórias eleitorais de pautas conservadoras. No caso da Colômbia, por exemplo, toda a construção de um acordo de paz entre o Governo e as FARC foi colocado em xeque pela simples menção da igualdade de gênero nos textos do acordo.

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Como parte do enfrentamento, neste ano de 2019, feministas de cerca de dez países – nos quais homens e mulheres enfrentam governos reacionários – organizaram um Manifesto Internacional Feminista na tentativa de coordenar uma movimentação global para o 8 de março. O documento foi puxado pelas norte-americanas Angela Davis e Nancy Fraser e inclui algumas lideranças brasileiras como a viúva de Marielle, Monica Benicio, a candidata a vice-presidência do Brasil, Sônia Guajajara, ou a cineasta e escritora Antônia Pellegrino.

É curioso como um trecho do manifesto parece um deja vu do Fórum Social Mundial, que abrigava as Assembleias Mundiais de Mulheres e de Movimentos Sociais, ao dizer que “o novo movimento feminista transnacional é moldado pelo sul, não no sentido geográfico, mas também no sentido político, e é nutrido por cada região em conflito. Essa é a razão de ele ser anticolonial, antirracista e anticapitalista”. O que demonstra que voltamos de alguma forma às pautas do princípio do milênio, embora mais fortalecidas com mais de uma década de experiências de governos progressistas na América Latina. Sigamos.

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Dica

A jornalista Sarah Babiker, do argentino El Salto Diário, relacionou algumas obras de autoras pouco lidas no Brasil e que podem ajudar a entender o feminismo. Achei interessante compartilhar:

Nivedita Menon (Índia) – Obra: Seen Like a Feminist (2012)

Ding Lin (China) – Obra: Miss Sophy´s Diary (1927)

Mariama Bâ (Senegal) – Obra: Mi carta más larga (1979)

Fátima Mernisse (Marrocos) – Obra: Sueños em el umbral: memorias de uma ñina del harén (1995)

Tatiana Mamonova (Rússia) – Obra: Women and Russia: Feminist Writtings from the Soviet Union (1984)

Maria Galindo (Bolívia) – Obra: Feminismo urgente: a despatriarcar! (2013)

Ama Ata Aidoo (Ghana) – Obra: Nuestra hermana aguafiestas. Reflexiones desde una neuroses antiocidental (1977)

Bell Hooks (EUA) – Obra: El feminismo es para todo el mundo (2017)

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