Notas Internacionais

por Ana Prestes

09 de outubro de 2019, 11h04

Rafael Correa rebate acusações de Lenín Moreno: “Golpistas têm sido eles, que amassaram a Constituição”

Atual presidente do Equador, responsável pela crise no país, disse que Correa é “conspirador e agente da desestabilização”, revela Ana Prestes, em nova coluna

O ex-presidente Rafael Correa - Foto: Divulgação/Presidência do Equador

– As últimas horas foram intensas no Equador. Nesta terça (8) chegaram várias caravanas a Quito de todos os cantos do país. Imagens mostram os movimentos tomando o interior da Assembleia Nacional do país e sendo fortemente reprimidos. Uma vez dentro do Parlamento, os movimentos, que são de indígenas, trabalhadores, estudantes e outros, instalaram o “Parlamento de los Pueblos”. Segundo uma repórter da TeleSur, eram aproximadamente 2 mil pessoas que entraram no edifício. A pressão é para que o governo anule o Decreto Executivo 883, que retira subsídios aos combustíveis e outras medidas neoliberais. Durante a repressão policial aos movimentos, foram reportados casos de ataques dentro de hospitais e proximidades de escolas, onde crianças precisaram ser removidas por corredores humanitários para escaparem do gás lacrimogênio.

– Ao fim desta terça, o presidente Lenín Moreno emitiu o Decreto Executivo 888, que dispõe, entre outras coisas, do toque de recolher em “locais estratégicos” do país, entre as 20 horas e 5 horas, de segunda a domingo. Os locais chamados estratégicos são aqueles nos arredores dos edifícios do governo e outros que serão definidos pelo comando das Forças Armadas. O toque de recolher tem vigência durante o período do Estado de Exceção, estabelecido desde a semana passada para durar 30 dias.

– Após ser citado no pronunciamento do presidente Lenín Moreno, na última segunda (7), como conspirador e agente da desestabilização do Equador, o ex-presidente Rafael Correa falou para a rede russa RT, nesta terça, e negou estar conspirando para derrubar o governo de seu sucessor. Nas palavras de Correa, “dizem que somos golpistas, que queremos desestabilizar o governo. Os golpistas têm sido eles, que amassaram a Constituição quantas vezes lhes deu vontade”. A saída para a crise, segundo Correa, está na Constituição e passa por novas eleições, algo que tanto o presidente como a Assembleia Nacional, caso alcance uma maioria de dois terços, pode convocar no caso de “comoção social” que é o que está vivendo o país.

– Os grupos de indígenas que vão chegando a Quito estão se acomodando no parque El Arbolito e no complexo da Casa de Cultura. O prefeito da capital, Jorge Yunda, alertou que a cidade está sob estado de emergência grave e que o parlamento local, Concejo Metropolitano, está em sessão permanente. As maiores organizações sociais, que são a Conaie (Confederação de Nacionalidades Indigenas do Equador) e a FUT (Frente Unitaria dos Trabalhadores), reafirmaram que as paralisações e ocupações dos espaços públicos são por tempo indefinido, até que o governo apresente respostas aos movimentos. As aulas estão suspensas e rodovias de 17 das 24 províncias (estados) do país estão bloqueadas.

– Uma das imagens impressionantes desta terça é a da passagem de uma marcha do Movimento Indígena e Campones de Cotopaxi, a caminho de Quito, por uma rodovia na região de Tambillo, em que os militares, ao verem a magnitude da mobilização, abrem passagem para que a marcha siga. Tanto Jaime Vargas, presidente da Conaie, como Leonidas Iza Salazar, presidente do Movimento Indígena de Cotopaxi, descartaram que qualquer ato de vandalismo tenha ocorrido no transcurso das diversas marchas até Quito.

– Esses movimentos indígenas, é bom lembrar, não são todos aliados de Rafael Correa e seu grupo que dirigiu o Partido Alianza País, tomado por Lenín Moreno, e que hoje estão organizados no Revolución Ciudadana, como a ex-presidente da Assembleia Nacional, Gabriela Rivadeneira, e o ex-chanceler Ricardo Patiño. Os movimentos, embora não tenham apoiado a eleição de Correa, defenderam a reforma constitucional aprovada em 2008, mas, logo em seguida, voltaram à oposição, tendo organizado, em 2012, uma grande marcha contra Correa e seu governo. Hoje, a Conaie e outros movimentos novamente se colocam contra o que eles chamam de “correismo”, embora estejam todos no mesmo barco de oposição a Moreno.

– O Brasil, junto aos governos da Argentina, Colômbia, El Salvador, Guatemala, Paraguai e Peru, expressou, através de nota conjunta, seu repúdio a “qualquer tentativa de desestabilizar os regimes democráticos legitimamente constituídos” e expressou “seu forte apoio às ações empreendidas pelo presidente Lenín Moreno para recuperar a paz, a institucionalidade e a ordem”. A embaixada brasileira no Equador também passou a recomendar a turistas brasileiros que reconsiderem suas viagens ao país.

– Outro país que se encontra em convulsão social e do qual nada se fala é o Haiti. A situação é dramática e seguem as paralisações e ocupações das ruas contra o governo de Moise.

– A ministra francesa do meio ambiente, Elisabeth Borne, declarou nesta terça (8) que a França não pretende assinar o acordo Mercosul – União Europeia porque o Brasil “não respeita a Floresta Amazônica”. A afirmação foi feita para a emissora de televisão BFM.

– Na Colômbia, o ex-presidente Alvaro Uribe será investigado pela Corte Suprema. Ele já prestou depoimento na terça (8) e está sendo investigado por fraude processual e compra de testemunhas para defendê-lo, em uma comissão parlamentar de inquérito (2014), de uma acusação de que estava envolvido com grupos paramilitares. É o primeiro ex-presidente do país a ser investigado pela alta Corte. Segundo a imprensa colombiana, existem hoje mais de 60 investigações abertas contra Uribe, que vão de homicídio até compra de votos, 14 delas estão na Corte Suprema e outras 45 em comissões de investigação e acusação do parlamento.

– O candidato a presidente da Argentina, Alberto Fernández, afirmou na terça (8) que, caso seja eleito e empossado no próximo dia 10 de dezembro, seu governo abandonará o Grupo de Lima. Após uma reunião a portas fechadas com Daniel Martínez, candidato pela Frente Amplio à presidência do Uruguai, Fernández se pronunciou e elogiou a postura do Uruguai e do México frente à situação da Venezuela. Nas palavras dele: “Ninguém deixa de dizer que ali (Venezuela) se complicou a convivência democrática. A Argentina deve ser parte dos países que querem ajudar os venezuelanos a encontrar uma saída. Estar no Grupo de Lima é contraditório com isso”. No último mês de setembro, nos marcos da AGNU, o governo de Macri apoiou a reativação do TIAR contra a Venezuela.

– No Chile, segue quente o debate sobre a redução da jornada de trabalho de 45 para 40 horas. Na terça (8), o presidente S. Piñera apresentou os integrantes de uma mesa técnica, que vai analisar as implicações de uma mudança na jornada. São 17 especialistas que terão oito semanas para preparar um documento, que será apresentado como forma de reação ao projeto das parlamentares Karol Cariola e Camila Vallejo. A proposta se tornou bastante popular nos últimos meses, por apresentar uma mudança para 40 horas da jornada, sem implicar em redução salarial ou qualquer tipo de flexibilidade. Na lista de “especialistas” de Piñera não aparece sequer um nome de alguém comprometido com os interesses das e dos trabalhadores.

– Nesta terça (8) o presidente Evo Morales, da Bolívia, agradeceu o esforço de 4.500 voluntários civis e estrangeiros, bombeiros, policiais, militares e representantes de 196 instituições, além do apoio de 15 países (Brasil não está entre eles) nos 45 dias de trabalho para apagar, em sua totalidade, os incêndios florestais na Chiquitania boliviana, situada na região de Santa Cruz no leste da Bolívia. O governo gastou pelo menos 23 milhões de dólares na operação, atacando mais de 8 mil focos de incêndio ao longo dos meses de agosto e setembro.

– O presidente Trump reafirmou a saída de tropas dos EUA da Síria, para dar passagem ao governo turco, que pretende atacar os curdos. Nas palavras de Trump: “Turquia, Europa, Síria, Irã, Iraque, Rússia e os curdos têm a tarefa de resolver a situação, pois nosso país deve sair de ridículas guerras sem fim”. No entanto, Trump sendo Trump, afirmou também que a depender do que os “turcos fizerem” vai “destruir a economia da Turquia”.

– No Brasil, após a Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros pedir a suspensão dos atos administrativos, que orientam diplomatas brasileiros a defender o conceito de gênero como “o sexo biológico” em foros multilaterais, o ministro Gilmar Mendes, do STF, deu dez dias para o chanceler Ernesto Araújo explicar as instruções dadas pelo MRE aos diplomatas, para que reforcem o entendimento do governo de que a palavra gênero significa o sexo biológico em negociações durante foros multilaterais. Para a comunidade LGBTI, a orientação do governo brasileiro viola a dignidade humana e contraria o entendimento firmado pelo Supremo no julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade 4.275, em que foi reconhecida a possibilidade de transgêneros alterarem nome e gênero no registro civil, mesmo sem a realização de procedimento cirúrgico para redesignação de sexo.

– No Reino Unido segue o impasse sobre o Brexit. Segundo a chanceler alemã Angela Merkel, na imprensa, é improvável que se chegue a um acordo. A situação da Irlanda do Norte permanece como impasse.

– Segundo a nova presidente do FMI, Kristalina Georgieva, o mundo vive uma “desaceleração econômica sincronizada”.

– Os dias 8 e 9 de outubro são marcos. Há 52 anos, Che Guevara foi preso e assassinado no interior da Bolívia.

– Nos EUA segue o Ucrânia Gate. Agora, Trump está proibindo o embaixador dos EUA para a UE, Gordon Sondland, a testemunhar na CPI que investiga o caso na Câmara de Representantes.

– A Itália terá menos representantes. Foi aprovado na terça (8) um projeto que diminui de 945 congressistas para 600 no parlamento do país.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum