Andrea Caldas

política e educação

07 de abril de 2020, 22h24

A tensão entre Mandetta e Bolsonaro e a aliança que sustenta este (des)governo

Leia na coluna de Andrea Caldas: “A crise não se resolve optando por um dos polos da tensão, mas sim rompendo com a causa da tensão, pois não é possível manter um sistema excludente e concentrador”

Luiz Henrique Mandetta e Jair Bolsonaro - Foto: Isac Nóbrega/PR

Bolsonaro nunca foi a primeira opção das elites. Assim como Collor lá atrás não o fora.

Bolsonaro e Collor são daqueles golpes dos espasmos históricos, que fazem figuras medíocres ascenderam ao poder. (Justiça feita a Collor, ele era relativamente mais letrado do que o atual presidente miliciano).

Ocorre que toda vez que o neo ou ultraliberalismo se encontra na curva histórica de ter de colocar a crise (e não a solução dela) como receita, ele perde apoio popular.

O capitalismo é popular quando vende vantagens ou promessas de sucesso: meritocracia, American way of life etc.

O capitalismo em crise não tem apelo popular e muito menos eleitoral. Por isso, ele precisa se valer quase da sua antítese histórica, ele precisa se valer da fé e da virtude de sacrifícios.

E vejam só que ironia histórica: se lá atrás a Reforma Protestante foi tangida, à luz da ascensão da burguesia, para se contrapor ao ascetismo católico como a teologia da salvação e do sucesso individual, hoje, o neopentecostalismo inverte a curva para pregar a virtude de sacrifício.

Volta-se a falar em jejum, em perdas necessárias…

Porque é óbvio que um regime que não consegue mais, por todas as suas contradições internas, prover o bem-estar universal, precisa usar de uma explicação metafísica para justificar a morte, a miséria, a exclusão.

Ora, não há mais bases racionais, no século XXI, que justifiquem a fome e a miséria. A única possibilidade é o apelo ao irracionalismo. A teorias de castigo divino ou carma individual.

Essa me parece ser a tensão permanente da aliança que sustenta o (des)governo atual.

Mandetta, mesmo que ministro de Bolsonaro, estudou alguma coisa na Faculdade de Medicina, que o coloca com certa responsabilidade frente ao conhecimento científico.

Responsabilidade esta que afronta o obscurantismo, que permitiu que uma figura tão tangencial e medíocre da política brasileira fosse eleito presidente.

Essa é uma tensão que, ao mesmo tempo, sustenta esse arranjo provisório e o mantém em constante crise.

A crise não se resolve (ou se resolverá) optando, momentaneamente, por um dos polos da tensão. Porque é da natureza dessa crise a sua instabilidade.

A crise se resolve rompendo – historicamente – com a causa da tensão: ou seja, não é possível mais manter um sistema excludente e concentrador.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum