Andrea Caldas

política e educação

29 de agosto de 2018, 15h06

Bolsonaro, Renata, eu e nós…

Andrea Caldas, em novo artigo, diz: “Muitas de nós vimos em Bolsonaro o algoz da esquina, da reunião do partido ou departamento, do RH, do parente ou do namorado”

Política é projeto. Política é racionalidade. Mas, sobretudo, política é afeto, paixão e subjetividade.

Pense agora: o que foi que fez que você se vinculasse a determinado grupo ou projeto? Foi – desde início- o programa racional ou foi o afeto? Alguém que você gostava ou admirava. Algo que calou fundo nas suas preocupações e dores.

Sim, esta é sempre a porta de entrada. A necessidade. Material ou subjetiva. Não importa. Eu me conecto àquilo que diz respeito às minhas necessidades.

Isto explica porque Bolsonaro, um homofóbico e misógino explícito, não consegue a maioria de votos entre mulheres.  Mas, faz sucesso entre homens de variadas faixas de escolaridade e salário.

Bolsonaro, como já escreveu Esther Solano, encarna o ideal da hipermasculinidade, própria do ocaso do macho-alfa.

Este espécime – que, espero, esteja em extinção – esperneia e luta pela sua perpetuação. Sua face mais evidente está à direita. Sua face oculta, nas piadinhas da esquerda.

Por isto, o embate com Marina e Renata Vasconcellos foi tão comentado. Antes disto, com Maria do Rosário.

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Ok, Renata é funcionária da Globo. Mas, de verdade, quem de nós mulheres não se reconheceu na interrupção corajosa do discurso machista. Não assino embaixo dos argumentos liberais da jornalista de que seu salário é problema seu. (Não, não é. Salário precisa ser regulado socialmente).

Também, não simpatizo com a pauta liberal – onguista de Marina, mas jamais enaltecerei agressões a ela como mulher.

Não faço parte do partido de Maria do Rosário, mas, quase vomitei com a fala de Bolsonaro do “Só não te estupro porque você não merece”.

Sim, temos divergências entre mulheres e podemos ter. Mas, se há algo que nos une – tal como uma teia invisível – é o medo, o pavor da agressão masculina. Somos criadas desde menina para temer sempre, a cada esquina, em cada beco, em qualquer ocasião.

A organização e a luta nos ajudam.

Mas há sempre um lugar atávico do medo obscuro diante da violência e da potência física. O pomo de Adão e o pênis, há tempos, são instrumentos de opressão e seviciamento.

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Esta memória histórica leva anos para ser superada.

Por isto, Bolsonaro fez sucesso entre muitos homens (e, curiosamente, entre algumas mulheres) na entrevista da Globo.

Mas, muitas de nós vimos em Bolsonaro o algoz da esquina, da reunião do partido ou departamento, do RH, do parente ou do namorado.

Muitas de nós, que um dia sofreram agressão, nos colocamos do lado de lá.

Isto parece indicar onde está a força de combate.

A força motriz, a da resistência, da dor transmutada em coragem.

 


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