Andrea Caldas

política e educação

28 de setembro de 2019, 21h31

Contra Bolsonaro: muitos ao centro. E a esquerda?

Andréa Caldas: “Os acordos da democracia de vitrine não fazem mais sentido. A resistência é concreta, real e cotidiana. É ela que deve ser a nossa régua para as novas alianças e contratos”

Foto: Carolina Antunes/PR

A desordem institucional promovida pelo bolsonarismo, que faz da milícia seu modus operandi, tem como alvo definitivo a quebra da legalidade, instituída formalmente pela Constituição de 88.

Se para muitos, ela era um horizonte; para outros, um limite a ser ultrapassado em direção a um futuro menos desigual. Depois do estado miliciano, ela virou o bastião que divide fronteiras.

Defender a ordem e a institucionalidade democrática passou a ser o fôlego, em meio a um governo que pretende rumar à Idade Média.

Como dizia Florestan Fernandes, na ausência de uma burguesia com projeto nacional, restou sempre aos trabalhadores (as) realizar as tarefas que, em outras plagas, o capitalismo empreendeu.

Reforma Educacional, Reforma Agrária, Saúde Universal, Assistência Social – bandeiras capitalistas que neste país, que não se desvencilha da herança colonial e escravagista, foram vistas como subversão.

O cenário nacional parece levar a maioria dos partidos e personas ao centro, na direção de recuperar o pacto da civilidade burguesa que vigorou até 2016.

É este o movimento de Flávio Dino, que entrega a base de Alcântara, em troca de supostos empregos, e de Fernando Haddad, que busca separar o “capitalismo bom” da barbárie.

Mesmo Luciano Huck, no campo neoliberal, tenta se colocar acima dos conflitos.

Confesso que a Andréa-cidadã suspira de alívio com tudo que seja alternativa à Idade das Trevas, à incivilidade e ao desrespeito com os direitos democráticos, verbalizados e exercidos pelo atual governo do terraplanismo e da histeria da Guerra Fria.

Mas, a Andréa-cidadã é como o Esteves sem metafísica, da “Tabacaria”, de Fernando Pessoa.

Aspira a uma vida boa sem conflitos. (Agnes Heller).

Um partido dirigente, no campo da esquerda, precisa considerar os sentimentos justos e válidos dos Esteves – sem metafísica e das Andréas-cidadãs.

Mas, não pode se restringir a eles.

Um partido dirigente, no campo da esquerda, precisa superar a mistificação do senso comum e entender que as aspirações pela “vida boa, sem conflitos” são legítimas, mas, não se atingem por atalhos.

Minha geração acostumou-se a acreditar que se a ordem presumida da Constituição de 88 fosse atingida, o mundo seguiria seu curso da disputa civilizada na polis.

Ocorre que o mundo mudou. O capitalismo, que era contexto daquela ordem, entrou em crise.

Insistir na resposta do passado para um tempo em erupção é um erro.

E talvez, neste caso, precisemos – como nos ensinou Marx – olhar para o real concreto e observar o que as práticas sociais dos jovens e militantes do chão da terra estão a nos dizer.

Há um clamor por mudanças, não só de políticas, mas de formas de fazer política.

Os acordos da democracia de vitrine não fazem mais sentido.

A resistência é concreta, real e cotidiana.

É ela que deve ser a nossa régua para as novas alianças e contratos.

Uma nova ordem precisa ser construída.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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