Andrea Caldas

política e educação

05 de março de 2019, 19h59

Há uma esquerda que é órfã da Globo

Em seu novo texto para a Fórum, Andrea Caldas diz que a “Globo não fará, nem hoje, nem nunca, o papel de educação política que cabe às escolas, universidades, movimentos sociais, partidos e governos”

Sim, uma parte da esquerda cobrou da Globo (!) a função de tecla sap do enredo metafórico da Tuiuti.

Supostamente, o enredo da Escola homenageava Lula.

Mas, como isto não ficou absolutamente claro na narrativa do samba-enredo, militantes cobraram que a Globo deveria ter esclarecido esta lacuna interpretativa.

E por que uma televisão comercial deveria ter este papel?

Porque não temos e não tivemos uma alternativa público-estatal de rede de comunicação de massas.

Porque durante 13 anos, de governos lulistas, a TV Brasil tornou-se um santo sepulcro. Nem os militantes do governo a assistiam.

Há um diálogo que Roberto Requião reporta sempre em que ele teria proposto a José Dirceu, então Ministro da Casa Civil do primeiro governo de Lula, um projeto de vitalização de uma TV pública e que Zé Dirceu teria dito:

“Não precisamos, já temos a nossa TV Estatal. É a Globo”.

Se é verdade ou não, o fato é que dívidas da Globo nunca foram cobradas, que a publicidade estatal correu solta para a Globo e que Lula – ao contrário do liberal Tancredo Neves – concedeu sua primeira entrevista oficial na bancada da Globo.

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E depois disto, a Globo cofinanciou o filme “Lula, o filho do Brasil” – um drama açucarado que tratava de apresentar Lula com um self-made man.

E logo mais, Dilma foi ao sarau da Lily Marinho e fritou omelete no programa da Ana Maria Braga.

Ninguém cobra isto da TV Brasil. Até porque ninguém assiste.

Ninguém cobra da Record – que hoje, disputa índices de audiência com a Globo, nos segmentos populares.

A bronca é sempre com a “tela da Globo”, que todo mundo boicota e todo mundo comenta.

E este raciocínio enviesado também contaminou a percepção sobre a Regulação da Mídia.

Enquanto a maioria dos militantes da área defende uma regulação econômica (contra a cartelização vigente) e princípios básicos do direito constitucional, como o direito de resposta, há gente que acredita que a Regulação da Mídia fará censura de conteúdos.

Há gente que sonha com uma Globo pessoal.

Mas, como já disse José Simão, a grande questão que se coloca é “desestatizar a Globo”.

A Globo não fará, nem hoje, nem nunca, o papel de educação política que cabe às escolas, universidades, movimentos sociais, partidos e governos.

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A Globo é privada, ainda que concessão estatal.

Não cobremos dela um papel que é nosso.

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