Andrea Caldas

política e educação

07 de fevereiro de 2019, 21h44

O cinismo econômico como nova (des)hegemonia

Andrea Caldas: “É preciso que a gente se reinvente para enfrentar um sistema em putrefação, mas que ainda tem a força dos estertores da morte para estabelecer o seu jugo autoritário e profundamente mórbido”

Houve um tempo em que o capitalismo tentou se vender como a terra das promessas. O “American Way of Life” ou mesmo o “Welfare State” era o contraponto às esperanças dos trabalhadores no socialismo.

Caindo o Muro, Hobsbawm já asseverava, em 89: Quem mais irá sofrer serão os trabalhadores dos países capitalistas que não mais terão a aposta (ou ameaça, segundo alguns) do socialismo como contraponto.

O novo mundo capitalista (do fim da história) não é mais promessa de esperança em uma vida melhor, mas a resignação diante do “não há saída”.

Vivemos um outro tempo em que a busca pela hegemonia, na era do capitalismo ascendente, cede espaço para a arrogância do niilismo e a prepotência da dominação, pura e simples.

Os ideólogos do capitalismo não querem mais nos convencer que podemos viver em um mundo bom e próspero – como nossos avós e pais acreditaram.

Eles simplesmente aduzem o seu darwinismo social, com a segurança de quem acredita que estará sempre no topo da cadeia alimentar.

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Isto significa mais e mais repressão. Mais e mais violência do Estado que não mais se traveste de imparcial ou impessoal.

E não por acaso, os apelos religiosos em favor da resignação e do sofrimento entram como o único elemento ideológico possível em um sistema que abdicou da felicidade geral.

Trata-se do convencimento passivo.

Trata-se da morte da racionalidade e do sepultamento do iluminismo, outrora, basilares do liberalismo.

Mas, atenção.

Ao abrir mão da hegemonia e do convencimento ativo, este mesmo Capital apela para a violência e provoca a violência como resposta.

Os tempos pretéritos de regimes decadentes que apelaram para a coerção no lugar da hegemonia são as histórias de crises e convulsões sociais.

Esta parece ser a paisagem mais provável dos nossos tempos.

Um Estado que desistiu abertamente da mediação de conflitos.

Um Estado que deixou de ser Estado.

Neste novo cenário conjuntural não cabe mimetismos de lutas pretéritas, nem comparações forçadas com outras eras.

É preciso que a gente se reinvente para enfrentar um sistema em putrefação, mas que ainda tem a força dos estertores da morte para estabelecer o seu jugo autoritário e profundamente mórbido.

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Somos nós que podemos enfrentar a promessa de morte com a aposta na vida.

Nós, os que não nos resignamos.

Nós, os que queremos transformar o mundo.

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