Andrea Caldas

política e educação

22 de janeiro de 2020, 23h52

Vamos sepultar o “lugar de fala”

Andrea Caldas: "O capitalismo tratou de mudar este conceito para o signo da propriedade e muitos, muitos grupos sociais caíram neste engodo. Passaram a ser os patenteadores do poder falar e dizer"

Gramsci - Foto: Wikimedia Commons

Hoje é dia do aniversário de Gramsci e eu proponho uma comemoração: Vamos sepultar o “lugar de fala”.

Não o lugar “de onde eu falo”, que foi a origem deste significado. Identificar que cada um pode (e deve) falar de onde vem, a partir de suas existências e vivências.

O capitalismo tratou de mudar este conceito para o signo da propriedade e muitos, muitos grupos sociais caíram neste engodo. Passaram a ser os patenteadores do poder falar e dizer.

De libertários e socialistas viraram carimbadores de autoridade. Nada menos comunista. Tudo a ver com o privatismo. De posses, imagens, identidades. Privadas. Poder…

Gramsci vinha do sul da Itália e odiava o lugar meridional. Boa parte da sua obra é tentar entender o porquê dos vindos daquele lugar tinham renegado os interesses de classe.

Gramsci não acreditava em predestinação genética, nem geográfica.

Gramsci criticava Croce, seu patrício do sul da Itália, que passara para o lado de lá: do fascismo!

Gramsci se encantara com os operários de Turim e a luta dos socialistas internacionais.

Escrevo isto porque, hoje, divulguei um texto de crítica aos artistas do sertanejo e do funk.

Eu já havia sido atacada por criticar a “empoderada” Anitta – afinal, eu sou branca e nunca entrei em um baile funk.
Por isto mesmo me certifiquei de que o autor do texto era negro, morava na periferia do Rio e a pessoa que me divulgava o texto era mulher e negra.

Mesmo tomando todos estes cuidados dos emissários (com poder de fala) vi críticas a um suposto elitismo de classe média, de quem não conhece, nunca pisou etc e tal.

Só por isto escrevo em homenagem ao Gramsci, que muita gente deve estar homenageando hoje, que era comunista, europeu e branquelinho.

Ou a gente defende o internacionalismo das lutas ou a gente defende fazer “xixi no canto”.

E aí não dá para ser gramsciano.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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