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26 de junho de 2018, 12h18

As sete virtudes capitais

Leia na coluna #HumanidadeCrônica, de Charles Carmo: "Quem não conhece o próprio corpo é incapaz de conhecer o corpo social"

I – A PUREZA

Haverá exceções, mas, via de regra, o casto é um maçante perpétuo. O falar pontuado, um jeito de dizer burocrático como um carimbo de almoxarifado, medido, avesso às espontaneidades. O puro, que tudo acha sujo, dá os braços a esse esquadro moral que o acompanha em dedicação integral. Se lhe fizessem o gosto, poria retas até no Corcovado.

Fosse somente a chatice, vá lá. Ocorre que a pureza é antinatural. Ela está para a natureza assim como uma caixa de isopor, ou pior, um sofá a apodrecer, incógnito, no fundo do rio.

A vida exige aprendizado, acúmulo de experiências práticas que conduzem a um eterno reinventar. Esqueçam Adão e Eva, porque eles mal se conheceram e já casaram. A redentora safadeza ocorreu quando alguém, em um incontrolável acesso de tesão, mudou a posição de cópula e pôs fim a milênios de monotonia sexual.

À safada original e ao descarado pioneiro, devemos tudo o que somos.

Digo. Chego mesmo a afirmar em pleno domínio de minhas convicções. Ao renegar a luxúria, o resultado é sempre trágico.

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A ninguém é dado o direito de esquecer, por exemplo, o terror na Revolução Francesa. Uma nação se banhando em sangue porque sua principal liderança era um puro incorrigível, um imaculado convicto, segundo o qual a virtude deveria guiar todas as ações e, para atingir tal propósito, não se negaria a dar utilidade à guilhotina.

Robespierre era virgem, incapaz de compreender essa outra revolução, anterior e mais poderosa.

A sacanagem havia saído do corpo humano e incorporado no corpo social.

Cidadãos sem vícios, culto da virtude – quão longe da realidade estão essas palavras. Não podia terminar bem.

A pureza, dissimulada, sempre nos levou ao cadafalso, ao sacrifício e à infelicidade.

Certa vez, por ocasião da Guerra do Golfo, um comerciante de Brasília estendeu uma faixa na entrada de seu estabelecimento:

“Enquanto Monica Lewinsky estava na Casa Branca, não morria um iraquiano”.

Desconheço protesto semelhante.

Foi um sucesso colossal, entre homens e mulheres. Hordas de turistas, com celulares à mão, buscavam eternizar o momento em fotografias que jamais serão reveladas, e que se perderão no tempo. Há quem diga que chegou a rivalizar com a Praça dos Três Poderes em número de visitantes, embora, como sabemos, nessa última a libertinagem está a mais tempo estabelecida, levando larga vantagem.

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Quem não conhece o próprio corpo é incapaz de conhecer o corpo social. Com séculos de vantagem, é certo, o comerciante de Brasília vislumbrou o que Robespierre não conseguiu, com as limitações de seu tempo.

A sacanagem, meus amigos, é matar em nome da virtude e da pureza.


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