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04 de abril de 2018, 10h44

As técnicas de manipulação do caso Lula

A prisão de Lula o transformará em um mártir, o que acarretará numa explosão dessa bipolaridade política fabricada pelos que manipulam a opinião pública

…se constrói de modo artificial uma mensagem em função unicamente de sua capacidade de obter a todo custo a adesão das pessoas
Phillipe Breton

Existe um romantismo por parte dos intelectuais que insiste em compreender as manifestações populares como um preâmbulo da revolução social. É uma visão ufanista que surgiu com a fé na democracia e com a utopia do poder popular. Mas isso não é verdadeiro. O sociólogo José de Souza Martins salienta que “o comportamento coletivo não se desdobra necessariamente nos movimentos sociais nem neles se transforma. Ao contrário, ele tende a se constituir e a se manifestar como tendência oposta à destes últimos”.[1]

A falta de uma orientação política leva o comportamento coletivo para uma direção conservadora. É só observar como se comporta a opinião pública do Brasil atualmente. Ela está dividida entre os que querem o retorno de Lula e os que querem Bolsonaro. Nenhuma dessas opções são “realmente” revolucionárias, pelo contrário, as duas, de certa forma, exigem um retorno. O retorno do petista está relacionado à dádiva, a aquele que fez pelo povo, mais ou menos como Vargas no passado. Trata-se da volta a uma condição supostamente confortável (uma perspectiva que é manipulada pela ilusão que a visão em retrospectiva alimenta). Já o outro representa o retorno dos valores tradicionais, da família e da religião cristã.

A manipulação e o caso Lula

A opinião pública possui um problema sério. Rousseau a vinculava aos “costumes”, a herança do passado ou criações espontâneas nunca certamente como o resultado de uma discussão política. Hegel já a entendia como um conjunto acidental de modo de ver subjetivos, que possuem uma generalidade meramente formal, incapaz de atingir o rigor da ciência. O cientista político Nicola Matteucci, acredita que há dois fatores que prejudicam a formação de uma opinião pública autêntica: “de um lado, o eclipse da razão que, para demonstrar sua legitimidade, tem que demonstrar ser útil praticamente e tecnicamente avaliável para o bem-estar…; de outro, à ‘indústria cultural’ que transforma as criações intelectuais em simples mercadoria destinada ao sucesso e ao consumo, sendo o desejo da glória suplantado pelo dinheiro”.[2] Pensar política não se torna viável em uma sociedade de consumo e imediatista onde a teoria é rejeitada, onde as pessoas querem resolver apenas os problemas materiais de um cotidiano que as classes dominantes asforçou a viver.

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A manipulação da opinião pública pelos jornais, programas de TV, ou seja, pela “publicidade”, é algo comum nos dias de hoje.Isso prejudica a organização social.

Não estou dizendo que Lula não esteja sofrendo uma perseguição política, o que é mais que óbvio. O fato é que o retorno do ex-presidente ao poder não alteraria em nada as peças do xadrez. Está mais ligada a necessidade de se manter um costume que uma superação da estrutura social. Não acredito que há alguém na esquerda que agirá como Lenin que defendeu a revolução de Fevereiro, mas depois, por meio de um golpe, tirou Kerenski do poder e colocou os soviets. Se a questão fosse essa, estaria aqui defendendo um outro ponto de vista.

O que está mais que óbvio é que tudo faz parte da manipulação da opinião pública. A mídia pune os que ela chama de “radicais”, os petistas e os protofascistas seguidores de Jair Bolsonaro, enquanto que vai mostrando uma solução “centrista”. O melhor caminho para o empresariado (e provavelmente o que irá acontecer) é a condenação de Lula sem sua prisão (uma violação a interpretação tradicional da lei). Primeiro porque o objetivo é torná-lo inelegível, e não é necessário prendê-lo para isso. Se isso não acontecer, o golpe não teria sentido. Se isso não acontecer, o petista terá feito um acordo com os donos do poder similar ao de 2002. Segundo porque a prisão de Lula o transformará em um mártir, o que acarretará numa explosão dessa bipolaridade política fabricada pelos que manipulam a opinião pública.

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Por outro lado, a absolvição de Lula vai fazer parecer que o Supremo, com a imagem já abalada nos circuitos populares, está aliado com a esquerda. Aumentando ainda mais o ódio a esta. Essa retórica certamente será alimentada pelos que pretendem derrubar os movimentos sociais que apóiam o ex-presidente. A mídia alimentará esse discurso apresentando grupos aparentemente dissociados da corrupção que prevalece na política, com o conhecimento do Supremo, já que Alckmin, Rodrigo Maia e Meirelles quase não são mencionados em escândalos de corrupção.

O pior cenário seria a manipulação do caos que decorreria por conta da prisão de Lula (caso esta ocorresse). A “publicidade” poderia, deste modo, privilegiar ainda mais uma posição moderada, com aquele discurso fleumático de Alckmin convencendo todos a votar no que convenientemente passou a chamar de centro. No entanto, essa seria uma posição muito arriscada devido a agitação popular que poderia se desencadear.

O povo acreditou no impeachment da presidente Dilma, depois se revoltou com o que se formou. O povo apoiou a intervenção civil-militar, e agora já mostra sinais de insatisfação já que policiais continuam morrendo, tiroteios acontecendo, assaltos constantes etc.. O povo não irá compreender sozinho que as classes dominantes não querem o seu bem, não entenderá que o seu inimigo é o opressor e não oprimido.A manipulação serve de bloqueio para a compreensão da sua realidade. Não que o povo não saiba o que faz.Não que o povo seja as pessoas incultas como acreditavaHerder na distinção que fazia entre Kultur der Gelehrten e KulturdesVolkes. O fato é que a manipulação da informação, não ajuda na formação de uma interpretaçãopopular autêntica.

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Phillipe Breton pergunta: “O público tem consciência, hoje, de ser objeto de múltiplas tentativas de manipulação?”. E atenta para as técnicas usadas por políticos demagogos e empresas, que aumentaram nos últimos anos, mas são “amplamente subestimadas”.[3] “Manipular, escreve Breton, consiste em construir uma imagem do real que tenha a aparência de ser o real”, é o que vemos nas fakenews que levanta políticos, o Lula que esteve do lado do empresariado e hoje se transverte de trabalhador, abandonando o terno e a gravata de outrora. O Bolsonaro que chama todo mundo de vagabundo como se ele fosse trabalhador. Em política não há lugar para mocinhos, vence quem é capaz de lançar a mensagem mais manipuladora. E a maior de todas é sem duvida se apresentar como centro.

A ideia ingênua de que em uma democracia não há manipulação fez com que suas técnicas aumentassem exponencialmente. É preciso “reconhecer que muitos empreendimentos que visam convencer são efetivamente marcados pelo selo da manipulação” e que “toda comunicação é influência e manipulação”.[4] Estamos no reino da dissimulação.Portanto, as classes trabalhadoras precisam de instrumentos capazes de fornecer uma visão para além da ilusão proveniente da manipulação da opinião pública, algo autêntico, que defenda seus interesses, que venha do seu interior, proveniente, sobretudo, de intelectuais orgânicos.

 

[1] MARTINS, José de Souza. Os linchamentos: a justiça popular no Brasil. São Paulo: Contexto, 2015, p. 75.

[2] BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola e PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política. trad. Carmen C, Varriale et ai.; coord. trad. João Ferreira; rev. geral João Ferreira e Luis Guerreiro Pinto Cacais. – Brasília : Editora Universidade de Brasília, 1 la ed., 1998. p. 845.

[3] BRETON, Philippe. A manipulação da palavra. Trad. Maria S. Gonçalves. São Paulo: Loyola, 1999. p. 9.

[4] Id. p. 17.


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