Benedita da Silva

29 de dezembro de 2019, 17h27

2019 foi dele, mas 2020 promete ser do povo e da democracia!, por Benedita da Silva

Em menos de um ano o retrocesso imposto foi tão grande que a maioria da sociedade brasileira está colocada diante de um impasse civilizatório: ou resiste ou desaparece enquanto nação soberana

Benedita da Silva (Reprodução/Facebook)

Qualquer retrospectiva de 2019 que não seja uma fake news mostrará o envelhecimento precoce do governo Bolsonaro, principalmente por conta do que ele próprio diz e faz.

Para os 47 milhões de eleitores que votaram em Haddad não havia a menor dúvida de que Bolsonaro representava o retrocesso social e o esmagamento da democracia. Mas para quem votou nele enganado, sobretudo o eleitor da base popular, viu o seu “mito” se desfazer na Reforma da Previdência, no desemprego e precarização do trabalho, no rebaixamento do salário mínimo, no aumento do gás e da carne; na perseguição da educação e da cultura, nas queimadas da Amazônia, na corrupção assumida e naturalizada e na “licença para matar” indígenas, trabalhadores/as sem-terra, pretos e pobres.

Os moradores das comunidades que votaram nele pensando que a violência seria finalmente combatida, descobriram da pior forma que para Bolsonaro os “bandidos” a serem enfrentados eram eles próprios: moradores de periferia.

Quem votou nele achando que a corrupção seria combatida, também descobriu penosamente como é ter um presidente que acoberta a corrupção e o nepotismo. Um presidente que usa do poder para tentar obstruir a ação da Justiça nas investigações que envolvem a sua família e membros de seu governo.

Bolsonaro foi tão longe no acobertamento da corrupção que até mesmo uma conhecida porta-voz da grande mídia se sentiu obrigada a reconhecer que a “bandeira da moralidade foi apenas uma mentira para enganar eleitor”. Ela sabe o que diz, pois foi repetindo essa mentira contra Lula, acusando-o falsamente de corrupto durante vários anos, que essa mesma mídia conseguiu afastar dele parte do eleitor popular.

Por tudo isso, pelo conjunto da sua obra de ódio, violência e destruição, era de se esperar que a desaprovação de Bolsonaro começasse a crescer. A última pesquisa do Ibope feita no ano registra que 53% não aprovam a maneira de Bolsonaro governar (eram 40% em abril, 48% em junho e 50% em setembro).

A elite brasileira vive o dilema de apoiar o ministro da Fazenda, Paulo Guedes, mas renega Bolsonaro. Nunca podemos esquecer, porém, que Bolsonaro é filho legítimo da campanha de ódio e mentiras da grande mídia associada à Moro e à Lava Jato para criminalizar Lula e o PT e dar o golpe de Estado na presidenta Dilma por meio de um falso impeachment.

Em seus 30 anos de política, Bolsonaro nunca escondeu seu ódio à democracia sobretudo quando esta permite a conquista de direitos para mulheres, LGBTs e todos os excluídos da sociedade. Ele sempre defendeu a ditadura militar e seus torturadores.

A verdadeira marca de seu governo é a da morte, do gesto da mão imitando uma arma, da exaltação da milícia e da liberação de armas.

A arma e a violência que ela simboliza é vista como a solução para todos os problemas sociais do país.

Não foi por acaso que, no início de seu governo, um músico negro de 51 anos, que levava a família para um chá de bebê, foi abatido com 80 tiros de fuzil por uma patrulha do Exército. Nem desculpas o presidente deu a sua viúva.

Coerente com isso, Bolsonaro transformou o tradicional indulto de Natal num indulto seletivo para policiais e agentes penitenciários que cometeram crimes considerados culposos, ou seja, a maioria das execuções feita sob efeito de “violenta emoção”, segundo o entendimento de Moro.

A mentira, o ódio, a violência e o medo são seus métodos de governo. Podemos dizer que o seu “programa de governo”, se é possível usar essa expressão com Bolsonaro, se reduz, de um lado, a discriminar e matar quem não for considerada “pessoa de bem” e, do outro lado, a defender os privilégios das elites econômicas e dos três poderes da República que atuam como verdadeiras castas acima da grande maioria da população.

Em menos de um ano o retrocesso imposto foi tão grande que a maioria da sociedade brasileira está colocada diante de um impasse civilizatório: ou resiste ou desaparece enquanto nação soberana. E esse impasse não é da esquerda, do centro ou da direita, mas do consenso firmado pela Constituição de 1988 em cima dos valores liberais clássicos.

No decorrer desse ano-pesadelo de 2019, a resistência não foi subjugada e cresceu tanto no Congresso quanto nas redes e nas ruas. Os estudantes e professores mobilizaram milhões de pessoas em defesa do direito à educação. A oposição conseguiu vitórias parciais contra o rolo compressor da maioria antipovo no Congresso.

Mas dois fatos merecem destaques porque remaram contra a maré fascista criando possibilidades reais de mudança. São eles: a revelações do Intercept, desnudando a farsa da Lava Jato de Moro e Dallagnol e a libertação de Lula de sua prisão política.

No primeiro caso, se atinge seriamente a narrativa do golpe de 2016 e do antipetismo. No segundo caso, a liberdade de Lula vai fortalecer a narrativa popular dos direitos sociais, da democracia e do respeito à Constituição.

Isso ocorre num momento em que o povo mais pobre sinaliza a sua rejeição a Bolsonaro e a sociedade progressista, da esquerda ao centro-direita, começa a reagir contra o retrocesso.

Diante disso é possível afirmar que se 2019 foi do fascismo, o ano xe 2020 tem tudo para ser do povo e do avanço da luta pela retomada da democracia.

Para isso, no entanto, as forças progressistas e populares precisam estar unidas nas próximas eleições municipais para libertarem as cidades que estejam sob o jugo do bolsonarismo e da ultra-direita. Esta é a melhor perspectiva que temos para o Ano Novo.

Em 2020, a luta continua!

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