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23 de agosto de 2018, 16h39

Bolsonaro e a masculinidade tóxica

Derrotar o candidato do PSL não é apenas evitar a barbárie brasileira, mas é também começar a deixar para trás um tipo de estrutura e organização social que privilegia a violência da heterossexualidade compulsória para uma vida em comunhão entre as várias raças, identidades e orientações sexuais na construção do Comum

Foto: Agência Câmara

Não há tipo melhor para definir o que seria masculinidade tóxica do que o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL). O candidato da extrema direita carrega em si todas as características do “macho viril”: defende o porte de arma para autodefesa, necessidade contínua de diminuir as mulheres, pavor à homossexualidade – a liberdade é sempre uma afronta ao “macho viril” – e precisa sempre reafirmar a sua heterossexualidade, o que revela uma extrema fragilidade quanto a sua identidade sexual.

Aliás, fragilidade quanto a sua identidade e orientação sexual é a marca clássica da masculinidade tóxica, que revela não apenas a fragilidade do homem heterossexual e branco, mas também desnuda as “verdades” naturalizadas da heteronormatividade. Se os machos viris fossem tão seguros de si não se importariam com a vida das mulheres, das LGBT e d@s negr@s. A liberdade destes três grupos não seria um problema. Mas, por ser uma categoria forjada historicamente a partir das negações, pois, ao contrário do que se costuma dizer, a vida do homem heterossexual branco é uma narrativa de proibições, por isso o incômodo com a liberdade alheia.

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Desde criança os garotos são educados para serem machos viris e violentos, ao saírem desta rota são logo tratados como viados ou “homens incompletos”. Viados porque não exibem sua masculinidade tóxica, muitas vezes ensinada em casa, mas também ensinada a partir dos produtos culturais e a partir da convivência com outros garotos, que também passam pela pedagogia do macho viril; são tratados como “homens incompletos” quando não submetem suas companheiras às regas do “macho viril”, quando não reproduzem e quando deixam de ser o provedor.

O macho viril é uma construção histórico-política que tem a sua raiz na descoberta da América, em 1492. Ao desembarcarem no chamado “Novo Mundo” e se depararam com outras maneiras de ser “homem” – aliás, “homem” é um conceito que será construído, posteriormente, pelo discurso médico da modernidade colonial -, descobriram comunidades onde as mulheres é que organizavam e ou trabalhavam junto com os seus companheiros em uma organização horizontal e não vertical, como já era praticada no “Velho Mundo”. A antropologia descolonial da América Latina e África vai chamar este tipo de “homo conquistus”, ou seja, surgia o macho conquistador, o homem branco heterossexual provedor não apenas do lar, mas da sociedade.

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Então, é a partir da invasão e dos genocídios praticados na América Latina e África que começa a ser forjada a “masculinidade tóxica”, o “macho viril”, o “conquistador”, enfim, esta máquina de matar, que ainda insiste em organizar as vidas: as dos homens brancos heterossexuais e, principalmente, de todos os corpos que ousem viver fora das regras de heteronormatividade. Obviamente não se trata de um projeto homogêneo, ele se deu e se dá de variadas maneiras dento e fora do Ocidente. Para quem quiser aprofundar, duas dicas de leitura: “Couro Imperial: Raça, Gênero e Sexualidade no embate colonial”, da socióloga Anne McClintock, e “Colonialidad y Poder”, da antropóloga Maria Lugones.

Por ser extremamente frágil é que a masculinidade tóxica sempre recorre a violência. Figuras como Bolsonaro e Trump possuem discursos que são todos calcados na violência e opressão das vozes e copos dissonantes. Mas, graças aos movimentos feministas, LGBT e negro o projeto de poder do “macho viril/ homem branco heterossexual” segue sendo questionado nos últimos, pelo menos, 200 anos. Ainda assim, as vítimas deste tipo de organização social não para de crescer – os dados de crimes de ódio contra as mulheres, LGBT e negros do Brasil estão aí para provar.

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Portanto, derrotar o candidato do PSL à presidência da República não é apenas evitar a barbárie brasileira, mas é também começar a deixar para trás um tipo de estrutura e organização social que privilegia a violência da heterossexualidade compulsória para uma vida em comunhão entre as várias raças, identidades e orientações sexuais na construção do Comum. É fato, porém, que a geração atual e a próxima verá muito pouco desta transformação, mas, pelo menos podemos ser lembrados por ser aquela geração que ousou enterrar a estrutura normativa e violenta da masculinidade tóxica.

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