Adriana Dias

direitos humanos e acessibilidade

02 de outubro de 2018, 16h28

Bolsonaro, o neonazismo e o ódio às mulheres

Como Jair Bolsonaro despertou a atividade de grupos neonazistas que atuam no Brasil

Ao sintetizar 15 anos de pesquisas da sobre neonazistas na rede mundial de computadores – buscando, basicamente, documentar o que pensam esses extremistas de direita, como cultivam o ódio e suas formas de ação em minha tese de doutorado – fiquei durante muito tempo pensando em um título. Escolhi ‘Observando o ódio’ porque foi isso que fiz, ao longo da graduação, do mestrado e do Doutorado. Observei profundamente (isso é etnografia. Essa análise que nasce de uma observação densa, no meu caso participando de fóruns, conversando com neonazista, sendo ameaçada de morte por eles, indo em passeatas, etc) o ódio neonazista.

Em 2002, quando comecei a pesquisar a extrema direita no Brasil e no mundo, as pessoas não viam sentido nesse esforço, porque não acreditavam na existência de um movimento neonazista. Infelizmente, os dados apontaram para um caminho que se mostrou verdadeiro. Agora as pessoas estão muito conscientes de que o fenômeno existe. No meu mestrado em 2007, a situação já estava muito mais grave do que quando iniciei as pesquisas. Agora, em 2018, explodiu.

Explodiu por conta do candidato neonazista, Bolsonaro. Thiago Tavares, presidente da Safernet, concorda comigo. Desde em 2012, Thiago, explica que, ao expor as opiniões publicamente – e não sofrer retaliações – Bolsonaro despertou a atividade das células neonazistas que atuam no Brasil. Você pode ler a matéria aqui.

Um dos exemplos mais chocantes foi o de uma célula de Belo Horizonte. Faziam parte Antônio Donato, Baudson Peret, Marcus Vinícius Garcia Cunha e João Matheus Vetter de Moura. Foram indiciados e o processo está correndo.

Postagens de suásticas e saudações nazistas também foram anexadas ao inquérito. Eles receberam carta de apoio de Jair Bolsonaro. Um deles chocou o país simulando enforcar um mendigo com correntes de aço.

Reprodução

Ele postou fotos com o filho saudando Hitler e com uma suástica. Consulte o processo em www.jfmg.jus.br > número:26863-20.2013.4.01.3800.

Reprodução

Para se ter uma ideia do que significa o crescimento do neonazismo: apenas no Twitter, há uma postagem antissemita no a cada quatro segundos (em português, inglês ou espanhol), no mundo; uma postagem em português contra negros, pessoas com deficiência e LGBTs a cada 8 segundos, no Brasil.

Por conta da pesquisa, li Mein Kampf dezenas de vezes para entender e desconstruir os mitos e textos neonazistas que, no limite, são constituídos por uma elasticidade absurda do conceito de raça: raça é religião, pátria, uniforme, tudo. Como escreveram Deleuze e Guatarri, filósofos franceses, “o racismo procede por determinação das variações de desvianças, em função do rosto Homem branco” pois “jamais suporta a alteridade (é um judeu, é um árabe, é um negro, é um louco…, etc.). Do ponto de vista do racismo, não existe exterior, não existem as pessoas de fora. Só existem pessoas que deveriam ser como nós, e cujo crime é não o serem.” Os movimentos de extrema direita foram se tornando cada vez mais vigorosos a partir do discurso sobre a ameaça de genocídio branco, afirmando que negros, imigrantes, indígenas, mulheres, judeus, gays, pessoas com deficiência, estariam ocupando os lugares ‘naturalmente dos brancos’. Acontece que não existe esse lugar naturalmente branco. Isso é uma invenção do colonialismo, do mercantilismo, do nazismo, do neonazismo. A Europa se manteve branca, durante séculos matando, escravizando, expulsando.

Em outros livros de ficção da extrema direita não há a perspectiva do não-branco e o mundo está imerso em crime, recessões econômicas e corrupção moral e política, para descrever um futuro extremamente sombrio, e que tudo isso tem como fundo os conflitos raciais. Adivinhem a solução? Um homem branco, hétero, de classe média, produtivo, sem comprometimento físico, de valores conservadores, com “alma de igreja” e com treinamento militar assume o poder. Coincidência?

Para os neonazistas, nosso crime é não ser como elas, é não deixar de pensar, é não abdicar da natureza humana, nosso crime é não aderir à barbárie branca.

Como tanto ódio é construído?

Segundo Peter Gay, autor de O cultivo ao ódio, o ódio é cultivado sobre um tripé. A falácia da meritocracia, visto que nem todos saem do mesmo lugar e a construção de um “outro” conveniente são as duas primeiras estruturas para o ódio se sustentar. Mas, é terceiro elemento, entretanto, que o ódio se sustenta de modo mais perverso: é no culto à masculinidade. A mulher é vista apenas como um útero, o mito da mãe, que vai gerar filhos para que o homem construa um novo mundo. Desse culto à masculinidade surgem homofobia, o estupro corretivo de lésbicas e a teoria de estupro histórico como arma de guerra. Também surgem daí a desvalorização da mulher e a desigualdade de gênero.

Isso mesmo, é o ódio às mulheres que constrói o culto à masculinidade e sustenta a extrema direita no mundo. Por isso, nós mulheres temos a força necessária para juntas vencermos esse ódio. Sim, para todas as mulheres, brancas, negras, pardas, indígenas, com deficiência, meninas, jovens, adultas, idosas, casadas, solteiras, inteiras, verdadeiras. Sim, para todas as mulheres, juntas, com os amores que quiserem, lésbicas, cis, trans, inter, bis, héteras. Todas as etéreas e as encarnadas. Vamos todas dizer SIM a todas mulheres e gritar #elenão, #elenunca.

Que vença o SIM DAS MULHERES.

 

Exemplos de RAC – Rock Against Comunist brasileiro

Nazista apoiado por Bolsonaro com bandeira RAC

 

Capa de disco RAC

SIONISMO NUNCA MAIS

Judeu, judeu
Peste sionista
Conduza a sua estrela para fora daqui
Brasil não é colonia do povo de israel
Suas sementes geram o fogo queimam os anjos do céu

Sionismo nunca mais!
Sionismo nunca mais!
Manipulando a imprensa
Distorcendo a historia

Promovendo a miséria
E propagando o terror
Sionismo nunca mais!

Sangue e raça (LOCOMOTIVA)
Oh minha estirpe, a estirpe branca!
Do sangue nobre e glorioso-glorioso, valioso…!

Poder, autoridade e determinação
Sinais de uma forte, de uma grande nação!
Submetidos ao desejo de uma nobre bandeira
A bandeira nacional, nacional socialista!


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