Cid Benjamin

01 de maio de 2019, 14h11

Amanhã vai ser outro dia

Cid Benjamin: “Mais dia, menos dia, quando o carnaval chegar até a moça triste que vivia calada vendo a banda de sua janela se somará aos cegos que erravam pelo continente. E um samba popular vai passar nessa avenida”

Foto: Reprodução

“Hoje você é quem manda, falou, tá falado, não tem discussão”.

Assim começa o “Apesar de você”, de Chico Buarque, composto quando o país vivia sob o jugo da ditadura militar. A canção descreve agruras da vida dos brasileiros naquele período e afirma, ao final: “Amanhã vai ser outro dia”.

Depois de um tempo inicial em que os censores acharam que a música se referia a alguma antiga paixão do compositor, perceberam que não era bem isso e a censuraram. Mas ela ficou na história como uma das que animaram a resistência democrática.

Efetivamente, como previu Chico, o “amanhã” foi outro dia. Diferente. E o irmão do Henfil pôde voltar para casa.

Lembro isso agora, nestes tempos bolsonarianos, porque tenho visto gente acabrunhada, “falando de lado e olhando pro chão”. Gente que dá sinais de desânimo. Gente fazendo planos de morar no exterior, num exílio voluntário. Gente começando a imaginar que talvez nunca mais veja um Brasil diferente deste de agora.

É natural que sentimentos de desânimo e tristeza ocorram, diante do verdadeiro festival de boçalidade que assola o país.

Mas é preciso não perder a perspectiva histórica, gente.

Penso na situação vivida pelas populações da Europa Oriental e das regiões da antiga URSS, ocupadas pelos exércitos de Hitler no fim dos anos 30, começo dos anos 40. Naquele momento, pior do que a ameaça ao destino individual de cada um, algo mais assustador se desenhava: a propalada invencibilidade das forças nazistas e a aparente inevitabilidade de sua vitória, que traria como consequência a escravização, quando não o extermínio puro e simples, de parcelas consideráveis da Humanidade, rotuladas como “raças inferiores”.

Fico pensando, também – trazendo reflexão semelhante para a América Latina em tempos mais recentes – no que passava pela cabeça dos dirigentes tupamaros classificados como “reféns” pela ditadura militar uruguaia e mantidos em masmorras medievais durante mais de uma década. O filme “Uma noite de 12 anos” retrata a situação. Ele vai muito além da denúncia da tortura e da barbárie. É uma lição de humanidade. A resistência de Pepe Mujica e seus companheiros, gente que foi de aço nos anos de chumbo, venceu. Eles não foram quebrados como seres humanos.

Volto, por fim, ao nosso país, lembrando a experiência que eu próprio vivi em meados de 1970 – experiência que, é bom que se diga, nem de perto foi comparável àquela dos “reféns” uruguaios. Na época, estive nos porões do DOI-Codi e, somando-se à difícil situação pessoal, tinha a plena consciência de que a resistência armada à ditadura estava sendo derrotada e que a maioria esmagadora das pessoas estava alheia à política, acompanhando, embevecida, as vitórias da seleção brasileira na Copa do Mundo.

Pois bem, apesar do futuro sombrio que se desenhava nesses três momentos citados, as coisas mudaram.

O propalado Reich dos Mil Anos foi vencido e, em 1945, o exército soviético içou a bandeira vermelha em Berlim.

Mujica tornou-presidente do Uruguai e é hoje a figura mais querida, admirada e respeitada em seu país.

E a ditadura no Brasil acabou na década seguinte à conquista daquela Copa do Mundo.

Assim são as coisas.

Lembro isso a propósito do governo Bolsonaro, entreguista e antipopular, que parece ter como objetivo destruir o país. Sua política econômica está descaradamente a serviço dos bancos e do grande capital, e seus condutores se lixam para o destino de dezenas de milhões de pessoas, jogadas na indigência e na miséria, como autênticos mortos-vivos. Tem como guru um astrólogo ridículo e como eminências pardas três patetas filhos do presidente. Seu Ministério é um ajuntamento de personagens que, não fosse a reforma psiquiátrica progressista que agora Bolsonaro quer sepultar, talvez estivessem internados como doentes mentais.

Mas, apesar de tudo, esta página infeliz da nossa história, com tanta mentira e tanta força bruta, também vai ficar para trás.

Não se afobe não, que nada é pra já. Porém, mais dia, menos dia, quando o carnaval chegar até a moça triste que vivia calada vendo a banda de sua janela se somará aos cegos que erravam pelo continente.

E um samba popular vai passar nessa avenida, em ofegante epidemia, fazendo cada paralelepípedo da velha cidade se arrepiar.

Vai emergir o monstro da lagoa, que, nadando contra a corrente, enfrentará a roda-viva, afastando esse cálice com a bebida amarga.

Ao lado dos barões famintos, dos napoleões retintos e dos pigmeus do bulevar, toda a cidade vai lembrar que aqui passaram sambas imortais e que aqui sambaram nossos ancestrais.

E então vai cantar a evolução da liberdade até o dia clarear.

Pois amanhã vai ser outro dia.

Vamos juntos.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum