Cid Benjamin

12 de julho de 2019, 19h45

As ruas faltaram ao encontro

Cid Benjamin: “Na batalha por corações e mentes a ser travada na sociedade, nossa munição são os meios de comunicação. E nesse quesito temos muito a aprender com a direita e com as igrejas evangélicas. Fomos um fracasso retumbante”

Foto: Luis Macedo/Câmara dos Deputados

Como já se esperava, foi aprovada na Câmara dos Deputados, em primeira votação, a proposta de reforma da Previdência enviada pelo governo Bolsonaro. É o maior ataque aos direitos dos trabalhadores realizado nas últimas décadas. Que ninguém tenha dúvida disso.

A diferença de votos foi maior do que se previa e mostrou a incapacidade de a esquerda atrair o que poderia ser chamado de centro (nada a ver com o Centrão, claro). Na votação da reforma da Previdência, quem atraiu o centro foi mesmo a direita.

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O mais preocupante, porém, não foi a derrota quase acachapante no Legislativo. Foi o silêncio das ruas. Elas faltaram ao encontro. E isso mostrou, de forma muito crua, a debilidade do movimento popular.

Essa debilidade já tinha ficado clara quando, nas últimas manifestações pró-Bolsonaro, feitas pelos setores mais extremadamente direitistas e fascistas, os alvos não eram mais a esquerda, o PT ou Lula, mas o STF e o Congresso.

Naquele momento, a extrema direita não via o movimento popular e seus representantes como os inimigos principais, mas sim os liberais que estariam pondo obstáculos a seus desejos. Daí os cartazes contra o Supremo e o Congresso. Aliás, tudo indica que, a exemplo de Orban, na Hungria, e Erdogan, na Turquia, Bolsonaro e sua turma tencionam apertar as cravelhas e asfixiar a democracia, instaurando uma ditadura a partir de um governo vindo de eleições. E, nisso, terão que atropelar e/ou reduzir poderes de algumas instituições.

Por isso, Rodrigo Maia, o Congresso e os ministros do STF foram os alvos principais da ala fascista do governo e de seu núcleo duro de apoio. Daí o foco neles e não na esquerda neste momento. Isso é bem um retrato da debilidade da esquerda neste momento. Felizmente, como qualquer retrato, este mostra a situação de um momento. As coisas podem mudar.

Claro que os ataques de hoje aos liberais não impediriam que, no caso de um fechamento e da instauração de uma ditadura aberta, as primeiras cabeças a serem cortadas seriam as de líderes e militantes de partidos de esquerda ou de movimentos populares. Que não se tenha dúvida a esse respeito.

Enquanto isso, Bolsonaro prossegue em sua escalada, como se tivesse um projeto de destruição do país, de entrega de suas riquezas ao grande capital estrangeiro e de esmagamento dos direitos dos trabalhadores. Antes de que as pessoas se espantem com uma das medidas absurdas tomadas cotidianamente pelo governo, logo vem outra.

Nesta última semana, Bolsonaro reafirmou a defesa do desmatamento da Amazônia, que cresce em progressão geométrica em seu governo, dificultou a repressão ao trabalho escravo, elogiou o trabalho infantil, desrespeitou o caráter laico do Estado e, para completar o quadro, falou em nomear o filho embaixador nos Estados Unidos, tratando o Brasil como se fosse uma espécie de Arábia Saudita – nação que é, literalmente, propriedade da família Saud, de quem, aliás, leva o nome.

Uma pergunta, porém, se impõe: como chegamos a essa situação?

É inegável ter sido exitosa a estratégia de Bolsonaro e sua gente ao se apresentar como os mais radicais opositores da “velha política” e de “tudo o que está aí”. O envolvimento de dirigentes petistas (e mesmo do PT, como partido) em atos de corrupção, que é real, mas foi tratado de forma mais severa (e até desonesta) pela mídia e pelo Judiciário, permitiu que o discurso do combate à corrupção, de grande apelo popular, passasse para as mãos da direita. Ela tomou a bandeira da ética – historicamente nas mãos da esquerda. Não importa que a corrupção não tenha começado com o PT, nem se possa afirmar que este partido foi mais corrupto do que os representantes tradicionais da “velha política” – todos eles, aliás, com ministérios nos governos petistas. O fato é que a direita conseguiu se apresentar como antissistema, coisa que nunca foi. Daí uma das principais raízes do antipetismo.

Esse fator, alinhado com propostas demagógicas, mas aparentemente com resultados imediatos, para problemas como o da violência e da criminalidade, permitiu que a direita assumisse a hegemonia política no país.

Para a esquerda e o movimento popular, agora, resta outra pergunta: como mudar esse quadro?

De um lado, essa reversão não depende unicamente de acerto na condução política. A recessão – iniciada com a política de Dilma, mas aprofundada brutalmente nos governos Michel Temer e Bolsonaro – vai corroendo as bases de apoio do atual governo. Temos hoje 14 milhões de desempregados e muitos outros milhões de subempregados e “desalentados” – gente que já desistiu de perder tempo procurando trabalho. Enquanto essa situação não for revertida, o desgaste do governo vai aumentar.

Mas a esquerda tem um papel a cumprir para que a mudança comece a ser construída. São vários os desafios, mas aqui fico apenas em um: a questão da comunicação com os trabalhadores e a sociedade.

É inaceitável que, depois de estar 15 anos no governo, não se tenha dado um só passo sério para enfrentar o oligopólio dos meios de comunicação eletrônicos. Na batalha por corações e mentes a ser travada na sociedade, nossa munição são os meios de comunicação. E nesse quesito temos muito a aprender com a direita e com as igrejas evangélicas. Fomos um fracasso retumbante.

É uma ilusão considerar que as redes sociais – que inegavelmente têm importância numa sociedade moderna – podem substituir a mídia eletrônica. Ou alguém pensa que Dilma teria sido derrubada sem a apoio das TVs (em particular da Globo), que convocavam para as manifestações a favor do impeachment, quando não as transmitiam ao vivo?

Ou que o repúdio inicial da sociedade à proposta de reforma da Previdência teria sido revertido sem o apoio das redes de TV, onde não se viu uma só crítica a ela?

O fato é que não se pode falar em liberdade de expressão numa sociedade moderna sem democratização do acesso aos meios eletrônicos.

Mas isso é tema para outro artigo.

De qualquer forma, uma coisa deve ser dita: enquanto ficarmos falando apenas para os círculos mais próximos, teremos muita dificuldade para mobilizar as ruas.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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