Cid Benjamin

24 de maio de 2019, 17h27

Bolsonaro faz água. E agora?

Cid Benjamin: “Devemos transformar as manifestações do dia 30 em algo gigantesco, ainda maiores do que as do dia 15 passado. E que depois venham outras ainda maiores”

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

O governo Bolsonaro balança. Até o Posto Ipiranga já fala em pedir o boné. Já não são muitos os que apostam em que o presidente governará até o fim do seu mandato. E alguns cravam que o capitão não chegará ao Natal no cargo.

Embora possam não se confirmar, têm lógica essas previsões. Usado na eleição pelo grande capital, que o tomou emprestado para pôr em prática reformas ultraneoliberais inspiradas no Chile de Pinochet, em apenas quatro meses de mandato Bolsonaro já não conta com a simpatia da maior parte da grande burguesia.

Editoriais dos três jornalões, que são formuladores e propagandistas da política do grande capital, desancam o presidente. Para eles, Bolsonaro já se mostrou incapaz de pilotar o projeto para o qual fora posto na presidência.

As pesquisas mostram que sua base social se derrete. E sua base política bate cabeça. As relações do governo com o Congresso – peça essencial para aprovar as propostas – pioram a cada dia. Seguidores do Rasputin tupiniquim, o tal Olavo de Carvalho, abrem fogo contra tudo e contra todos. Até mesmo os generais que estão no governo viraram alvos do astrólogo desbocado. Para ajudar a entornar o caldo, o 00 não consegue (ou não deseja) controlar seus pimpolhos, o 01, o 02 e o 03, três trapalhões grosseiros que mandam e desmandam no governo.

Enquanto isso, o vice-presidente, general Hamilton Mourão, se preserva e aparece como alternativa civilizada e sensata, embora de direita, no sanatório geral que é o governo.

No entanto, é preciso cautela. Nunca é demais lembrar que, antes de se tornar vice-presidente e começar a fazer contraponto às idiotices diárias de Bolsonaro, Mourão tinha dado demonstrações que está longe de ser um democrata. Foi assim quando estava na ativa, ainda no governo Dilma, com declarações golpistas. Foi assim quando considerou o autogolpe uma saída aceitável diante de eventuais obstáculos de um governo. E foi assim quando opinou que o responsável pelos atuais conflitos na Venezuela era o general que teve em mãos, preso, o presidente Hugo Chávez quando da tentativa de golpe frustrada, em abril de 2002. Para Mourão, se ele tivesse assassinado Chávez naquele momento, muitos dos atuais problemas da Venezuela não existiriam.

Como se vê, Mourão está longe de ser exatamente um democrata. Tampouco pode ser visto como crítico ao ultraneoliberalismo. Muito pelo contrário. Basta ler suas entrevistas.

De qualquer forma, talvez a grande burguesia tenha razão quando imagina que, com Mourão, as contrarreformas passariam com mais facilidade no Congresso.

Por isso mesmo, o centro de nossa política não pode ser simplesmente o “Fora Bolsonaro”. Isso nos colocaria a reboque da saída pela qual trabalha o grande capital, ainda que – é forçoso reconhecer – Mourão não tenha ligações com as milícias, como o presidente e seus filhos. Diante das relações de Bolsonaro com essa gente, isso não é pouca coisa.

Para as forças populares, o desenlace mais favorável da crise que se desenha cada vez maior seria a realização de novas eleições. No entanto, a possibilidade de que isso ocorra, hoje, é remota. Para tal, teria que haver um afastamento duplo, do presidente e do vice, o que só seria possível com a anulação da eleição presidencial. E, embora haja indícios de irregularidades nela, eles não são de monta a levar deputados e senadores a anulá-la. E nem a fazer com que, hoje, o movimento de massas empunhasse essa bandeira.

No entanto, esta seria a única alternativa institucional para que, com a saída de Bolsonaro, o vice não assumisse o cargo. Não haveria razões para propor o impedimento de Mourão, até porque não se pode acusá-lo de qualquer irregularidade, pois a vice-presidência não tem função enquanto o presidente está em seu cargo.

Há mais: Mourão não aparece aos olhos do povo como protagonista dos absurdos do governo Bolsonaro. Pelo contrário, até. Ele tem tratado de se diferenciar das medidas ou das declarações absurdas do presidente e de seus ministros. Por isso, a consigna “Fora Bolsonaro e Mourão” para o povo soaria como abstração.

Na impossibilidade de um impeachment duplo, o melhor cenário para a esquerda seria, então, que Bolsonaro continuasse sangrando, sem conseguir a aprovação das contrarreformas e dando tempo para o fortalecimento do movimento popular.

Mas isso não depende só de nós. Se, apoiado por parte de sua base, crescer um movimento pró-impeachment do presidente e uma proposta assim chegar ao Congresso, a esquerda não poderia ser contrária a ela. Diante da opinião pública, fiaria como quem sustenta Bolsonaro e seu governo criminoso.

De qualquer forma, não devemos depender de Bolsonaro e de sua permanência no governo para bloquear as contrarreformas.

Assim, o que nos resta é:

1)Aprofundar o combate às propostas ultraneoliberais, dentre as quais hoje se destacam a destruição da Previdência pública e o esvaziamento do ensino público. É preciso apostar nas manifestações de rua e no seu crescimento.

2)Aprofundar a denúncia de Bolsonaro, apontando-o como chefe de um governo antipopular, antinacional e ligado a milicianos. 3)Não dar qualquer passo que permita a interpretação de que somos a favor de Mourão. Ao contrário, deve ficar claro que não confiamos nele.

4)Aproveitar o momento para abrir o debate sobre a necessidade de se pôr fim ao mecanismo de impeachment. Tal como existe, ele é um cheque em branco para que maiorias parlamentares, quase sempre reacionárias e fisiológicas, emparedem governos, quaisquer que sejam eles. É preciso aprovar referendos revocatórios, convocados mediante determinadas condições, para que o povo decida nas urnas se um governante deve ou não continuar no cargo. A defesa dessa bandeira, inclusive, fortaleceria a perspectiva de uma saída da atual situação por meio de consulta direta ao povo.

Assim, devemos transformar as manifestações do dia 30 em algo gigantesco, ainda maiores do que as do dia 15 passado. E que depois venham outras ainda maiores.

Nem Bolsonaro, nem Mourão.

Povo na rua.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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