Cid Benjamin

08 de maio de 2019, 17h53

Greve não, por favor

Em relação à tentativa do governo de promover um desmonte no ensino público, Cid Benjamin diz: “É preciso uma discussão franca e fraterna sobre as formas de luta a adotar, sem que defensores de qualquer posição - não importa qual seja ela - sejam intimidados”

Foto: Agência Brasil

Ricardo Vélez Rodríguez, o antigo ministro da Educação, fazia parte da trinca mais ridícula de um Ministério também ridículo. Completavam a trinca o chanceler Ernesto Araújo e a ministra Damares Alves. Mas, o que esperar de um governo cujo guru é um astrólogo idiota?

O governo Bolsonaro, porém, é muito mais do que ridículo. É antinacional e antipovo. Parece ter um plano para, deliberadamente, destruir o país. E faz isso de forma meticulosa, passo a passo. Todas as suas políticas são no sentido de dificultar ainda mais a vida dos trabalhadores e entregar de bandeja o patrimônio público.

Quem tinha expectativa num resquício de nacionalismo nos militares já deve ter perdido as esperanças. São entreguistas e voltados unicamente para interesses corporativos. Estão cooptados.

Suas desavenças são apenas com o astrólogo pornográfico, que não tem um mínimo de respeito por eles, mas, ainda assim, é respaldado pelo presidente e seus três patetas, o 01, o 02 e o 03.

Voltando ao Ministério de Bolsonaro, muitos respiraram aliviados quando Vélez, depois de mil e uma trapalhadas, foi exonerado. Mas Bolsonaro, atendendo o tal astrólogo desbocado, nomeou um cidadão chamado Abraham Weintraub para a pasta de Educação. Como cartão de visitas, este logo publicou uma bravata no Twitter na qual escreve o verbo “incitar” com s.

No dia seguinte, citou o escritor Kafta. Só se for aquele primo do Kibe…

E o gajo é ministro da Educação.

O que parecia impossível aconteceu e Weintraub consegue ser pior do que Vélez. Confirmou-se uma verdade, às vezes esquecida: qualquer situação, não importa qual seja, sempre pode piorar.

O novo ministro tem raiva da educação e da cultura. Depois de investir contra as ciências humanas, o obscurantista anunciou, com ar de vingança, um corte de 30% nas verbas das universidades públicas, que já não andavam bem das pernas por falta de recursos. Engana-se quem pensou que ele fez o anúncio com semblante triste. Não. Tinha ares de vitorioso. Era alguém mostrando que, com ele, o jogo agora seria assim.

Classificou as universidades como antros de perdição e de nudismo (!!!), insinuando que são palco de bacanais. A ser verdade isso, eu – que sempre me achei um sujeito descolado – me dou conta de que era um grande idiota, desligado da realidade. No meu tempo de faculdade não só nunca fui chamado para qualquer orgia, como sequer tive notícias da existência de coisas do gênero.

Diante do projeto de extermínio das universidades federais, é preciso resistir. A sobrevivência do ensino público – componente essencial de qualquer projeto sério de país – vai depender da mobilização da sociedade.

A molecada do Pedro II, secundada por alunos de outros colégios, mostrou o caminho e fez uma bela manifestação segunda-feira (6), quando o presidente fez uma visita ao Colégio Militar. Assim deve ser. Bolsonaro não deve poder sair da bolha em que vive em Brasília e botar os pés na rua sem ser vaiado e se ver diante de demonstrações de repúdio. No dia seguinte, terça-feira (7), os universitários da UFBA fizeram também uma linda manifestação.

É por aí.

Mas, além da combatividade, é preciso ter lucidez. E não cair em armadilhas.

Há gente ligada à educação defendendo a decretação de greve por tempo indeterminado nas universidades públicas. Enveredar por esse caminho é entregar o ouro aos bandidos. Os dias parados seriam descontados e em pouco tempo o movimento chegaria ao fim, derrotado.

Numa guerra, para vencê-la, é preciso escolher o terreno e as batalhas a serem travadas. Desde Sun Tzu (544 a.C. – 496 a.C) é assim. Em vez de tentar parar as universidades – o que não trará prejuízos materiais ao empregador (o governo) e nem lhe causará grande incômodo – é preciso levar a luta para outro terreno e buscar formas de luta que permitam ao movimento resistir ao longo do tempo e causar o maior desgaste possível ao inimigo.

É hora de irmos para a rua todos – alunos, professores, funcionários e cidadãos conscientes – buscando formas de luta criativas e sustentáveis. É hora de organizar aulas no meio da rua, ocupação de prédios ligados à educação pública, acampamentos em praças, passeatas e tudo o mais que a imaginação trouxer.

Só com o desgaste do governo é possível fazer com que ele recue.

Sei que certos ativistas defendem a greve por tempo indeterminado. E, no passado, já vi pessoas que não endossavam proposta semelhante serem criticadas como vacilantes. Mas greve em universidade pública é uma furada. E é preciso não se deixar intimidar com a agressividade de alguns, até bem-intencionados, mas por vezes mal-educados.

Na manifestação que marcou um ano da morte de Marielle Franco, no Rio, figuras expressivas da luta pela democracia e parceiros próximos da companheira assassinada foram impedidos de subir no palanque. O motivo? Eram homens e brancos. Houve críticas a essa discriminação em conversas de pé de ouvido, mas nenhuma condenação aberta. A agressividade de alguns defensores de pautas identitárias intimida muita gente.

Não é aceitável que isso se repita agora, quando se buscam caminhos para resistir contra a tentativa de destruição da universidade pública. É preciso uma discussão franca e fraterna sobre as formas de luta a adotar, sem que defensores de qualquer posição – não importa qual seja ela – sejam intimidados.

Dito isso, por favor, gente, nada de greve geral por tempo indeterminado nas universidades.

PS – Diante de um mal-entendido, do qual provavelmente o culpado fui eu mesmo, talvez por não ter sido explícito o suficiente, esclareço: sou contrário a greves nas universidades por tempo indeterminado, mas um defensor entusiasmado da paralisação geral já marcada para o dia 15.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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