Cid Benjamin

12 de junho de 2019, 17h45

Moro está nas mãos de Greenwald

Cid Benjamin: “O fato é que, durante algum tempo, Moro, Dallagnol e a turminha braba de Curitiba vão ficar sobressaltados e nas mãos de Greenwald e do Intercept”

Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

A brusca interrupção da entrevista de Jair Bolsonaro na terça-feira desta semana, irritado quando uma jornalista fez uma pergunta sobre as mensagens trocadas entre Sérgio Moro e Delton Dallagnol, mostra bem o desconforto do presidente e de sua turma com a questão.

Não é para menos. Nos diálogos, fica claro o comportamento de Moro como linha auxiliar (ou como chefe?) da acusação contra Lula. Foi algo como batom na cueca. Não há como explicar as mensagens. Por isso, a tentativa de trazer a discussão para a forma como teriam sido obtidos os diálogos.

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Além da troca de opiniões acerca de como conduzir a acusação a Lula, é de estarrecer, também, o diálogo imoral da dupla Moro-Dallagnol sobre a forma com que uma entrevista do Lula teria a menor repercussão possível, se como coletiva ou se individual.

Isso lá é papel de juiz? Ou mesmo do Ministério Público? Ou é coisa de algum agente político inimigo de Lula?

Diante do escândalo, qualquer observador isento há de concluir que os processos que passaram pelas mãos de Moro estão sob suspeição. Se isso pode acabar favorecendo figuras como Eduardo Cunha ou Geddel Vieira Lima, com advertiu Ciro Gomes, paciência. São consequências do Estado de Direito.

Nesse quadro, é importante acompanhar o comportamento da mídia. A “Folha de S. Paulo”, bem ou mal, está fazendo jornalismo. O “Estadão”, depois de um início em que tentou tapar o sol com a peneira, já fez um editorial pedindo a saída de Moro do Ministério da Justiça. Já “O Globo” e os demais veículos do grupo, fiéis ao seu papel de principal partido dirigente da direita brasileira, tentam desviar a cobertura do que é essencial e, de forma trôpega, focá-la na origem do material jornalístico.

Já as TVs Record e SBT, como era de se esperar, mantiveram-se como órgãos oficiosos do governo Bolsonaro.

Numa sociedade moderna, os acontecimentos assumem maior ou menor importância segundo a cobertura da mídia. Isso não é de hoje. No célebre filme “O homem que matou o facínora”, de John Ford, realizado em 1962, há uma frase que se tornou emblemática: “Se a lenda é mais forte que a verdade, publique-se a lenda”.

Só que isso tem seus limites.

Independentemente da cobertura que o caso continue a receber, Moro ficou gravemente ferido. Tornou-se um zumbi, comparado com o que era. Pode até não cair agora do ministério. Mas sua aura de juiz honesto e rigoroso foi pelo ralo. Até mesmo a nomeação para o STF, combinada com Bolsonaro desde antes de eleição da qual o juiz tirou Lula do páreo, hoje está periclitante. O mesmo poderia ser dito a respeito de uma possível candidatura a presidente, ventilada por alguns.

Mas o pior é que Moro está pendente do que ainda pode vir por aí. Greenwald já disse que tem muito mais material e vai soltá-lo aos poucos.

Não à toa, Moro não quis ir logo ao Congresso se explicar. Preferiu marcar seu depoimento só para o dia 19, ganhando uma semana. Quer ver se o quadro se amaina e, principalmente, quer ver o que mais vem pela frente, evitando a possibilidade de dizer algo e, em seguida, ser desmentido por uma nova leva de informações.

O fato é que, durante algum tempo, Moro, Dallagnol e a turminha braba de Curitiba vão ficar sobressaltados e nas mãos de Greenwald e do Intercept.

Decididamente, não terão a minha solidariedade.

E, mais: não seria surpresa se esse sobressalto atingisse também as Organizações Globo.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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