O Exército e sua imagem

“Até quando a cúpula do Exército vai aceitar estar a serviço de um projeto criminoso e antinacional, encabeçado pelo chefe de um modelo caboclo das SA nazistas?”, questiona Cid Benjamin, em novo artigo

Sou filho de militar.

Em determinado período da vida, quis, inclusive, seguir a carreira de meu pai.

Oriundo de uma família de classe média baixa e órfão de mãe muito cedo, ele encontrou no Exército uma espécie de segunda família.

Assim, foi um forte abalo quando, na década de 1970, teve dois filhos torturados em unidades militares.

Meu pai ficou aliviado quando soube (mesmo que verbalmente), poucos dias depois da minha prisão, que eu estava no quartel da Polícia do Exército da Rua Barão de Mesquita, no Rio, onde funcionava o DOI-Codi. (O registro oficial da prisão só veio 20 dias depois; a quebra da incomunicabilidade, depois de outros 20 dias).

“Conheço o Exército e sei que ele não tortura prisioneiros”, dizia o então coronel Ney Benjamin.

Caiu do cavalo.

A decepção se repetiu quando, um ano e meio depois, meu irmão César também foi torturado em unidades militares.

Esses fatos abalaram, inclusive, a sua saúde.

Vendo o papel a que se presta hoje o Exército, às vezes penso que talvez seja melhor que meu pai não esteja mais vivo. Não sei como suportaria ver o que está ocorrendo.

Apesar de tudo, eu não estigmatizo o Exército.

Um país soberano tem que ter Forças Armadas prestigiadas e aptas a cumprir suas funções constitucionais.

Não interessa ao Brasil vê-las achincalhadas.

Mas é preciso que elas se deem ao respeito.

Não é o que ocorre.

A quantidade de militares em “boquinhas” no governo Bolsonaro é, seguramente, superior à dos tempos da ditadura. Fala-se em dois ou três mil cargos comissionados, com altos salários.

E as propaladas “reformas”, que atingiram direitos dos trabalhadores pouparam os militares.

Com a sua presença, eles respaldam o governo de um cidadão que foi um péssimo militar e saiu do Exército escorraçado, pela porta dos fundos.

Isso compromete seriamente a imagem da corporação.

E que ninguém se iluda. Bolsonaro só se sustenta pelo apoio dos militares. Não estou falando de oficiais de mais baixas patentes, como tenentes ou capitães, mas de uma penca de generais quatro estrelas – o mais alto posto na carreira – agachados diante de um reles miliciano e aceitando ouvir desaforos de seus filhos energúmenos e de um astrólogo bobalhão que mora nos Estados Unidos, guru dessa gente.

Não se trata que eu espere posições de esquerda, ou mesmo progressistas, dos generais brasileiros. Não se trata, tampouco, de os chefes militares serem de direita ou de esquerda.

Mas até quando a cúpula do Exército vai aceitar estar a serviço de um projeto criminoso e antinacional, encabeçado pelo chefe de um modelo caboclo das SA nazistas?

Decididamente, a situação atual não faz bem à imagem do Exército.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum

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Cid Benjamin

Foi líder estudantil nos movimentos de 1968, participou da resistência armada à ditadura e foi dirigente do Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8). Libertado em troca do embaixador alemão, sequestrado pela guerrilha, passou quase dez anos no exílio. De volta ao Brasil em 1979, foi fundador e dirigente do PT e, depois, participou da criação do PSOL. É jornalista, professor e autor dos livros “Hélio Luz, um xerife de esquerda” (Relume Dumará, 1998), “Gracias a la vida” (José Olympio, 2014) e “Reflexões rebeldes” (José Olympio, 2016). Organizou, ainda, a coletânea “Meio século de 68 – Barricadas, história e política” (Mauad, 2018), juntamente com Felipe Demier.

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