Cid Benjamin

10 de abril de 2020, 18h52

Um cenário previsível. E dramático

Cid Benjamin, em artigo novo: “A tendência é que, cada vez mais, as pessoas saiam de casa. Estimuladas pelo presidente. Nisso aposta Bolsonaro. Mas a que preço ele ganharia essa parada?”

Jair Bolsonaro (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

Com seu comportamento irresponsável e criminoso, o presidente Jair Bolsonaro está jogando suas fichas no esvaziamento da quarentena. Aposta numa vitória contra o isolamento e tem boas chances de vencer a parada.

Com a quantidade de gente no trabalho informal ou desempregada, ficar em casa significa ter problemas reais de sobrevivência. Com o passar dos dias, a barriga roncando de fome e sem o leite das crianças na mesa, muita gente que preferiria cumprir a quarentena para se precaver vai ser empurrada para as ruas.

Essa hipótese se fortalece porque a ajuda governamental é dada com visível má vontade. Gente como Bolsonaro e Guedes tem um coração de pedra e faz de tudo para criar dificuldades para a liberação de recursos aos mais necessitados. Além dos atrasos da máquina pública, são grandes as exigências burocráticas exigidas de pessoas humildes para receber uma ajuda que, por definição, é emergencial.

Dizem os chineses que uma imagem vale mais do que mil palavras. Pois uma charge postada nas redes retrata muito bem a situação (não cito o autor porque não decifrei sua assinatura). O desenho mostra três pessoas maltrapilhas, que possivelmente nunca chegaram perto de um computador, meio sentadas, meio deitadas numa calçada, enquanto uma pergunta para a outra: “Você já baixou o aplicativo?”

A forma como foi organizado, o esquema de auxílio parece inventado por gente que quer criar dificuldades, e não facilitar as coisas.

Uma providência usada nos Estados Unidos na crise de 1929 e em vários países da Europa durante a Segunda Guerra Mundial – o poder público distribuir diretamente comida nas ruas – não foi aventada pelas autoridades brasileiras. Essa medida (que não substituiria outras iniciativas, mas se somaria a elas) atingiria diretamente, e de forma imediata, dezenas ou centenas de milhares de pessoas que vivem nas ruas nas grandes cidades.

Esse movimento contrário ao isolamento social tem, compreensivelmente, o apoio de pequenos comerciantes e prestadores de serviços legalizados, cujos negócios são afetados pela quarentena.

Nesse quadro, o cenário mais provável é o afrouxamento das medidas de isolamento físico, mesmo antes da hora recomendada. A tendência é que, cada vez mais, as pessoas saiam de casa. Estimuladas pelo presidente.

Nisso aposta Bolsonaro. Mas a que preço ele ganharia essa parada?

A um preço de, talvez, centenas de milhares de mortes, ou quase um milhão, como apontam as previsões mais sombrias.

Sua vitória, justamente pelas consequências nefastas, poderá fragilizá-lo a um ponto de que a permanência no governo se torne insustentável. Ficará clara a responsabilidade pela tragédia.

Seu afastamento poderá ser, então, uma exigência nacional, como questão de saúde pública, de salvação nacional. E ele não terá mais os 30% de aprovação que tem hoje e que, de certa forma, são uma proteção para uma tentativa de afastá-lo.

Criado um quadro assim, a forma jurídica para o afastamento – impeachment, notícia-crime ou outra qualquer – será encontrada inapelavelmente.

A previsão feita neste artigo é preocupante pelos custos sociais que traria, mas bastante plausível.

Talvez seja este, lamentavelmente, o preço a pagar para o país se livrar de Bolsonaro.

Independentemente de que se queira ou não pagá-lo, o andar da carruagem pode cobrá-lo.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum


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