sábado, 26 set 2020
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Ciro x Bolsonaro: qual o impacto da ideologia na prática econômica?

Quando a imprensa diz que certos candidatos “representam extremos ideológicos aos olhos do mercado, casos de Ciro Gomes (PDT) e de Jair Bolsonaro (PSL), tem contribuído para o sentimento de desalento de investidores”, não passa de uma tentativa de elevar a imagem do “centro”, por meio de uma mentira plausível.

Nem Bolsonaro nem Ciro irão encarar os interesses do mercado, colocá-los no chão, surrá-los. A retórica que tanto um quanto o outro usam, em certas ocasiões, pode nos passar a impressão disso. No entanto, as ideias não movem a engrenagem da história sem que haja uma alteração nas relações sociais de produção, sem revolucionar as bases da economia.

“O Ciro está mais aberto a escutar e menos voluntarioso”, disse ao Estado de São Paulo o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade. A matéria no jornal afirma que “o candidato almeja até mesmo alianças com os setores mais liberais da política atual”.

“Ciro é o único que tem se dedicado a construir pontes com as elites financeira e empresarial do país. O ex-governador, que foi ministro da Fazenda de Itamar Franco, tem feito um esforço explícito para afastar a imagem de imprevisível e explosivo e ser bem recebido em círculos identificados com o pensamento econômico liberal”.1

Mas “O presidente nacional do PDT, Carlos Lupi, afirma que é possível Ciro Gomes vencer mesmo sem apoio do mercado financeiro. “O mercado financeiro tem de cuidar de suas aplicações, entender que não manda no Brasil. Da política quem tem que cuidar são os políticos”, disse à Coluna do Estadão. Ele disse duvidar que o mercado prefira Jair Bolsonaro a Ciro”.2

A verdade é que o mercado sabe que nenhum desses indivíduos irá interferir nos seus interesses. Os grandes investidores definiram o rumo do Brasil ao orquestrarem o golpe por trás das cortinas.

A questão é o que estes indivíduos representam. A repercussão popular de suas “ideologias” que não passam de ideias polêmicas para angariar votos. O eleitor enfeitiçado pela retórica inebriante da eloquência política, podem cobrar “intervenção militar”, a preservação das estatais etc.. No entanto, sabemos que não haverá intervenção militar alguma, e que os dias das estatais estão contados (uma intervenção militar só existiria para manter a política econômica liberal de Temer3). Não importa o candidato que entrar no Executivo, o projeto “Ponte para o Futuro” deverá ser concretizado.

Uns dizem que Lula é o único capaz de impedir o avanço da direita. Outros que Bolsonaro é único capaz de impedir a esquerda. Tudo é mera retórica política. O fato é que a gestão do próximo presidente deve ser liberal.

Algum político é capaz de combater a política liberal? Creio que não. Tudo que estar por vir é apenas a sequência do que foi inaugurado em 2016. Nenhum candidato que assumir o poder é capaz de por fim ao processo que se iniciou bruscamente com a queda do PT.

Ainda acredito que o mercado prefira um Ciro a um Bolsonaro pelo fato de este suscitar elementos antiliberais que implicam no consumo. A indústria cultural está cada vez mais liberal em relação às liberdades individuais, e Bolsonaro parece representar um caminho inverso desse processo.

Trump representa também esse fenômeno, no entanto, a mentalidade relacionada a liberdade de expressão nos EUA é muito mais concreta. Além disso, não há nos EUA uma associação às liberdades civis com o socialismo, muito menos um espectro ditatorial. As ideias de Trump no Brasil, como o próprio Bolsonaro diz ser seguidor, o afasta mais que o aproxima do mercado.

Por exemplo, Trump adotou uma série de medidas para defender o mercado interno, como a questão do aço e as tarifas em relação aos produtos chineses. Mas há uma imensa rede de países subjugados à dominação norte-americana, onde os produtos continuarão sendo vendidos, além do fato de o mercado interno americano ser gigantesco. Isso no Brasil seria impossível já que nossa posição no sistema mundo está reservada para servir as potências. A ideia protecionista não nos pertence.

Ciro é bem mais suave se tratando destas questões, ou melhor, a representação que faz de si em sua retórica política parece ser mais amena. Mas se Ciro resolver “esquerdizar” o seu discurso, o mercado pode inclinar-se “na direção de uma ditadura liberal, ao invés de um governo democrático que não pratique o liberalismo” (não, necessariamente, chefiada por Bolsonaro), como preferia o neoliberal Friedrich Hayek.

Vale lembrar: tudo que estou debatendo aqui é uma questão de discursividade. É o impacto que essas ideias podem acarretar para uma possível crise de representatividade. Porque no aspecto real da condução da economia, os dois seriam apenas agentes a serviço do mercado, ou melhor, das classes dominantes.

Na Veja saiu que para os gigantes do mercado financeiro “Ciro seria o menos pior. Embora o considerem arrogante e falastrão, o reconhecem como um gestor experiente, de razoável competência e que não fez loucuras quando foi ministro da Fazenda”.4

Como podemos ver uma perspectiva antisistêmica é impensável e o mercado sabe que certas falas são apenas falas. Contudo, existe o problema que elas podem desencadear para as multidões que querem mudança (tanto à esquerda quanto à direita), mas que terão apenas a continuidade da política econômica golpista na prática. Neste caso, o candidato que proporciona menores problemas ideológicos (que seria perfeito se fosse do “centro”) é o preferido para que a economia siga o rumo determinado pelos investidores.

 

1https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,ciro-investe-na-aproximacao-com-a-elite-financeira,70002296268

2https://br18-com-br.cdn.ampproject.org/v/br18.com.br/lupi-mercado-nao-manda-no-brasil/?amp_js_v=a1&amp_gsa=1&amp&usqp=mq331AQCCAE%3D#referrer=https://www.google.com&amp_tf=Fonte%3A%20%251%24s&ampshare=http%3A%2F%2Fbr18.com.br%2Flupi-mercado-nao-manda-no-brasil%2F

3 https://diplomatique.org.br/um-ditador-fanfarrao-e-um-exercito-de-papel/

4https://veja-abril-com-br.cdn.ampproject.org/v/s/veja.abril.com.br/blog/radar/para-o-mercado-qual-e-o-menor-do-males-entre-ciro-marina-e-bolsonaro/amp/?amp_js_v=a1&amp_gsa=1&usqp=mq331AQCCAE%3D#referrer=https://www.google.com&amp_tf=Fonte%3A%20%251%24s&ampshare=https%3A%2F%2Fveja.abril.com.br%2Fblog%2Fradar%2Fpara-o-mercado-qual-e-o-menor-do-males-entre-ciro-marina-e-bolsonaro%2F

Raphael Silva Fagundes
Raphael Silva Fagundes
Doutor em História Política na UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.