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03 de outubro de 2018, 15h44

Como convencer os trabalhadores a votarem contra os direitos trabalhistas?

A forma encontrada pelas classes dominantes para convencer os trabalhadores a serem contrários aos direitos trabalhistas foi através do antipetismo. Essa ideologia criada pelo poder midiático e pela ascensão do fascismo atrai um número cada vez maior de trabalhadores a agirem contra eles mesmos

Foto: Alan White/Fotos Públicas

As ideologias não existem no campo das ideias. Elas “têm existência material”, nos disse Louis Althusser. Elas têm como objetivo reproduzir as relações de produção. E como podemos ver este processo na prática nessas eleições?

A forma encontrada pelas classes dominantes para convencer os trabalhadores a serem contrários aos direitos trabalhistas foi através do antipetismo. Essa ideologia criada pelo poder midiático e pela ascensão do fascismo atrai um número cada vez maior de trabalhadores a agirem contra eles mesmos.

É interessante porque tudo lembra a “Visão em paralaxe” de Slavoj Zizek, já que o antipetismo promove uma visão dupla. Ao mesmo tempo que se apresenta para muitos como a solução política para os seus problemas, é, em última instância, a razão de sua ruína. E o mais curioso é que o que se vê, o que se cultua (o antipetismo) é exatamente o que os impede de ver a verdadeira questão, isto é, a questão material: o conflito entre os seus interesses e os interesses das classes dominantes.

A crise gerou inúmeras interpretações, na maior parte criadas como obstáculos para nos impedir de termos acesso ao Real. Criou-se uma tela distorcida que nos faz deixar de ver a Coisa.

Não existe uma polaridade entre os pontos de vista, mas uma tensão inerente do próprio objeto. Uma assimetria onde não há dois pontos de vista, “temos um ponto de vista e o que foge a ele, e o outro ponto de vista preenche o vazio do que não podemos ver do primeiro ponto de vista”.1

O ponto de vista que prevaleceu foi o bombardeado pela mídia que gerou o golpe, a prisão de Lula, e enfim, o antipetismo.

Essa ideologia pôs fim a uma cultura de greve que vinha se fortalecendo nos últimos anos a partir de 2013. Hoje, muitos passaram a crer que o problema é o PT e que mudando o presidente tudo mudará. Voltamos a ser passivos.

As greves de 2013 que, embora falassem mal dos políticos, também questionava os patrões, o regime de trabalho, os salários…. Com a ideologia do antipetismo os patrões isentam-se de críticas e todo o ódio popular é direcionado aos políticos.

Devemos deixar claro que os patrões não são antipetistas, tudo não passa de uma visão distorcida da realidade. Eles apenas não confiam que o PT seja capaz de tocar o projeto econômico inaugurado por Michel Temer. Eles vão aderir a qualquer um que seja capaz de gerir esse projeto, no caso atual seria Bolsonaro.

O antipetismo foi a forma mais convincente de fazer o trabalhador a se aliar aos patrões na luta contra os direitos trabalhistas. Ele age como o liberalismo que, por sua vez, não cumpre o que promete, mas se apresenta como o mais viável para cumprir o que promete. O mesmo podemos dizer sobre a democracia, que é ateórica e vive apenas da oposição ao seu oposto: a ditadura.

No meio desse imbróglio, o eleitor do PT precisa aprender a lição do golpe: as urnas não garantem nada. Se Haddad vir a vencer essas eleições, ele terá que se submeter ao projeto econômico de Temer, caso contrário, sua posição estará em risco. É o Estado sob ameaça!

E quem são os ameaçadores? Aqueles que sairão beneficiados com a suspensão dos gastos públicos por vinte anos; aqueles que estão lucrando com os leilões do Pré-sal; os que aumentarão sua riqueza com o fim dos direitos trabalhistas. Quando alguém diz que o 13° salário prejudica todo mundo, não temos que pensar se é uma lei pétrea, mas que a fala pública revela o conteúdo de quem diz, seu posicionamento. “O ato de relatar algo publicamente nunca é neutro e afeta o próprio conteúdo relatado”. E a pergunta básica seria: “O que mais está oculto nessa declaração que fez o declarante enunciá-la?”2

A questão nunca foi a corrupção que o PT cometeu, até porque as empresas, as igrejas e os bancos se enriqueceram através dessa corrupção ameaçadora. Mas uma questão de “renovar” para se continuar fazendo a mesma coisa, resgatando a credibilidade do povo. Coloca-se alguém supostamente incorruptível para administrar a corrupção. E é dessa maneira que as classes trabalhadoras são

 

1 ŽIŽEK, Slavoj. Em defesa das causas perdidas. Rio de Janeiro: Boitempo, 2011, p.47.

2 Id. P. 67.


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