conexoesglobais

25 de janeiro de 2014, 19h56

Começa na internet, transborda para as ruas

Mesmo com realidades e conjunturas distintas, protestos em todo o mundo trazem traços comuns em sua organização, mobilização e na resposta do Estado contra eles

Mesmo com realidades e conjunturas distintas, protestos em todo o mundo trazem traços comuns em sua organização, mobilização e na resposta do Estado contra eles

Por Redação

Os idiomas eram francês, inglês, espanhol e português, entretanto, no primeiro debate desse sábado (25) do Conexões Globais, todos estavam falando a mesma língua.

Compunha a mesa diversos ativistas que personificavam o tema do debate sobre três anos de revoltas interconectadas, a mexicana Laura Citlali Murillo; os turcos Ahmet M. Ogut e Yldiz Termurtukan; o tunisiano Alaa Talbi e, do Brasil, o filósofo Rodrigo Nunes e representantes do movimento Parque Augusta.

Participantes do debate “Três anos de revoltas interconectadas – de Túnis ao Brasil“

Todos eles estiveram envolvidos com os recentes protestos em seus respectivos países. Que apesar de terem realidades e conjunturas distintas, traziam traços comuns em sua organização, mobilização e na resposta do Estado contra eles. Na Turquia, Ahmet Ogut participou ativamente do OccupyGezi, em Istambul. Ele conta que a internet foi essencial na divulgação em tempo real, dos eventos e da repressão policial turca contra os ocupantes do parque Gezi. Quando o governo passou a fechar e bloquear o acesso a rede, “os moradores da região passaram a abrir suas redes wifi e fornecer senhas para os manifestantes”, conta Ogut. Outra prova da censura governamental, foi que, enquanto milhares de jovens eram reprimidos pelas autoridades, o principal canal na televisão turca transmitia um documentário sobre pinguins. O animal se tornou então o símbolo da resistência do movimento na Turquia.

A situação traz semelhanças no México. Laura Murillo conta que o movimento #YoSoy132 nasceu da manipulação dos meios de comunicação no país, que é monopolizado e anda em linha com o governo. Quando em 2012, às vésperas das eleições mexicanas, 131 estudantes chamaram de “Assassino”, Enrique Peña Nieto, o candidato do partido PRI – que presidiu o país por mais de 70 anos – a mídia qualificou os jovens de vagabundos que não refletiam o pensamento do povo. O que se provou extremamento errado. “Se 131 podem se manifestar”, conta Laura sobre a simbologia do número, “Eu posso ser o 132”.

Saindo do México e indo para a Tunísia, na África, o coordenador do Fórum Social Mundial de 2013, Alaa Talbi, falou um pouco também sobre o que é lutar pelo direito da liberdade de expressão: “Ontem foi aprovada nossa nova Constituição”, que segundo ele, traz em seu Artigo 6, a liberdade de consciência. “O que é muito importante em um país islâmico, pois significa liberdade de expressão”. No entanto, ele salienta que muitas mudanças ainda precisam ocorrer na constituição e prevê que 2014 será um ano de manifestações na Tunísia.

Se todos esses casos contavam sobre o embate com o Estado, os jovens do Parque Augusta, através da webcam, explicaram o que esse lugar na região central de São Paulo representava: a população tendo o poder de decisão e gestão sobre o local. Lutando tanto contra o controle privado da especulação imobiliária e quanto  o controle estatal. O que em caso de vitória, abriria um belo precedente sobre o poder da mobilização social contra a autoridade governamental e o poder financeiro capitalista. A internet no caso foi uma ferramenta essencial para a organização de diversos ativistas, que enxergam no Parque Augusta, um passo importante para um plano para a cidade inteira em termos de organização horizontal.

Baseado nisso, Rodrigo Nunes, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), explica a importância da rede, pois ela conversa com a rua, e ambas, se autoalimentam. Além do fato de que, como bem disse a ativista da Marcha Mundial das Mulheres, Yldiz Termurtukan, “Através da internet, conseguimos nos interconectar com as Filipinas ao Brasil, do México a Turquia”. Desde o início do movimento, conta ela, existia uma dependência da internet. Por isso Rodrigo afirma que movimentos sociais se tornam referência. “O jovem brasileiro não vai se inspirar exatamente em Marighella e a luta contra a ditadura de tempos atrás, ele vai olhar para o que aconteceu na Turquia, mês passado.”

Pode-se concluir que a internet é o único lugar realmente livre e isso é o que assusta o establishment no mundo inteiro, seja em um país com ditadura, seja um com democracia, pois conecta e inspira a sociedade civil ao redor do planeta. Nesses três anos de revoltas interconectadas, elas conseguiram triunfar? Não exatamente, mas como Rodrigo destaca, seria “uma desonestidade intelectual querer julgar eleitoralmente e dizer que nada mudou”. Afinal, uma mudança estrutural leva tempo e não pode ser medida por eleições.


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum