Colunistas

24 de setembro de 2018, 22h31

Contragolpe lulista e a crise de identidade da elite

Yuri Martins Fontes escreve: “Qualquer projeto que se pretenda efetivamente transformador tem que se aliar com as ruas. A palavra final vem das ruas (vide Dilma). Vem das bases populares organizadas de quem o PT nunca deveria ter se afastado”

Foto: Ricardo Stuckert

A duas semanas das eleições, ao que parece, o genial contragolpe de Lula vingou. E a direita não sabe para onde correr. FHC, coitado, faz declarações que mais parecem um princípio de infarto. Com razão. Se a elite vai ao encontro da irracionalidade fascista (estacionada no 1/3 dos votos amarelo-CBF), arrisca a agravar o quadro da economia que tomba. Por outro lado, se a esta altura se cala, acaba aceitando a derrota para o lulismo, que é o que se desenha.

Ao que indicam os movimentos das tendências de voto, “Haddad é Lula” levou. E até o sociólogo tucano, pai dos golpistas, já trabalha internamente sua aceitação do fato.

O genial contragolpe de Lula

Segundo a última pesquisa do conservador Ibope (18/set), Haddad alcançava no meio da semana  passada 19% (contra 28% do esfaqueado) e 11% de Ciro. Já no fim da semana (21/set), o Data-Poder-360 (não menos conservador) apontava o candidato lulista com 22% (crescimento meteórico de 4% em meia semana)*.

Ou seja, pela média histórica de trambiques dos institutos de pesquisa, Haddad já pode estar em primeiro lugar.

Enquanto isso, o Coiso ingressa na queda-livre: de seu clímax 28%, fraquejou para 26%, o que o coloca em empate técnico com o petista (apesar do Data-Poder não só ocultar isso, como ainda destacar ameaçadoramente que no segundo turno Haddad somente “empata” com o-que-não-digo, apesar dos 3% de vantagem do candidato de Lula e de sua veemente curva de ascensão).

Quanto a Ciro, segue estagnado em seu orgulhoso autoisolamento.

Já o candidato “puro” do Mercado aparece com risíveis 7%, denotando a derrota tucana no golpe – já que perde o posto de segunda força que ocupava há anos!

Ao seu lado a candidata dos banqueiros Setúbal, sob a fachada de um Itauzinho flexível (em um só tempo plantador de mudas e promotor da grilagem), “atinge” 6%.

De modo que, afinal, quem ocupou o vazio existencial da direita foi mesmo o facínora, com seu latido ameaçador que, aliás, assusta até o próprio Mercado – ente supremo da alta-elite que em 2016 o pinçou da escória parlamentar, crendo nele um bom fantoche na construção de seu projeto antipetista.

O reformismo segue forte

Disputas “internas” à parte, o discurso keynesiano centro-esquerdista, que conduz tanto o PT, como o PDT (com a exceção de seus oportunistas pró-golpe), segue firme na opinião popular, com seus sempre acenos à conciliação de classes. Trata-se de um reformismo trabalhista de viés nacionalista: antineoliberal, ainda que não anticapitalista, linha que, apesar de nossa posição periférica estrutural, tem permitido um interessante alinhamento internacional anti-hegemônico (altivo e ativo), o que é fundamental em tempos de reorganização do sistema de poder global.

E o PSB? Morreu no golpe.

O PPS? Já nasceu enquanto piada.

Quem segue na vida pós-golpe é o Partido dos Trabalhadores, com seus muitos erros e acertos, talvez agora mais vacinado quanto aos perigos de suas alianças subalternas e de seu burocrático “desapego” das bases populares. E continuará, provavelmente, por mais essa etapa, com seu projeto conciliador: de reformismo lento e de partido forte (especialmente nas urnas, onde sempre conta com no mínimo um terço dos votos).

No PDT, o que sobrou do brizolismo encontrou por representante um personalista, uma espécie de caudilho nacionalista de discurso, digamos, “petista desgarrado”. Seu (pré-)projeto, também reformista, aparenta estar ora à direita ora à esquerda do centrismo em que estacionou o PT, conforme o aspecto político que analisemos. Quer dizer: isto na hipótese de suas promessas poderem ser levadas a sério. Mas na maré dos caprichos pessoais de Ciro, e tendo por base seus acenos precoces ao setor conservador (empresários golpistas, agronegociantes), a tendência é de que, em sendo governo, ele se assente “bem” na direita do lulismo.

Há ainda no pleito os velhos aventureiros de causa própria, alguns revestidos de “novidade”, como: a própria Marina Verde-Itaú (candidata do “capitalismo ecológico”, cujo predadorismo econômico emana um paradoxal aroma floral); um tal Cabo [eleitoral?] do facínora; tem o banqueiro do velho sistema, Amoêdo, dito “o Novo”; e tem até o Goulart Hora-do-Povo Filho (também conhecido como “Quércia Jr”); pra não falar do pobre do Meirelles, judiação (sim, aquele do Temer, que superexposto na tevê faz com que uma alma mais sensível venha a sentir realmente muita vergonha alheia).

O voto consciente socialista

Mas de volta ao tema que interessa: a eleição não é tudo. Pelo contrário, é só uma pequena parte da luta social. Assim sendo, como deve votar então um socialista, um espírito crítico, um progressista? Boulos no primeiro turno é aposta na paulatina conscientização de classe, na independência nacional, no “futuro” (que tanto tarda por aqui). É opção para ser gestada, cuidada, defendida no dia a dia. Um projeto a ser discutido e promovido em cada bairro, em cada vila da próxima década. Esta consistente aliança PSOL-PCB nos oferece um real projeto de nação, e isto decerto merece o voto consciente do começo de outubro, no primeiro turno. Mas embora na pesquisa do dia 21 a intenção de votos nessa coalizão tenha dobrado, chegando a vitoriosos 2%, um projeto de governo francamente transformador das estruturas, como o de Boulos, não é opção real para o Brasil-2018: um país de cima a baixo deseducado pelo “projeto de crise” que domina a educação e cultura; desinformado pela baixeza de nível de uma decadente imprensa golpista, sempre aliada à quadrilha (“pró-ativa”, diriam os pós-modernos) parlamentar-judiciária.

E afinal, se por ventura Boulos fosse eleito, as estruturas conservadoras mantidas em sua essência desde a ditadura militar – as mesmas que acreditam ser Lula um comunista líder do projeto revolucionário da URSAL –, permitiriam que ele governasse quantos meses?

A real política capitalista

Haddad é Lula é o voto real. Este é o jogo “democrático” (ou antes “eleitoral”), na sua prática capitalista rasa, suja, falha.

Com todos os problemas e equívocos do PT que a esquerda crítica aponte (e com razão), o candidato do ex-presidente é de longe o mais progressista que “pode” ser eleito. Mesmo que mantido o temerário e frouxo discurso “paz-e-amor”, trata-se de um governo que deve retomar a efetividade das políticas sociais urgentes (senão contra toda a pobreza, ao menos contra a miséria extrema, que são algumas dezenas de milhões de pessoas); de um governo que certamente realinhará mais inteligentemente o Brasil no tabuleiro global, no qual vimos perdendo espaço desde o golpe – chave geopolítica para deixarmos nossos grilhões de produtor de matérias-primas.

E quanto a Ciro? – muitos questionam. O ex-tucano fundador do PSDB pecou por querer voar alto demais, e numa hora inoportuna, expondo demais sua vaidade e formação autoritária. Errou na tática de insistir em estar sozinho, bradando contra todos à direita e à esquerda, planando personalista acima de qualquer projeto partidário, de qualquer perspectiva de construção coletiva. E, especialmente, sempre distante dos movimentos sociais. Ciro chegou até mesmo a atacar seu próprio ex-padrinho (embora com incomum delicadeza, o que mostra menos imaturidade), em um momento de exceção no qual Lula é um perseguido político vivendo situação de violação de seus direitos. Isto não foi limpo – e agora paga o preço. Ele é ele, Ciro Gomes. E só. Ou ao menos era, até que Luiz Inácio resolveu definir a contenda.

Ciro mudou? Bem-vindo à resistência popular: à geral. Mas chega de mansinho. Vem na humildade. De resto, seus correligionários ocultam seus flertes com o sistema, e como argumento de peso o melhor que encontram é afirmar que “o antipetismo periga vencer no segundo turno”. Inflado “temor” do antipetismo, que se bem examinado, mais se assemelha ao próprio antipetismo.

Giro (ainda que suave) à esquerda?

A torcida é para que agora o lulismo, na experiência sofrida, tenha obtido aprendizados mais profundos sobre os incontornáveis debates teóricos em torno de nossa questão nacional, ou seja: acerca da “inexistência” por entre nós latino-americanos de uma burguesia realmente “nacionalista”. Nossas classes dominantes são sócias menores do imperialismo; desprezam suas raízes, cultura, povo.

Diante de inimigos baixos, de entreguistas envolvidos com a negociata estrangeira, o ocupante do poder executivo (que é só uma parcela do poder, vale sempre lembrar!) tem que manter a guarda bem mais elevada do que tem sido a praxe.

Aliança de classes, no Brasil, não é aliança, é trégua.

Não dá pra titubear frente a uma elite que se orgulha de privilégios desumanos e insustentáveis (vide o impacto no orçamento nacional dos supersalários e do “assistencialismo” destinado a nossos carentes juízes e deputados, ou das isenções bilionárias aos pobres banqueiros e à mídia corporativa).

O desleal oponente sabe ter muito a perder, e vai tentar a todo custo manter sua mamata, independentemente de ter que mudar a regra do jogo ou atropelar a mal-chamada “democracia”. E mesmo sabendo que o “basta” social se aproxima.

Qualquer projeto que se pretenda efetivamente transformador tem que se aliar com as ruas. A palavra final vem das ruas (vide Dilma). Vem das bases populares organizadas de quem o PT nunca deveria ter se afastado.

* Após concluído este artigo, outra pesquisa, paga pelo Banco Pactual, nesta segunda (24/set) reafirma que se consolida a vaga do ex-prefeito paulistano no segundo turno: segue subindo, agora com 23% (ganhou mais 1% dos votos, em três dias).


Quantas matérias por dia você lê da Fórum?

Você já pensou nisso? Em quantas vezes por dia você lê conteúdos esclarecedores, sérios, comprometidos com os interesses do povo e a soberania do Brasil e que têm a assinatura da Fórum? Pois então, que tal fazer parte do grupo que apoia este projeto? Que tal contribuir pra que ele fique cada vez maior. Bora lá. Apoie já.

Apoie a Fórum