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01 de outubro de 2018, 17h11

Do antipetismo ao antitrabalhismo: uma fábrica de monstros

A polarização entre Bolsonaro e PT é uma construção do PSDB para ocultar os interesses econômicos que há por trás de tudo isso

Alckmin e Bolsonaro nas eleições de 2018 - Reprodução

A polarização entre Bolsonaro e PT é uma construção do PSDB para ocultar os interesses econômicos que há por trás de tudo isso. Não vivenciamos um conflito entre radicais, muito menos moralista, mas um conflito entre a manutenção dos direitos trabalhistas contra o fim desses direitos. Um conflito entre privilégios de classe.

O PSDB posa de sensato ideologicamente denunciando o radicalismo, mas o que faz é jogar lenha na fogueira com o intuito de ver o povo se queimar. Além disso, defende o pensamento econômico do candidato do PSL, embora coadune com a campanha do #elenão.

Não estamos nos EUA, onde há um conflito entre dois partidos. Aqui temos vários, o que não impede uma ordem bipolar. No entanto, essa bipolaridade não é moral, embora a imprensa se esforce para mostrar as coisas dessa forma. A burguesia consegue fazer com que os pobres trabalhadores se dobrem aos seus interesses através da moralidade, a ponto de um trabalhador defender o fim do 13° salário. É o papel clássico da ideologia.

Acho muito difícil de que o candidato do PSL consiga colocar suas propostas de segurança pública, educação e outros pontos moralizante em prática caso eleito, mas as questões econômicas ele conseguirá. E é isso que realmente importa.

A burguesia vota em Bolsonaro porque acredita em seu projeto econômico e não porque acredita que efetuará seu plano moral na prática. Por isso, atores pornôs e pastores estão do mesmo lado. Já o trabalhador (uma pequena parcela, já que a maioria é de esquerda) vota no candidato do PSL porque acredita na sua moralidade, não se importando com o plano econômico destrutivo do presidenciável.

Nada tem que ver com as eleições norte-americanas que elegeram Trump. O filósofo marxista esloveno, Slavoj Zizek, ao ser perguntado se, caso pudesse escolher entre Trump e Hilary, respondeu sem titubear que votaria em Trump. Para ele Hilary esboçava uma visão muito mais imperialista empenhada em ceder ao mercado internacional. Já Trump pensava mais internamente e, como foi confirmado até o momento, suas propostas escandalosas dificilmente sairiam do discurso.

Aqui a coisa muda. O candidato de direita quer ceder ao mercado internacional e empobrecer o trabalhador interno. Não há proposta alguma de investimento, só replica frases que favorecem os patrões. Fala em aumentar impostos e arrancar direitos e, em nenhuma de suas falas, o trabalhador é citado de forma positiva.

Já a esquerda fala em por fim aos cortes de gastos públicos, isentar de IR quem recebe menos de cinco mil, fortalecer os projetos sociais da era Lula etc. A polaridade verdadeira está oculta, mas precisa se tornar óbvia. Ela se resume entre aqueles que se veem como trabalhadores e aqueles que não se veem como tais.

Quando se diz que não vai ter reserva indígena alguma, não se quer dizer que índio é vagabundo e por isso não merece nada, mas que o seu humilde espaço impede o crescimento do agronegócio. Esse é um exemplo clássico onde podemos detectar a diferença entre o discurso ideológico (mero engodo) e o interesse de classe efetivo. Quando se diz que a mulher deve ganhar menos, é para que o patrão gaste menos em remuneração. Quando se diz que se deseja um Brasil sem diferença de classes, de cor, sexo etc. não se quer dizer que isso tudo é palhaçada do politicamente correto, ou um discurso de esquerda que quer dividir o país, mas para que o pobre engula sua condição de pobre e compartilhe do raciocínio do patrão para assim reproduzir a lógica de dominação na empresa, nas ruas e no lar.

A partir daí não se busca ver o trabalhador como tal, procura-se enxergar todos como “cidadãos de bem”. Esse conceito lembra muito o que Ellen Wood classificou de “cidadania passiva” no qual o povo não é visto como uma categoria social, “mas sim como um grupo de indivíduos isolados com uma identidade política divorciada de suas condições sociais”. Assim as classes se fundem e passam a ter os mesmos interesses. Lógico que estes interesses serão os dominantes, isto é, o da classe dominante.

Se esse conflito ficasse mais claro, o candidato do PSL nem existiria, Alckmin seria obsoleto e teríamos um segundo turno entre Ciro Gomes e Fernando Haddad. Contexto que ainda pode vir acontecer. O fato é que as grandes corporações que controlam a política acreditaram que a moral fosse um caminho para convencer os pobres a aderirem ao projeto Temer que visa tirar os direitos dos trabalhadores em nome de um suposto crescimento. O candidato do PSL é claramente fruto dessa fé, pois caso Alckmin não conseguisse subir nas pesquisas, o fascistinha seria a última cartada.

Contudo, ultimamente vêm percebendo a sujeira que fizeram e o monstro que criaram, pois, os seguidores do ex-militar estão fora de controle. A moralidade os alienou excessivamente a ponto de promoverem atos violentos por diversos pontos do país.

O empresariado também não contou que a direita fosse tão burra, como Paulo Guedes e Mourão que em plena campanha presidencial acabaram por revelar suas medidas antitrabalhistas.

Ele também não contou que um grupo altamente numeroso de mulheres iria se organizar contra o candidato fascista em várias partes do país.

Enfim, o antipetismo é para os desavisados. A ideia por trás do ódio ao Partido dos Trabalhadores é o antitrabalhismo, que não pode ser revelado dessa forma pois não seria tão atrativo assim para os próprios trabalhadores. Entretanto, o plano lentamente está vindo à tona e, mais uma vez, as classes dominantes vão ter que optar pelo acordo, proposta que vem sendo adotada pela esquerda liberal por décadas.


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