Colunistas

26 de janeiro de 2019, 14h40

Do parlamento ao exílio

Monica Benicio: “A decisão de Jean Wyllys em não ser empossado como deputado federal e exilar-se em outro país, devido à intensificação das ameaças de morte contra sua vida, foi um soco no estômago”

Foto: Cristiano Siqueira

Podia começar a retrospectiva pelos últimos cinco anos, mas vou me ater ao último ano. Em março de 2018, executaram a Marielle, o presidente Lula foi preso em seguida, mulheres saíram do Brasil por estarem ameaçadas devido à defesa dos direitos das mulheres – como Débora Diniz, voltamos à situação de miséria e empobrecimento, aumento do desemprego e violências, principalmente contra mulheres, negros, indígenas e LGBTI, foi eleito um presidente com propostas reacionárias, arrancaram o coração de uma travesti após matá-la e um deputado eleito democraticamente não será empossado, em função das ameaças de morte contra ele e sua família que duram quase uma década.

O Brasil não é para amadores/as. Vivemos em uma desigualdade social desde o período colonial, a democracia não foi plena para todos/as. Um país fruto de estupros, assassinatos, pobreza e corrupção. Um país em que movimentos sociais conquistaram os direitos que temos na Constituição Federal de 88, e que muitos não são implementados. Um país que esconde a verdadeira origem que é negra, indígena e feminina. Um Estado que prioriza os interesses individuais de poucos acima daqueles/as que diariamente se levantam para construir um Brasil mais justo. Não querem dividir o pão.

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Somos trabalhadores/as dessa terra, que de dois em dois anos, votamos para eleger aqueles/as que devem nos representar nos parlamentos. Em 2010, elegemos Jean Wyllys pela primeira vez e pela primeira vez tivemos um LGBTI assumido no Congresso Federal. Ninguém imaginou que seria fácil. Porém, as inúmeras violências que Jean sofreu foram de uma brutalidade tamanha. Jean sempre se manteve no espaço de trabalho e nas mídias como uma pessoa admirável pela sua resistência. Ele com sua sabedoria ousou e nos representou como poucos/as. Entretanto, as violências doem. Violências simbólicas, assim como as físicas, causam danos à nossa saúde. Elas se ramificam às nossas relações afetivas, familiares e sociais. Jean, nesses quase dez anos, pouco expressou sobre os ataques que sofria. Aguentou tantas situações junto à sua assessoria e exerceu com coerência seus mandatos.

Desde 01 de janeiro de 2019, nós temos recebido as medidas adotadas pelo governo Bolsonaro como uma cascata de ataques à democracia. São medidas inconstitucionais e que ferem os pactos internacionais de direitos humanos assumidos pelo Brasil. Nas últimas semanas as notícias de corrupção e possível envolvimento da família Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro chocaram a população, inclusive aqueles/as que votaram nas eleições passadas em Jair Bolsonaro. As denúncias apontam que essas mesmas milícias são ligadas aos assassinos da vereadora Marielle. Estamos há quase um ano de sua execução e o silêncio sobre o caso pelo atual governo é ensurdecedor.

A decisão de Jean Wyllys em não ser empossado como deputado federal e exilar-se em outro país, devido à intensificação das ameaças de morte contra sua vida, foi um soco no estômago. Nós ainda estamos, com toda solidariedade ao deputado, compreendendo a atual situação política brasileira. Não temos dúvidas que a democracia está em risco. Jean é o primeiro parlamentar a exilar-se neste governo junto a outras ativistas, como Débora Diniz, que tiveram que sair do Brasil por temerem ameaças.

Não é errada a decisão de sair do país em um Estado que mata até quando não puxa o gatilho. Nenhum exílio é feito por vontade própria. O sentimento de impotência, pois nossa disputa política não se dá por meio da bala, nos faz recuar. E como afirmado pela Benedita da Silva, “preservar a vida ameaçada é também uma estratégia de luta”. Jean não está fugindo, ele está se mantendo vivo. Estar vivo é ter direito de ir e vir, direito de ter lazer, de estar com a família, de amar quem quiser, de trabalhar. Estar vivo é não ter medo de viver. Nós precisamos e queremos Jean vivo.

As chacotas feitas pelo presidente nas redes sociais sobre a decisão de Jean Wyllys mostram quão ridículo é quem deveria ser a principal liderança do país. Ele e sua bancada fundamentalista (que estão há trinta anos no poder) que ocupam os parlamentos têm responsabilidade, direta ou indiretamente, nas perseguições políticas de quem se opõe a um governo pró-fascista. Já perdemos tanto e não vamos dar brechas para que mais sangue seja derramado. O Jean não estará fisicamente conosco, mas nós continuaremos ocupando todos os espaços por Jean, Débora, Marielle, Luana, Maria Eduarda, Vinícius, Dorotty, Quelly, Guaranis-Kaiowá, Amarildo e tantos outros/as que têm suas vidas ceifadas.

Não vamos colocar margarida na ponta de fuzil. Vamos construir nossa oposição nas ruas, com o povo. Sem armas e com ideias revolucionárias. Porque nosso pensamento é livre, assim como nossa esperança.

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