domingo, 20 set 2020
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Dois monstros siameses (neoliberalismo e fundamentalismo)

Primeiramente eu queria pedir desculpas aos siameses por comparar a sua identidade a essas duas figuras maquiavélicas. A questão (e o que tratará este texto) é que esses dois seres ignóbeis representam a encarnação de duas ideias monstruosas que se fundiram para deformar a democracia e a própria humanidade: o neoliberalismo e o fundamentalismo.

Segundo que é uma grande ingenuidade da esquerda acreditar que a ascensão do candidato de extrema direita é proveniente da própria esquerda que não conseguiu parar de falar o nome dele. Esse raciocínio desvaloriza a capacidade da própria direita – que não é nada burra – de conduzir esquemas e artimanhas para chegar ao poder.

Em 1941, Gandhi dizia que “na Índia, temos um governo hitleriano, ainda que camuflado em termos mais brandos”. E ainda: “Hitler foi ‘o pecado da Grã-Bretanha’. Hitler é apenas a resposta ao imperialismo britânico”.1 Aqui se trata da mesma questão. Bolsonaro é fruto do imperialismo norte-americano que se fortaleceu na América Latina após a chegada de Donald Trump ao poder, fundindo o neoliberalismo com o neopentecostalismo. E, não seria nada demais concluir, que o governo Temer foi um governo de Bolsonaro mais brando.

O objetivo do golpe foi enfraquecer a esquerda e implantar uma política neoliberal que pudesse conduzir a crise de modo a recuperar as condições econômicas adequadas para a manutenção das fortunas. O governo Temer apresentou a Reforma Trabalhista, a Reforma da Previdência, o congelamento dos gastos públicos por vinte anos e ampliou a quantidade de leilões. Todas essas políticas são neoliberais que abrem as portas do país para empresas como Chevron, Equinor, Exxon, Shell etc..

O PSL, por sua vez, trouxe para esse projeto neoliberal o elemento ideológico e religioso. O fundamentalismo americano que se encontra tanto nas igrejas históricas (como a Batista, presbiteriana, metodistas etc.) e nas neopentecostais (como Sara nossa Terra, Universal do Reino de Deus etc.) caiu como uma luva para a promoção desse projeto econômico. A influência das escolas teológicas nos cursos de teologia e no mercado editorial evangélico norte-americano no Brasil, acabou por disseminar uma ideologia conservadora pregada pelos protestantes de lá. Muitos desses grupos se colocaram contra Martin Luther King Jr., e se serviram do mito da “nação escolhida” para liderar movimentos reacionários que apoiaram Ronald Reagan e agora Donald Trump. “A fé protestante tornou-se, então, forte aliada da propagação do individualismo neoliberal, por meio tanto da teologia da prosperidade quanto do moralismo ascético meritocrático”, afirma Robson Santos Dias, professor do Instituto Federal Fluminense.2

Portanto, o Brasil que virá com um presidente aliado a bancada evangélica e com um parlamento e um senado formado por muitos pastores será a continuidade do governo Temer assomado ao fundamentalismo. Cabe lembrar que o PSL é o partido mais fiel ao presidente golpista, e o guru da economia, Paulo Guedes, aconselha-se com os ministros de Temer. Serão anos extremamente religiosos, ainda mais se, no Rio de Janeiro, o candidato do Partido Social Cristão ganhar as eleições, fazendo dobradinha com o prefeito Crivella.

Alguns países estão proibindo as seitas evangélicas, justamente por seus interesses não apenas religiosos, mas políticos. No Brasil temos o procurador Deltan Dallagnol, da Igreja Batista Bacacheri, entre os protestantes históricos e, o famigerado Malafaia, neopentecostal, dentre outros de grande influência na política. “Possivelmente em cerca de 10 e 15 anos o Brasil não terá mais maioria católica”, avalia o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE. E já começamos a eleger os representantes dessa Idade Média situada no futuro.

Os políticos falarem frequentemente em nome de Deus não é à toa. Vimos isso no golpe em 2016. 11% dos candidatos dessas últimas eleições eram evangélicos. Tivemos 37 deputados federais evangélicos eleitos e 6 senadores, sendo que a mulher com maior número de votos para deputado na história do Brasil foi Joice Hasselman, do PSL e membro da Igreja Batista. O Rio de Janeiro, por sua vez, elegeu dois senadores ligados a tal círculo religioso, Flávio Bolsonaro e Aroldo de Oliveira.

Essa é a renovação que escolhemos para o Brasil? Uma mistura de religião e política nos moldes medievais? A década de 20 do século XXI terá muitas semelhanças ao período em que a Igreja possuía um grande poder ideológico. Depois de diversas conquistas espaciais, medicinais e tecnológicas, quem imaginaria esse retrocesso moral e político? Serão anos difíceis para a oposição e para a democracia em toda a América Latina. “O caso da Costa Rica é exemplar: bastou que o pastor e cantor Fabricio Alvarado, candidato à presidência, rechaçasse vociferante o chamado da Corte Interamericana de Direitos Humanos para respeitar os direitos da comunidade LGBTI para que ganhasse o primeiro turno da eleição.

Na Venezuela, por seu lado, milhões não viram outra saída senão refugiar-se em igrejas com nomes como “Pare de sofrer”. Já a Guatemala é governada por um humorista e pastor evangélico, Jimmy Morales, que é contra o aborto, recusa o casamento homoafetivo e tem mais receitas contra as minorias do que soluções para a corrupção galopante”.

Chegamos a um ponto de inflexão rumo a um conservadorismo ganancioso que pretende abrir as veias da América Latina com um maço de dinheiro em uma das mãos e na outra uma bíblia. As populações de séculos atrás passaram pela mesma coisa, mas era outro modelo econômico, outra religião. A renovação que estamos presenciando na política em todo o continente é apenas de aparência, mas preserva o mesmo modus operandi.

 

1 Apud. LOSURDO, D. STALIN: história crítica de uma lenda negra.  Revan, 2010. p. 191.

2 DIAS, R. S. “O avanço do fundamentalismo nas igrejas protestantes históricas do Brasil”. Le monde diplomatique Brasil, ano 12, n. 135, out, 2018. p. 23.

 

Raphael Silva Fagundes
Raphael Silva Fagundes
Doutor em História Política na UERJ. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.