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04 de janeiro de 2019, 20h54

“É notório que seremos cerceados em nossos espaços de trabalho”, diz pesquisadora

Bruna Andrade Irineu (UFMT) acaba de ser eleita presidente da Associação Brasileira de Estudos da Homocultura. Nesta conversa exclusiva com o blog, ela faz uma análise de conjuntura do está por vir no campo acadêmico e políticos das questões LGBT e feministas

Foto: Divulgação

Bruna Andrade Irineu é Professora Doutora do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT e acaba de ser eleita Presidenta da Associação Brasileira de Estudos da Homocultura – ABEH (2019-2020).

Na entrevista que você confere a seguir, Bruna Irineu fala da importância de assumi a presidência da ABEH no atual contexto político que se inicia no Brasil. A pesquisadora também analisa a eleição das candidaturas de travestis e transexuais da esquerda às Assembleias e analisa que a “eleição de travestis, mulheres negras e defensores de direitos humanos em alguns estados mostra que não houve uma derrota no campo progressista ou mesmo na esquerda, há sim um realinhamento no fluxo das lutas sociais pela transformação social, do qual podemos sair mais fortes coletivamente”.

Confira a seguir a conversa na íntegra.

Faça um breve comentário sobre a sua trajetória.

Sou assistente social formada pela UFMT, mestre em Sociologia pela UFG e Doutora em Serviço Social pela UFRJ. Me interesso por temas relacionados às políticas sociais e à população LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e intersexuais) nos países latino-americanos, observando especialmente a relação Estado-sociedade civil nas demandas por direitos sociais e participação social. Em minha trajetória é notório a indissociabilidade entre militância e academia, sempre estive em espaços onde esses dois campos se correlacionavam exatamente pelo potencial transformador que há nessa dinâmica. Esse entendimento vem do que aprendi sobre não dicotomizar teoria e prática com o Serviço Social brasileiro e também da dimensão do pessoal enquanto algo político que nos ensina o Feminismo. Me inseri na militância LGBTI no ano de 2004, mesmo período em que comecei a fazer iniciação científica cuja pesquisa vislumbrava compreender o significado político-pedagógico de assumir-se lésbica na universidade. Ao mesmo tempo, começamos a construir espaços críticos ao ativismo “onguizado” pelo seu formato verticalizado e profissionalizado de atuação dos movimentos sociais. O lugar de investimento, dessa geração que se movimentou dentro da universidade, se deu a partir dos grupos universitários de diversidade sexual, neste período os ENUDS (Encontro Nacional Universitário de Diversidade Sexual) eram eventos político-acadêmicos que reuniam esses coletivos. Essa trajetória se inicia em Mato Grosso, depois Goiás, Tocantins e agora mais recentemente retorno ao Mato Grosso. Em Tocantins, como docente da UFT (Universidade Federal do Tocantins), coordenei trabalhos de formação continuada em gênero e sexualidade para profissionais que atuam nas políticas públicas; articulamos pesquisa e extensão em trabalhos de preservação da memória LGBTI local; e co-produzimos muitos processos envolvendo a agenda lésbica, que naquela conjuntura nos exigia protagonizar essas lutas enquanto militante e pesquisadora. Essa indissociabilidade a qual me refiro me parece imprescindível nos tempos atuais de recrudescimento do conservadorismo e avanço do neofascismo.

Fale um pouco da ABEH.

A Associação Brasileira de Estudos da Homocultura (ABEH) foi fundada em Niterói no ano de 2001, e trata-se de uma entidade sem fins lucrativos que reúne pesquisadoras e pesquisadores de qualquer instituição de ensino e/ou pesquisa, de qualquer nível de formação e de distintas áreas de conhecimento que se interessem e produzam sobre diversidade sexual e de gênero. No ano de 2018, a ABEH realizou seu nono congresso bianual, reunindo cerca de mil participantes em Fortaleza/CE, onde elegeu-se a nova diretoria do biênio 2019-2020.

Qual a importância de uma mulher lésbica presidir a associação?

Em quase 20 anos de existência da Associação, é a primeira vez que a presidência é assumida por uma pesquisadora lésbica. Isso fala muito do não-lugar que nós, lésbicas, ocupamos na produção do campo dos estudos de diversidade sexual e de gênero, o que também pode ser visto quando levantamos a produção sobre lesbianidades no Brasil, como nos aponta trabalhos de Ana Carla Lemos (2018) e Guilherme Almeida (2008). Assumo a presidência da ABEH após a gestão da Professora Luma Nogueira, que em 2017 foi a primeira travesti eleita a presidência da associação. É simbólico que a primeira lésbica a assumir a presidência da ABEH, a assuma em momento político tão duro e hostil. Há um efeito simbólico importante nisso, que envolve visibilidade e reconhecimento, mas mais do que eleger uma presidenta lésbica é preciso aprofundar o debate sobre lesbinidade na agenda político-acadêmica da associação.

Você se elege num contexto onde um governo de extrema direita aliado a valores teocráticos acaba de se eleger. Acredita que o campo de pesquisa sobre gênero e sexualidades pode vir a ser perseguido?

Já há uma perseguição instalada anteriormente, que neste novo governo deve tornar-se ainda mais rígida. Tatiana Lionço (2018) tem discutido o processo de demonização de instituições como o ativismo LGBTI, através da exposição de sujeitos políticos na internet. Se o discurso de “combate a ideologia de gênero” promoveu processos judiciais contra professores da educação básico e superior Brasil a fora (mesmo que estes não tenham perdido nas instâncias judiciais), o que nos faz duvidar que não seremos perseguidos se muitos de nós já está sendo? A falácia da “ideologia de gênero” elegeu o recém empossado presidente, é notório que seremos cerceados em nossos espaços de trabalho, tanto pela via de desqualificação do que discutimos quanto pela destruição e intensificação da precarização do ensino superior público. O que não se pode perder de horizonte, é que a liberdade de cátedra é um direito e que não se restringe e assevera direitos sem resistência popular. Precisamos ter lucidez nas estratégias de resistência e o que este campo de saber já produziu para o ensino, a pesquisa e a extensão, nas últimas décadas, mostra que temos condições concretas de entrar na batalha das ideias contra o obscurantismo que tenta se instaurar mesclando valores neofacistas e uma política liberal ostensiva.

Qual deve ser o papel da academia para os próximos anos diante dos possíveis retrocessos políticos anunciados, por exemplo, nas pastas de relações exteriores, Direitos Humanos e educação?

A academia é também um terreno arenoso que está em disputa, nunca foi simples e fácil manter um grupo de pesquisa ativo e ávido sobre temas que envolvam gênero, raça, sexualidade e direitos humanos nas universidades públicas. É fato que houve um crescimento do campo, que também acompanhou as medidas de ampliação das universidades do governo PT, mas para quem tem como experiência lecionar e pesquisar em campus de contextos interioranos, sabe como a existência de nossos eventos, pesquisas, extensões e disciplinas exige de nós articulação institucional, adesão discente e saúde mental para lidar com constantes desqualificações entre nossos pares e outros trabalhadores que se inserem nas universidades. A produção científica brasileira, com especial atenção as Humanidades, está sob ameaças que envolvem a “demonização” das ciências humanas, sociais e sociais aplicadas. Os cortes na área da Educação e Ciência & Tecnologia já vinham reduzindo drasticamente os recursos para todas áreas e com o aprofundamento da perseguição ideopolítica tem-se um cenário de larga escala para o retrocesso. Não é surpresa que esse governo trabalhe para minar as universidades públicas, haja visto sua relação de interesse com as instituições privadas de educação à distância. Sem dúvida, o discurso familista deste governo alinha-se ideopoliticamente ao aprofundamento do ideário neoliberal. E, portanto, a execução de políticas para mulheres, LGBTI, direitos humanos tendem a intensificar a produção do homonacionalismo e da homofobia cordial. Embora a gestão federal do PT tenha inaugurado um cenário de investimentos nesta área no Executivo, a fragilidade da política nacional LGBTI, coloca-a em uma condição distinta as políticas de saúde ou de assistência social, já que não há uma lei orgânica que determine e define diretrizes as políticas de direitos humanos em âmbito federal. Enquanto o impacto para a saúde, assistência social e outras áreas envolvem contrarreformas, que incidem em cortes orçamentários e terceirização dos serviços, na área LGBTI não há uma dotação orçamentária estabelecida em qualquer documento da gestão atual ou das anteriores. Esta área no Executivo sempre teve escassez de recursos financeiros e humanos, o que teremos de retrocesso impactará mais fortemente na ausência deste debate na agenda política do novo governo, o que para nós envolve prejuízo de décadas para conseguir colocar a LGBTIfobia na agenda governamental.

Ao mesmo tempo em que tivemos a eleição de um governo de extrema direita, tivemos, em vários estados, a eleição de candidatas travestis e as bancadas ativistas. Como você analisa essa movimentação?

O ativismo LGBTI, em seus 40 anos de existência organizada, capilarizou suas demandas e a participação político-partidária é uma delas, como nos indica, especialmente no caso do segmento T, o estudo de Mário Felipe Carvalho (2015). O PSOL, PC do B, PT, PSB, PV e REDE tiveram candidaturas LGBTI ou pró-LGBTI eleitas em 2018, espera-se que se evidencie com isso ampliação de projetos de lei e aprovação de emendas que garanta a estruturação e/ou permanência de políticas estaduais para o segmento. A criminalização dos movimentos sociais e dos ativismos políticos exigirá de nós maior diálogo entre os campos progressistas, que envolvem sujeitos com projetos societários distintos, mas que precisaram partilhar de estratégias comuns em defesa do reestabelecimento de nossa frágil democracia. A eleição de travestis, mulheres negras e defensores de direitos humanos em alguns estados mostram que não houve uma derrota no campo progressista ou mesmo na esquerda, há sim um realinhamento no fluxo das lutas sociais pela transformação social, do qual podemos sair mais fortes coletivamente. Pois do mesmo modo que descobrimos oponentes dentro de nossos próprios lares, também (re)conhecemos camaradas e companheiras/os nas ruas, bares e vizinhanças. É tempo de lutar, de afetar e ser afetado, mas principalmente, de disputarmos ideias com o que temos de mais potente, nossos corpos e existenciais. A ABEH não se furtará em denunciar qualquer governo ou instituição que ameace nossas vidas e não hesitará em desenvolver sua função político-acadêmico enquanto associação científica que preza pela disseminação de saberes que promovam a alteridade e respeito aos direitos humanos.

 

 


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