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24 de janeiro de 2019, 21h53

É preciso quase amar no Méier, como Rafael Zacca

Tomaz Amorim comenta “A estreita artéria das coisas”, livro de poesia de Rafael Zacca publicado no fim de 2018 pela editora Garupa

Foto: Reprodução

Chimamanda Adichie fala do glutamato monossódico como tempero, Rafael Zacca fala da margarina amarela (não manteiga), do acém. Da gordura do Méier que espreme por dentro a artéria das coisas. Um tipo liso, lubrificado, de sufoco. Essa gordura viajante que para no subúrbio, mas lança o potinho como barca no mar. Para virar micro fragmento, plastiglomerado, plástico-bolha no mar. “A estreita artéria das coisas” foi publicado no fim de 2018 pela editora Garupa. Zacca já havia publicado poemas na coleção “Kraft” e tem uma trilogia político-humorística ao redor de figuras como “Mini Marx”, “Mega Mao” e “Retro Rosa”, que é motivo para texto à parte. Também foi articulador durante muitos anos da Oficina Experimental de Poesia no Rio de Janeiro. É um dos jovens poetas e críticos que trabalham para manter a cena viva.

Foto: Arquivo Pessoal

O livro de poemas é em quatro partes, com uma abertura chamada “Em pleno atlântico”. Na primeira parte, “Crianças”, aparece lembrada uma infância com o gozo da brincadeira e seus riscos. Como uma possibilidade política para o futuro no seu gesto deslocador, o mar ouvido dentro da concha. As crianças cercadas de animais e lixo ressignificado, “útero vivo das fábulas”. Um Bandeira transfigurador de menino de rua em sonho vivo, meu deus, esse bicho dormindo na calçada é um menino. Há jogo, mas há farpas, cacos, há perigo. Por que essa crueldade? Por que esse eu lírico, que ama o que é bom e belo, precisa ameaçar constantemente os pés das crianças com cacos de vidro?

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A segunda parte, “Jogo do porco”, é um tipo de sequência. As crianças crescem e os cacos de vidro são uma ameaça infantil, as porradas vão ficando de adulto, mesmo. A melancolia, muito cedo, já contamina uma vida que nem começou. É um sem caminho, o capítulo anterior já faz falta: “tudo é triste e quer nascer de novo”. Mas já? “Tropecei enquanto corria e quase beijei o chão” é um poema que deveria entrar para a antologia de maiores poemas da história do mundo sobre o Méier. Ele nos faz ter carinho, nós que tivemos o azar de não crescer nesse lugar (mas, em geral, em um lugar muito parecido, o subúrbio, que talvez em São Paulo nós chamamos de periferia, ou quebrada, é único e genérico ao mesmo tempo, presente e eterno, “nunca mudou, nem nunca mudará”) que ele descreve tão bem. Este eu-lírico sente toda a dor do mundo e é amoroso. Os quase burgueses são quase perdoados. Os quase homens, que brigam, mas apanham, são quase perdoados. Os quase bonitos são quase amados. O carnaval é quase livre e quase amado. Não há crueldade nenhuma nesse quase. É preciso também amar este quase. É ele quem impede de querer nascer de novo, ou seja, de morrer, é ele quem é intransigente na busca de uma beleza aqui nas farmácias com luzes esterilizadas do Méier. (Não há algo também profundamente cristão nesse quase amar dos inimigos?). Enfim, os jovens perto ainda das crianças, mas já no limite da inocência, perto demais ainda das latas açucaradas, já apavoradas pelo ralador de gente chamado sociedade.

A terceira parte, “2kg de acém nas mãos”, é mais um passo na caminhada da maturidade, mas a figura da criança, de um pássaro, está sempre presente, como um ponto de referência, de memória de outra maneira de viver a vida. Elas observam de longe a peripécia destes jovens adultos que às vezes as reencontram em fuga, encontrando dentro e fora, em negativos coloridos, possibilidades de vida que não seja carne moída. Um dos temas do livro, sem dúvida, é o amor e suas possibilidades limitadas, milagrosas neste século XXI, para gente como nós. O amor social, o amor sexual em suas possibilidades prismáticas – tudo se mistura. Por isso esse eu-lírico, em um belíssimo poema erótico, não sabe como separar o amor e a guerra, violência e sexo, infância e vida adulta. O corpo “minúsculo” da companheira que treme na cama é a guerra. Da referência benjaminiana à primeira guerra mundial no título, aos seios como granadas, as mãos como escavadeiras, as curvas como deslizamento de terra nas estradas, o corpo não apenas como guerra, mas como paz (e, aqui, claro, ressurge a criança: “traz gangorras e lamas e nuvens e ondas / coisas que mexem com o juíza das crianças”), paz que não é regressão uterina, como poderia ser, em uma saída fácil, mas é uma paz como conservação-superação, como “Aufhebung(com o perdão do germanismo) da guerra. Chupar as coxas deste corpo atravessado pela guerra (e qual corpo não é atravessado pela guerra? E qual corpo feminino não é atravessado pela guerra?), deste corpo que é “um tanque militar”, chupar as coxas de um tanque de guerra, mas este chupar, justamente, não pode ser nunca militar – “não posso chupar / tuas coxas como quem morre ou mata”. Sem recuar um centímetro do problema, da dor, da visceralidade do real, ainda assim, uma recusa em simplesmente reproduzir, não, é preciso amar, é preciso dar aulas de filosofia ou compor sinfonias em campos de concentração, como Benjamin ou Messiaen. É preciso quase amar no Méier, como Rafael Zacca. É preciso, talvez, não morrer para nascer de novo, mas quem sabe, nos sonhos das melhores noites, enfrentar a guerra e fazer um superfilho, “salvando o mundo, limpando o lixão”. (Mas parece que não, a ave não voa, os ossos se quebram, tudo se estilhaça e vira pontiagudo e ameaça este eu-lírico e seu leitor).

Na quarta parte, “Pequeno manual [de zoologia sentimental]”, as pombas voam, mas se bicam, as abelhas furam os olhos umas das outras, os insetos conspiram contra os terráqueos, ratos cropófagos, tatuís envenenados devoradores de mundos, o amor reduzido à tênia, o amor amplificado na tênia, os caranguejos veneno-remédio, a diferença de pontos de vista entre o bicho-da-seda e a taturana, o terrorismo e a solidariedade de classe das formigas, os pinguins que guardam o nome secreto das coisas, um bestiário, enfim. (“Oncinha pintada, zebrinha listrada, coelhinho peludo, vão se foder!”) Há muita gente inteligente pensando sobre a literatura e os animais. Todos os binarismos europeus estéreis da relação humano e animal vão, felizmente, sendo chacoalhados e esta última parte do livro é uma contribuição nesse sentido. Nós como animais, mas não, os animais como coletivos humanos, mas não, os animais como alteridade, mas não, os animais como refúgio da segunda natureza chamada sociedade, mas não, os animais como refúgio infantil, mas não, os animais como perigo iminente, mas não, os animais tranquilos na sua, mas não. Enfim, animais que se sente e pensa, com aquela mesma ternura arriscada que permeia o livro.

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