Elika Takimoto

15 de outubro de 2019, 10h48

O dia é 15 de outubro. O ano é 2019. Aqui não se comemora Dia dos Professores

Aquele sonho de melhorar o mundo pela educação que sempre tivemos… aquele sonho nem Bolsonaro vai tirar de nós. Posso lhes garantir. Daremos o nosso jeito

Foto: Agência Brasil

Hoje, Dia dos Professores, 15 de outubro de 2019, ouço ecos do discurso de que o ensino deve formar um cidadão e que ao professor não lhe cabe a tarefa de educar e sim de ensinar. Entende-se por “ensinar” enfiar goela abaixo do aluno conteúdos distantes de sua realidade e domesticá-lo para servir a um sistema que insiste na ideia de que “ser alguém na vida” é um ser que tem muito dinheiro para consumir coisas supérfluas.

Discutir o pluralismo de ideias significa, para essa gente pequena, uma ameaça, pois implica preparar o educando não somente para desenvolver pensamento crítico, mas também para respeitar a diversidade, a alteridade e a divergência de opiniões que caracterizam as sociedades democráticas. Por incrível que pareça, isso é visto como algo perverso.

Hoje, há professores estimulando o debate sobre o consumismo moderno, a urbanização do mundo, a atuação das empresas multinacionais, a corrida desenvolvimentista, a sustentabilidade e a história contada por pensadores brancos entre outros assuntos marcados pela hegemonia do saber. Questionamos por que as mulheres são tão agredidas, os negros assassinados, a indignação ainda é tão seletiva, debatemos sobre o sucesso ser baseado unicamente na ascensão econômica, enfim, falamos sobre vários temas conectados à natureza da perversidade das relações. Hoje, há professores estimulando a discussão sobre as desigualdades sociais, o feminismo, a discriminação sexual, entre outros assuntos. Isso tem feito o futuro cidadão pensar e, por isso, estamos sendo considerados inimigos da sociedade.

Querem nos fazer acreditar que será através dessa nova escola pública militarizada que estão nos impondo que vamos tirar as pessoas da pobreza. Não somos idiotas, Bolsonaro. Sabemos que foi com o advento do colonialismo juntamente com o dito “desenvolvimento” e a ideia de “ajuda” que a pobreza foi criada no mundo. Só mudaram os atores, os personagens são os mesmos e não nos enganam.

Sigo muito animada. Sei que é impossível essa profissão morrer ainda que agonize em praça pública. Verdade seja dita, nunca falamos tanto em Educação como hoje e a venda dos livros de Paulo Freire bateu recorde.

Quem odeia Paulo Freire, odeia professor. Se leram o mestre, viram o amor com que ele trata a nossa profissão e as reflexões profundas que ele fez sobre o educar. Não tem como não citá-lo no dia de hoje: “Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica”.

Ainda que me falte a danada da esperança, continuarei lutando porque não quero passar por esse mundo como alguém que foi amputado sem grito, resistência e repúdio, diante de tanta atrocidade e dor. A esperança está acabando. Mas a nossa paciência também. E bem se sabe o quanto a falta desta nos move para outros lugares.

Sou uma professora. Acho que nasci assim. Por uma necessidade ontológica do meu ser e da minha carreira que se fundem, onde estou não pode ser um espaço de conformismo social, cultural e intelectual.  Uma Escola que não promove um livre debate não é uma Escola. Precisamos dar a esse espaço que o governo Bolsonaro quer administrar um outro nome.

Estão fazendo de tudo para acabar com a nossa profissão, que em essência estimula o voo do pensamento. Enquanto as asas de muitos professores e professoras desse país estão sendo cortadas, muitos e muitas de nós já estamos usando as leis da física – e as que estão na Constituição – para fabricar um modelo novo de asa delta.

O dia é 15 de outubro. O ano é 2019. Aqui não se comemora Dia dos Professores. Não há festa entre nós hoje. Com as pedras que nos atacam, estou com muitos colegas aprendendo a construir um castelo. E, teimosos que somos, usamos o dia de hoje também para trabalhar nesse projeto.

Aquele sonho de melhorar o mundo pela educação que sempre tivemos… aquele sonho nem Bolsonaro vai tirar de nós. Posso lhes garantir. Daremos o nosso jeito.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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