domingo, 20 set 2020
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Sem mil vidas

Sem mil vidas
Sinto muito. Sinto tanto. Em termos de número de mortos, é sempre estranho achar que cem mil é uma tragédia maior do que cinquenta mil, do que dez mil, do que mil… Quando a morte pode ser evitada, essa perda sempre será uma tragédia ao menos para uma mãe, um pai, um irmão ou um filho. 
Falhei como educadora. Minha didática não serviu. Não teve voz. Não repercutiu. 
Falhamos como escola quando estamos aprendendo, ao invés de frear um crime contra a humanidade, a conviver com a tragédia e a normalizar o que é abominável.
Ouço ainda que exagero com meus cuidados, que estou ficando deprimida e que posso ficar doente sem socializar, em suma, que “não é para tanto”. Não ouço isso de uma pessoa que tenha votado em Bolsonaro – desses eu recebo o deboche, o “e daí?”.  Ouço de quem, gozando saúde, acha que seja imortal e, perante o ilusório infinito, considera que uma dose de egoísmo não faz mal.
Diante dos números, há tempos ando preocupada com quem fica doente.
Fico muito mais tensa, porém, com quem está andando feliz no inferno. 
Não que eu não considere a possibilidade de sorrir. Longe de mim… logo eu dada a tantas gargalhadas. Não é isso. Considero repugnante quem não se comove com mais de mil mortes (que poderiam ter sido evitadas) por dia e que, mesmo não tendo votado em Bolsonaro, repete as palavras desse genocida: “Vamos tocar a vida e buscar uma maneira de se safar desse problema”. 
Pessoas com nomes e com futuro se foram precocemente e as famílias não puderam velar os corpos levando – o que já era traumático – a um nível insuportável. 
Por mais que alertasse para essa dor da perda e de não poder viver o luto, falhei.
Não consegui barrar um extermínio. 
Eu, professora, não soube explicar. Não comovi. Não empolguei. 
Enquanto falava, vi a turma me dando as costas e ir brincar no pátio antecipando um recreio.
Gostaria de ter conseguido sensibilizar e fazer dos números, como sempre fiz, uma demonstração. Sinalizei que cada ponto no gráfico continha uma história e era um ser humano. Mostrei o número de profissionais de saúde que trabalhavam – e continuam trabalhando –  sem equipamentos de proteção por negligência do Estado, apontei quantos morreram ao cuidar das pessoas contaminadas. Mas sequer você – que me ouviu – tem andado com máscara ou ficado em casa tendo condições para isso. 
Você que votou em Bolsonaro, tem agido como ele. Você que não votou em Bolsonaro, também.
Falando nele, gostaria de deixar registrado que nós que estamos indignados não sejamos, talvez, a maioria. Mas somos muitos.  E não desistiremos de denunciar os crimes cometidos e de cobrar a responsabilidade que Bolsonaro tem de proteger a população. 
Seguimos ainda, deste lado, mobilizados em respeitar as vidas e em não esquecer dos mortos. 
Lutaremos para que a justiça apareça e puna o assassino. 
Sim, assassino.  
Não evitar a morte, tendo maneiras de fazer isso, é uma forma de matar. 
E será sempre um assassino se pudesse ter evitado uma morte e não o fez de propósito. Porque não quis. Pelo contrário, criou condições para isso. 
Sinto muito. Sinto tanto por estar sem tantas vidas. E, prometo, como muitos de vocês, que seguirei tentando.

*Este artigo não refletenecessariamente, a opinião da Revista Fórum

Elika Takimoto
Elika Takimotohttp://www.elikatakimoto.com.br/
Vencedora do Prêmio Saraiva Literatura, doutora em Filosofia, mestre em História, professora e coordenadora de física do Cefet, autora de dez livros e mãe de três artistas.