Colunistas

16 de agosto de 2018, 19h09

Eloquência e autenticidade do discurso: qualidades que candidaturas de esquerda devem buscar

Em novo texto, Valerio Arcary diz: “Não há discurso que se sustente, simplesmente, pelo seu conteúdo. Há incontáveis maneiras diferentes de dizer as mesmas palavras. Nada substitui a preparação do discurso. A força das palavras é, todavia, inseparável daquele que as apresenta, e das formas que escolheu”

Quem entra na chuva é pra se molhar

Quem vê caras não vê corações

Homem prevenido vale por dois

Desconfia do homem que não fala e do cão que não ladra

Sabedoria popular portuguesa

Uma das qualidades chave do discurso oral é a eloquência. O que é a eloquência? A eloquência é a vivacidade, a animação com que nos comunicamos. O entusiasmo é o empenho emocional que nós colocamos nas palavras que usamos. Ou, também, o ardor, o calor, a veemência, portanto, a emoção que sublinha o que se diz.

Queremos vencer o medo. É o medo o sentimento que perpetua a dominação, a exploração e todas as opressões. Queremos inspirar coragem. Porque há emoções mais poderosas do que o medo. A fúria é maior do que o medo. Mas deve ser uma emoção controlada. Não pode ser uma intensidade sem limites. O exagero é uma armadilha. Sempre soa falso e demagógico.

Qual é o perigo do excesso de eloquência? A artificialidade, o fingimento, a impostura, a simulação. Porque há limites. Tudo na vida pode se transformar no seu contrário. A confiança em si mesmo precisa ser temperada pela humildade, senão degenera em empáfia. A eloquência deve ser moderada pela autenticidade, senão se corrompe em falsidade. Ser autêntico é ser fiel a si próprio e às ideias que defendemos.

Nós podemos pronunciar as palavras de muitas maneiras diferentes. Há muitas maneiras de falar, de dizer, de expor. Há um ritmo na falação, há uma pontuação no discurso. E esse encadeamento é regulado pela nossa emoção, e condicionado pela respiração. O tom da voz e a dramaticidade da expressão corporal são o instrumento da eloquência.

No primeiro debate presidencial destas eleições o Cabo Daciolo se apresentou como um exorcista messiânico desesperado. Roubou a cena de Bolsonaro que, irreconhecível, parecia uma caricatura abatida, decaída, fragilizada de si mesmo. Álvaro Dias parecia um robô cansado. Já Alckmin parecia um hipnotizador de tartarugas e Meirelles, com cara de sacerdote egípcio e retórica professoral, um conselheiro de investidores assustados em algum templo piramidal.

Não há discurso que se sustente, simplesmente, pelo seu conteúdo. Há incontáveis maneiras diferentes de dizer as mesmas palavras. Nada substitui a preparação do discurso. A força das palavras é, todavia, inseparável daquele que as apresenta, e das formas que escolheu.

Há um sujeito que se expõe, e toma decisões sobre o estilo de sua intervenção. A fala pode ser mais pedagógica ou mais agitativa e, entre elas, algumas intermediárias, que podem alternar e combinar diferentes recursos. Para decidir o estilo de uma fala, o orador deve considerar vários fatores: depende das circunstâncias da reunião ou assembleia, da entrevista ou do debate, do tempo disponível, dos objetivos a serem alcançados. Há uma enorme diversidade de estilos, e o orador será mais completo na medida em que seja capaz de ampliar o seu repertório.

A eloquência é decisiva. Por quê? Falar em público não é o mesmo que conversar em um ambiente privado. A pressão da plateia é esmagadora, seja ou não presencial. Ao iniciar uma intervenção o orador sabe que estará sendo julgado. As pessoas presentes na audiência exercem uma influência. Ignorá-la é tolice. Não há orador que não sinta a pressão e procure, através da eloquência, dialogar e se adaptar à plateia.

A eloquência é um recurso técnico que o orador deve dominar para conversar com a audiência a que se dirige. Deve saber para quem quer falar. Não se pode agradar a todos. Vivemos em uma sociedade desigual, brutalmente dividida em classes. Um orador de esquerda não deve ter ilusões de que vai despertar a simpatia de “gregos e troianos”. Escolhas precisam ser feitas e, durante a falação, respeitadas. Não se pode ceder à pressão dos inimigos. Há que enfrentá-los de frente. Há que estudá-los. Devemos saber seus pontos fortes e fracos. Devemos estar preparados para responder aos seus argumentos. Não se deve subestimar nunca os inimigos e a força que suas ideias têm sobre a nossa base social.

O que um orador de esquerda não pode fazer é capitular a essa pressão, e mudar o conteúdo de seu discurso. Isso é errado. É indigno para quem é de esquerda. Seu compromisso primeiro é com o programa que defende. Deve resistir a essa pressão e manter o conteúdo do seu discurso, adaptando a forma, e somente a forma, aos humores de quem o escuta.

O domínio da eloquência, portanto, o autocontrole emocional, é a solução que um grande orador utiliza para conduzir a plateia, e não ser conduzido por ela. Não participamos de eleições para dizer o que a maioria quer ouvir. A rejeição pode ser uma experiência terrível. Candidaturas de esquerda têm, porém, um compromisso de classe.

A eloquência tem que despertar o que há de melhor no público para o qual o orador militante se dirige. O que há de melhor nas pessoas é a esperança, a solidariedade, a fraternidade, a coragem, a capacidade de se indignar com a injustiça. Um discurso de esquerda deve agigantar a força dos que lutam pela justiça, e diminuir a força dos nossos inimigos. Seu objetivo é ajudar a colocar as pessoas em movimento. Queremos elevar a disposição de luta dos que nos ouvem, não substituí-los. Queremos comover os que nos ouvem com uma mensagem simples: é possível mudar o mundo, porque há incontáveis exemplos de que a luta coletiva muda a vida. Mas é a emoção do discurso que abre o caminho para as ideias.

Compreender como oscila a consciência média dos diferentes setores da classe trabalhadora e do povo, das mulheres e dos negros, da juventude e dos LGBT’s, estudar a psicologia e o estado de ânimo da audiência é imprescindível para que o recurso da eloquência seja eficaz.

Em condições desfavoráveis os inimigos de classe parecem ter poderes “mágicos”. Na cabeça da maioria dos trabalhadores eles parecem ser muito mais fortes do que realmente são, e os trabalhadores mais fracos do que realmente são. Afinal, eles controlam a riqueza e o poder, têm seus interesses e opiniões defendidos na televisão, em uma palavra: eles decidem.

A arte da eloquência é desmascarar essa ilusão de ótica provocada pela riqueza e pelo poder. A eloquência é uma arma contra o medo. A arte da eloquência é dar as devidas proporções às forças que estão em combate. Ela vai expressar a capacidade de colocar cor, de colocar tensão, de colocar humor dentro do discurso. Todo discurso com eloquência tem uma teatralidade porque é uma “performance”. Evidentemente, é uma representação, um desempenho em que somos nós mesmos, mas é somente uma parte do que nós somos. Há uma escolha a ser feita e, por isso, é uma representação.

Cada vez que nós nos expressamos em público, nós devemos nos apresentar tal como somos. A autenticidade é muito importante. Mas falar em público não é a mesma coisa que falar na sala de jantar da nossa casa. É uma representação, portanto, um desgaste tremendo, e impõe um investimento muito maior. Porque mesmo sendo autêntico e coerente consigo mesmo, o orador precisa usar a eloquência.

Todos aqueles que já tiveram o desafio de ter que falar em público sabem que é uma exaustão. O orador que manteve a concentração em nível máximo sabe do seu esgotamento. Como se tivesse feito uma corrida de maratonista, como se tivesse nadado 20 piscinas. Por quê? Porque há um investimento emocional imenso.

Um dos perigos do trabalho de oratória é que o orador goste tanto da representação que fez de si próprio que, mesmo quando não está em público fazendo uma intervenção, continua fazendo um teatro, uma pose. Essa armadilha é séria. É preciso que o orador saiba contorná-la, senão, mais cedo ou mais tarde, entrará em crise consigo mesmo. Ninguém consegue viver o tempo todo fazendo uma representação do que gostaria de ser, mas sabe que não é.

O orador deve dominar os recursos da eloquência, e não se deixar dominar pela imagem que construiu de si mesmo para a exposição em público. Um grande orador nunca perde a capacidade de rir de si mesmo, e brincar com o personagem que construiu em público para poder vencer na luta de ideias. Quem se apaixona pela teatralização do discurso é vítima de uma armadilha narcisista fatal.

Todos nós precisamos de afeto. E a exposição em público permite uma compensação emocional, uma experiência de aprovação que pode ser perigosa. Porque o afeto das assembleias não pode e não deve substituir as relações pessoais de amor e amizade sem os quais a vida se torna, terrivelmente, solitária.

Aquilo que é uma qualidade, uma virtude, se você exagera torna-se o contrário. É como os temperos numa cozinha: se você dessalgar os ingredientes da feijoada demais, o prato perde sabor e a graça. Agora, se você não dessalgar não se consegue nem engolir. Tem que encontrar o ponto. Como na cozinha, o segredo é o ponto.

No discurso, o segredo da eloquência é o tom emocional. A ausência de vivacidade faz o discurso ficar desinteressante. Ninguém gosta de ouvir um robô, como se fosse uma gravação. O excesso de emoção, por outro lado, o excesso da teatralidade, a dramaticidade exagerada desperta desconfiança da plateia. Pode até diverti-la, mas desperta desconfiança, porque é artificial, é falso.


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