Felipe Pena

17 de fevereiro de 2019, 22h17

O dia em que Jair Bolsonaro foi ao psiquiatra

Novo colunista da Fórum, Felipe Pena imagina o presidente deitado no divã de seu consultório em posição fetal, com os chinelos raider escorrendo pelos dedos e a camisa falsificada do Palmeiras amassada pelo uso. "Nem precisa ir ao analista para fazer o diagnóstico. O Brasil está em perigo porque os brasileiros vivem em estado de negação e o ato falho está no poder."

(Foto: Reprodução/Instagram)

Pra começo de conversa, não estou dizendo que o presidente tem distúrbios mentais. Quem disse isso foi o ministro Gustavo Bebianno. “Perdi a confiança no Jair. Tenho vergonha de ter acreditado nele. É uma pessoa louca, um perigo para o Brasil.” (O Globo, 17/02/2019)

Com os devidos descontos para a ignorância do ministro, que repete os clichês sobre “loucura” ao usar o epíteto como forma de ofender o presidente, precisamos prestar atenção em sua última frase e fazer duas perguntas óbvias. Bolsonaro tem, de fato, algum distúrbio mental? Ele é um perigo para o Brasil?

Olho para o divã do meu consultório e imagino o presidente deitado em posição fetal, com os chinelos raider escorrendo pelos dedos e a camisa falsificada do Palmeiras amassada pelo uso. O perfume adocicado, com notas de cravo e laranja, é usado para disfarçar o odor do tecido sintético. A calça de moletom está dobrada na altura da canela.

– Não é fácil ser simples, talquei? – desabafa o presidente.

A preocupação com a imagem pode nos dar algumas pistas para responder à pergunta sobre os distúrbios mentais. Durante a campanha, Bebianno e Carlinhos 02 disputaram o controle da comunicação do candidato. Enquanto o ministro cuidava da propaganda tradicional, o filho pit bull se ocupava das mídias digitais e, até hoje, tem as senhas do presidente. É desse conflito que podemos tirar a primeira conclusão: Bolsonaro não agiu como louco ao fritar o ministro envolvido com laranjas. Na verdade, seu objetivo foi bem lúcido.

Jair sabia que a gestão do fundo eleitoral do PSL cabia ao então presidente do partido. E, como foi divulgado que a sigla direcionou quase 700 mil reais para cinco candidatas que somaram apenas 2.348 votos (uma fraude evidente), Bolsonaro aproveitou a notícia para conseguir um bode expiatório para estas e todas as outras denúncias alaranjadas. Ele usou o filho para atingir a meta, e, em seguida, dobrou a meta ao retuitar as acusações do 02.

Com essa estratégia, Bolsonaro tenta manter a falsa imagem de honesto e simples (reiterada na foto de chinelos no Palácio da Alvorada) e ainda tira o foco da corrupção da própria família. A briga com Bebianno é uma manobra diversionista.

– A imprensa me persegue. Passaram três meses falando do Queiroz. Só pararam agora. – continua o presidente, em sua sessão psicanalítica. – Sessão não é com cedilha, pô? – pergunta, aleatoriamente, sem me dirigir a palavra.

A momentânea ausência do caso Queiroz na grande imprensa é outra prova de que a fritura de Bebianno não foi um ato insano. O ex-motorista da família Bolsonaro é o gerente do laranjal. Movimentou milhões de reais de funcionários dos gabinetes de Flávio e do próprio Jair para pagar contas da família. Em pelo menos uma delas cometeu o erro de depositar um cheque na conta corrente da primeira-dama. O presidente deu a inverossímil resposta de que se tratava do pagamento de um empréstimo. Mas a pergunta que deveria estar na mídia diariamente foi abafada pela crise com Bebianno: por que um homem que movimentou 7 milhões de reais em três anos pediu um empréstimo de 40 mil ao seu patrão? Novamente, o diversionismo é explícito.

– Sabe o que me perturba mesmo, doutor? É esse gaysismo que domina o Brasil. Eu prefiro ter um filho ladrão do que um filho viado. Aliás, nós vivemos na mão dessas minorias. É um coitadismo generalizado. Índio, mulher, negro. Tem cota pra tudo. Vamos acabar com isso daê!

É o momento em que o psicanalista se contorce na poltrona. A homofobia não é um sintoma, é um crime. Mas leva a conclusões efetivas sobre a saúde mental do analisando. E, quando parte de um presidente, há consequências imediatas para a sociedade, o que põe em perigo todo o país (aí está a resposta para a segunda pergunta do texto).

Recorro ao conceito de “narcisismo das pequenas diferenças”, explorado por Sigmund Freud nos textos Psicologia de grupo (1921) e Mal-estar na Civilização (1930), para esboçar uma hipótese sobre a saúde mental do analisando e de seus eleitores. Para Freud, a civilização, sob o império da lei, é a responsável pela inibição da agressividade humana, que é uma expressão narcísica do ego. No entanto, tal narcisismo agressivo rompe a barreira do recalque e se manifesta publicamente quando incentivado por líderes que se supõem acima da lei (e, portanto, da civilização) ou quando avalizados por um grupo que recorre a pequenas diferenças em relação ao outro para justificar a barbárie.

Os seguidores de Bolsonaro seguem essa lógica e dão vazão aos recalques narcísicos atacando as diferenças dos grupos que elegem como rivais. Daí a constante referência agressiva a homossexuais, negros e feministas. Em muitos casos, tal referência esconde algo ainda mais profundo: um desejo reprimido de ser o outro.

– Peraí, doutor. Aqui não tem essa história de boiolagem não. E também não sou contra o cara que gosta de homem, talquei? Até fui naquela sabatina da GloboNews.  Sou macho, mas respeito os gays, as mulheres e as árvores. – reclama o presidente.

O psicanalista não está fazendo ilações sobre a sexualidade do analisando. Apenas utiliza o conceito de Freud para mostrar que as frases violentas do presidente avalizam a violência real contra os grupos minoritários. O caso do segurança do supermercado que matou um jovem negro com um golpe de jiu jitsu é um exemplo. O genocídio da polícia do Rio no Morro do Fallet é outro. O corpo jogado na caçamba de uma caminhonete aos gritos de “Aqui é Bolsonaro” é ainda mais emblemático. Nesse ponto, as neuroses do presidente colocam o Brasil em perigo.

O mesmo vale para a relação de Bolsonaro com as milícias. Depois de um ano, ainda não sabemos quem matou Marielle. Mas sabemos que o capitão Adriano, chefe do “escritório do crime” no Rio de Janeiro, está foragido. Também sabemos que ele é um dos principais suspeitos do assassinato da vereadora e que sua mulher e sua mãe trabalharam no gabinete de Flávio Bolsonaro. O Rio está em perigo. O Brasil está em perigo.

O Brasil também está em perigo quando um general brasileiro aceita ser subcomandante de uma divisão do exército americano que cuida da América Latina. O Brasil está em perigo quando o ministro da justiça não respeita a Constituição. O Brasil está em perigo quando esse ministro é transformado em herói. O Brasil está em perigo quando os povos indígenas são ameaçados. O Brasil está em perigo quando a Abin é utilizada para espionar bispos católicos. O Brasil está em perigo quando um deputado é obrigado a fugir do país porque não se sente seguro para exercer o mandato. O Brasil está em perigo quando o presidente da República aceita tudo isso ou é diretamente responsável pelo caos.

Nem precisa ir ao analista para fazer o diagnóstico. O Brasil está em perigo porque os brasileiros vivem em estado de negação e o ato falho está no poder.


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