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16 de agosto de 2018, 13h29

Fernando Haddad: o bacharel que o lulismo escolheu para chamar de seu

Rodrigo Perez Oliveira, em novo artigo, diz: “A grandeza do protagonista transformou o lulismo em um capital político que, no limite, é intransferível. Hoje, nenhuma liderança viva, a não ser o próprio Lula, é capaz de se apropriar plenamente do lulismo”

Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas

A candidatura de Lula foi registrada no TSE. Todos sabemos que Lula não será candidato e o registro de sua candidatura foi um ato político, um necessário ato político.

A estratégia está clara desde o início: o objetivo é esgotar legalidade institucional, num constante esforço de denúncia. Assim, os gestores do golpe são obrigados a adotar medidas excepcionais à luz do dia, a deixarem no chão as pegadas de sua infâmia. O golpe é uma narrativa que deve ser reforçada a todo momento.

Foi isso que o PT fez quando levou Dilma ao Senado, para encarar face a face seus inquisidores. Foi isso que o PT fez em 08 de julho, quando o Desembargador Rogério Favreto obrigou o primeiro escalão do golpe a se mobilizar para descumprir uma ordem judicial. Foi isso que o PT fez em 15 de agosto, ao registrar a candidatura de Lula, mesmo com a certeza da impugnação.

Cada um desses eventos teve a sua função. Em cada um deles, a narrativa do golpe foi reforçada na prática, com o colaboracionismo dos próprios golpistas. Temos aí ações políticas para o presente e uma narrativa destinada ao futuro. A batalhada será travada, também, no plano da memória.

Não é de Lula que quero falar neste ensaio. Quero falar do ungido de Lula, daquele que estará com a foto na urna quando os eleitores digitarem “13”.

Mentira: vou falar de Lula também, e do início ao fim. É impossível deixar de falar de Lula. Quando discutimos política no Brasil, todos falamos de Lula, à esquerda, à direita e ao centro. Fala de Lula até quem não quer falar de Lula. Ninguém fica indiferente a uma instituição desse tamanho.

Meu argumento aqui é simples e pode ser definido numa frase curta: a unção de Haddad leva o lulismo aos limites de uma grande contradição. Explico.

Como prática de governo, o lulismo não teve nada de revolucionário. A bibliografia especializada está cheia de estudos que demonstram como Lula foi dócil com tripé macroeconômico montado no governo de FHC e tão importante para os interesses do neoliberalismo internacional.

Porém, em um aspecto o lulismo foi, sim, revolucionário. A revolução lulista é simbólica!

Num país tão complexo como o Brasil, é sempre difícil fazer generalizações O analista que se aventura por esse caminho costuma escorregar na primeira esquina, logo ali, onde algum aspecto rebelde da realidade está pronto para desmenti-lo.

Mas acho que pelo menos uma generalização seja possível: no Brasil, desde sempre, a política institucional é assunto a ser tratado entre iguais, no clube das elites. Tá aí algo tão presente na nossa história que ainda no século XIX Joaquim Nabuco disse que as faculdades de direito eram a “antessala da câmara dos Deputados”.

Ou seja: os filhos das elites saíam da Casa Grande, estudavam nas faculdades de direito e depois seguiam carreira política.

Somente no século XXI essa realidade foi alterada, ainda que temporariamente, mesmo que parcialmente. Com Lula, vimos, pela primeira vez, o Estado brasileiro sendo chefiado por uma liderança nascida nas bases da sociedade e amadurecida em movimento social organizado.

Lula não foi a primeira liderança política que colaborou para a promoção da justiça social e para o fortalecimento da soberania nacional. Antes dele vimos Arraes, Brizola, Getúlio e Jango. Depois de Lula veio Dilma. Porém, diferente de Lula, todos os outros eram bacharéis, a maioria tendo sangue oligarca correndo nas veias.

No lulismo, um nordestino, um operário sem curso superior que escorrega no uso da norma culta da língua portuguesa, é o maestro do jogo político. Esse é o dado novo. Essa é a revolução.

E o que aconteceu quando o lulismo foi posto nas cordas?

Lula escolheu um bacharel como sucessor. Pois é exatamente isso que Fernando Haddad é: um bacharel paulista, uspiano, roqueiro, com jeitão moço criado à leite com pera. Olhando para Fernando Haddad, tenho a sensação de que ele nunca transou sem camisinha, bêbado, depois de sair um forró.

Nada poderia ser mais diferente de Lula que Fernando Haddad.

Que o leitor e a leitora não me interpretem mal. O problema não é pessoal. Não tenho nenhum interesse em desqualificar Fernando Haddad, que foi um bom prefeito em São Paulo, que foi um grande ministro da Educação, talvez o melhor que já tivemos por aqui.

Só estou dizendo o que é óbvio, ao menos o que me parece ser óbvio: na estética, na simbologia, Haddad não representa o lulismo. Isso é um problema que a direção do PT vai precisar enfrentar durante a campanha.

Como aproximar Haddad de Lula? Eu não queria estar na pele dos organizadores da campanha petista.

Eles vão conseguir? Mesmo preso, Lula será capaz de transferir seus votos para Haddad? Alguns dizem que sim. Outros dizem que não. Este é o fator que irá decidir as eleições presidenciais. Só o tempo dirá.

Se Haddad não é o herdeiro ideal, a pergunta a ser feita é: havia outra alternativa?

Falou-se muito em uma aliança com Ciro Gomes, agora do PDT. As escolhas dos dois partidos inviabilizaram a aliança. Além disso, tenho muitas dúvidas se Ciro encarnaria o lulismo melhor que Haddad.

Dentro do próprio PT existiam outros candidatos. Nenhum deles seria mais adequado que Haddad. Afinal, não se tira um Lula da cartola, assim, do nada. Não se fabrica um Lula do dia pra noite. Não nasce um Lula a cada geração.

Talvez diante das opções disponíveis, o que significa a total ausência de opções, a escolha por Haddad tenha sido a melhor possível, ou a menos pior. Haddad foi ministro importante do governo de Lula. Prefeito da maior capital do país. Enfim…

É sempre bom lembrar que o Lula do lulismo também não nasceu do dia pra noite, tendo sido forjado a muito custo, num longo processo de amadurecimento político, numa estrada pavimentada por doloridas derrotas eleitorais. Antes de subir a rampa em 2002, o PT não era um partido popular, não atraía os votos da parcela mais humilde da nossa população.

Muito longe disso. O PT era um partido de classe média, muito querido pelos trabalhadores com alguma capacidade de organização, mas amplamente rejeitado pela grande maioria daqueles que vivem um dia de cada vez, sem saber quando será a próxima refeição.

Foi ao longo do primeiro mandato de Lula que o lulismo tomou o PT de assalto, alterando drasticamente as bases do partido. As bases históricas, formadas pelos trabalhadores organizados, rapidamente se sentiram abandonadas e traídas, o que explica em parte a debandada que aconteceu entre 2005 e 2006. Por outro lado, aqueles que não votavam no PT foram convidados a entrar no jogo, e atenderam ao chamado.

O lulismo transformou os miseráveis em pobres. Essa talvez tenha sido a mais profunda mudança social da história do Brasil.

No seu primeiro mandato, Lula fez uma escolha política deliberada: escolheu não tensionar com os poderosos e preferiu atender uns e não outros. Pagou o preço, levando a pecha de traidor, sendo xingado e hostilizado pelos seus antigos companheiros. Colheu os dividendos políticos também. Está colhendo até hoje. O saldo parece ter sido positivo para ele.

Lula deixou de ser o grevista, o líder sindical, para se tornar o protetor, reencarnando a mística do “pai dos pobres”, imagem tão importante na mitologia política brasileira. Você, pessoa letrada que acompanhou a leitura até aqui, pode até achar isso ruim, paternalista, arcaico. Você pode até falar em “populismo”. Você pode achar o que quiser.

Ironicamente, a força do lulismo é também sua fragilidade. A grandeza do protagonista transformou o lulismo em um capital político que, no limite, é intransferível. Hoje, nenhuma liderança viva, a não ser o próprio Lula, é capaz de se apropriar plenamente do lulismo.

É até possível que o PT vença as eleições. Ainda assim, vitória não significará que Haddad terá herdado o lulismo. Significará, apenas, que herdou os votos. Haddad não é capaz de herdar o lulismo. O lulismo não lhe cai bem, é traje que não lhe serve.

Se for eleito, Haddad, para sua sobrevivência política, terá que fazer outra coisa, inventar uma outra forma de governar, uma outra maneira de conversar com a população, com o risco de se tornar um poste caso não consiga fazê-lo.

Mas isso é conversa pra um futuro que não sabemos se chegará. Por hoje, só é possível dizer que o lulismo foi obrigado a escolher um bacharel para chamar de seu e, com isso, acabou morrendo um pouco.

 


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