Glauber Piva

30 de abril de 2019, 22h44

A epidemia de tristeza não pode reprimir a coragem

Não temos o direito de ignorar a epidemia de tristeza que está nos invadindo pelos poros. Ela é real, profunda e dolorosa

É correto dizer que há uma epidemia de tristeza pelo país?

Eu não sei definir tecnicamente os limites de uma epidemia (será que é porque sou de humanas?). Mas eu consigo interpretar a impotência que transborda dos olhares de muitos amigos e amigas. A humilhação diária e a vergonha alheia que não cessa têm corroído em muita gente a disposição à coragem.

É uma estratégia antiga dos governos autoritários apelarem ao nacionalismo como forma de criar um inimigo interno contra quem guerrear. Assim, anulam a racionalidade do debate político e transformam toda a esfera pública numa lama de ódio e desinteligência.

Na educação, por exemplo, o pior nem são os baixos salários, mas o obscurantismo autoritário que quer calar os educadores e as malandragens desesperadas para impedir que as pessoas pensem livremente. A sanção pecuniária à UFF, UFBA e UNB é apenas (!) parte de uma estratégia de asfixia das universidades públicas, reduto do pensamento livre no país. A ameaça aos cursos de humanas é parte da mesma perseguição antidemocrática. É assim que se semeia o ódio à democracia.

Eles estão doando nossas ruas à violência, tanto a simbólica quanto à física. Como ficam nossas crianças diante disso? Qual é a esfera pública que se oferece aos olhos delas?

A lista de absurdos é enorme e não tem fim. Não terá fim enquanto o fim não chegar pelas mãos do povo na rua. E isso, talvez, resulte em lágrimas e suor ou, pior, em sangue. Será esse o custo de nossa nesga liberdade?

Não é só Bolsonaro. Não são apenas seus filhos e amigos milicianos. É também o judiciário e a imprensa, o legislativo e seus financiadores. É toda essa gente que usa da antipolítica para sepultar a esperança.

Mas daí vem o Lula, justamente o Lula, e semeia novamente a coragem e a esperança entre nós. Lúcido, bem informado e, principalmente, com os olhos brilhando de coragem.

Não temos o direito de ignorar a epidemia de tristeza que está nos invadindo pelos poros. Ela é real, profunda e dolorosa. Assumamos nossa tristeza, mas não a deixemos virar depressão e imobilidade. Mas também não podemos desprezar nosso talento à esperança lutadora, solidária e persistente.

Estou certo: a escuridão terá fim.

Mas, para isso, teremos de dar nomes aos nossos monstros e nos articular em cada cidade, em cada bairro, em cada escola, nos nossos grupos de amigos, nas esquinas, nos clubes de futebol. Será preciso denunciar a burrice programada, a distopia planejada, o desmonte articulado e a milicianização do cotidiano. Quando se fratura intencionalmente as instituições, as milícias nos contaminam por todas as frestas. Não há vácuo; nós sabemos disso.

Portanto, reconheçamos o momento e sigamos.

Tristeza, sim. Covardia, jamais!


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