Glauber Piva

02 de março de 2019, 14h55

A morte do Arthur e nossa doença mental

Quando pessoas, com ou sem cargo público, com ou sem notoriedade, comemoram a morte de um menino de sete anos apenas escoltados por seu ódio, estão revelando o divórcio delas com parte de sua própria humanidade

Foto: Reprodução

A morte não é a melhor das invenções, ainda que possamos elaborar teorias e explicações, ela sempre expõe nossas entranhas, nossas incompletudes, nossas ansiedades, nossas arquiteturas emocionais, culturais ou sociais.

Há mortes que doem pouco em nós, outras nos rasgam por dentro, encurtam nosso horizonte, desfazem nosso chão, revelam nossas redes. A morte do Arthur, neto do Lula, é dessas mortes que, pra além da indescritível tragédia pessoal e familiar pela qual ninguém merece passar, também revela o estado mental de nossa sociedade. Em alguma medida perdemos não apenas a conexão conosco mesmos, com o que somos (ou achávamos que éramos) como nação, mas perdemos, também, a conexão com o que nos traz a possibilidade de sermos uma nação: o fato de sermos humanos.

Quando pessoas, com ou sem cargo público, com ou sem notoriedade, comemoram a morte de um menino de sete anos apenas escoltados por seu ódio, estão revelando o divórcio delas com parte de sua própria humanidade.

Lula é um avô que perdeu seu neto. Enterrar um filho ou um neto é algo para o que nunca ninguém está preparado. Eu tenho filhos e não consigo imaginar a dor desses pais, desse avô, dessa família. Eu queria estar ali para abraçá-los, mas esse não é o único ponto. Para além da dor pela perda pessoal, temos também a tragédia coletiva. A desumanização da morte e do luto é a herança contemporânea que recebemos desse obscurantismo que construímos a muitas mãos. Como se, todos juntos, tivéssemos apagado as luzes do horizonte.

Às vezes eu me sinto vivendo o próprio “Ensaio sobre a Cegueira”, de Saramago. Parece não haver mais uma bússola moral que esteja nos indicando os caminhos. Simplesmente porque, em parte, perdemos a conexão com os princípios de nossa humanidade. E assim alimentamos nossas dores com relações tóxicas, com palavras de ruptura.

Não se trata mais de debatermos nossas preferências políticas, nossas concepções sobre desigualdade social e política macroeconômica, nossas leituras de planejamento urbano e previdência social. A questão é da ordem da saúde mental. Já aconteceu outras vezes, como na morte da dona Marisa ou na facada levada por Bolsonaro. Nosso problema, como sociedade, é nossa comprometida saúde mental. Dia a dia revelamo-nos um país esquizofrênico, com distúrbios do pensamento e das emoções, mudanças no comportamento social minimamente aceitável. Parece que, como país, estamos perdendo a noção da realidade e do juízo crítico.

Estou dizendo, com isso, que há algo de mais grave e mais profundo que “apenas” o mau-caratismo individual de quem comemora a morte dolorosa e inadmissível de uma criança. Nossas relações se tornaram tóxicas porque estamos perdendo nossos valores humanos mais profundos e determinantes para que possamos sobreviver como espécie: a capacidade de sermos empáticos, de nos colocar no lugar do outro e desenhar, coletivamente, a possibilidade de convívio e os próximos passos.

Que não precisemos de muitas outras tragédias para que reconheçamos nossas doenças. Que, para além de Brumadinho, Mariana, do Flamengo, do Arthur e de tudo o que acontece todos os dias, recuperemos nossa disposição à justiça e à solidariedade.

Arthur Lula da Silva, presente!

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