Glauber Piva

18 de março de 2019, 13h10

Entre “matáveis” e indignados, falemos de violência

"Hoje, no Brasil, há um ranking de gente que pode ser matável e uma lista de gente indignada nas mídias sociais", diz o colunista da Fórum Glauber Piva. "Culpar a família, o Estado, as tecnologias digitais ou a escola é apenas um jeito ao mesmo tempo cínico e educado que encontramos para transferir nossas responsabilidades."

Para problemas complexos, soluções complexas.

Para tragédias, lucidez e atitude.

Hoje, no Brasil, há um ranking de gente que pode ser matável e uma lista de gente indignada nas mídias sociais. Só nas mídias sociais.

Podemos tratar de nossas tragédias frequentes a partir de vários pontos. Culpar a família, o Estado, as tecnologias digitais ou a escola é apenas um jeito ao mesmo tempo cínico e educado que encontramos para transferir nossas responsabilidades. E é uma distribuição de culpa que serve para qualquer desgraça: dos assassinatos de Suzano à falta de médicos nos hospitais, às crianças em condição de rua ou a manifestações públicas em defesa de direitos civis, por exemplo.

Quando se diz “a culpa é da família”, insinua-se que “na minha casa a gente faz tudo certo. As outras famílias é que são desestruturadas”.

Falar que “a culpa é do Estado” é um jeito de culpabilizar a política e colocar tudo na vala comum de uma tal corrupção da qual quem afirma diz não participar. Como se a política fosse coisa dos outros, nunca de quem critica.

Por “a culpa é da escola” fala-se de tudo (da qualidade dos professores, da disciplina, da falência das famílias, das propostas pedagógicas etc.), menos das faces da mesma moeda, que são a privatização e o sucateamento da educação, com todos as suas derivações.

Menos evidente, porém, é a elipse resultante da afirmação de que a culpa é das tecnologias digitais, essa marca tão sutil da qual participamos e nos domina cada vez mais.

Dennis de Oliveira, em recente artigo na Revista Fórum, afirmou que Marielle Franco e Anderson Gomes eram “corpos matáveis”: por serem negros e periféricos e, no caso dela, também lésbica. Não há dúvida nenhuma, absolutamente nenhuma, de que os corpos negros são os primeiros na lista dos matáveis. Reconhecer isso é necessário antes de prosseguir com a conversa. Mas, depois dos corpos negros, há outros. E há cada vez mais outros e nós temos de enxergá-los e nominá-los.

Há um ranking de matabilidade. Indígenas, negros e negras e pobres de qualquer canto são os líderes nessa lista. Mas há também as crianças e é sobre elas que eu quero falar.

As crianças brasileiras também são matáveis!

Todos os dias mais de 30 crianças e adolescentes são assassinados no Brasil. Sim: assassinados!

Segundo dados da Fundação Abrinq, a partir de dados do Sistema de Informações Sobre Mortalidade (SIM), entre 1997 e 2016, em média, cerca de 9 mil menores de 19 anos morreram, por ano, vítimas de homicídios no Brasil.

Se reduzirmos nossa análise, veremos que nos últimos 5 anos foram mais de 10 mil crianças assassinadas. Em 2016, 11.600 mil homicídios. 75% a mais que em 1997. Foram 9.100 crianças e adolescentes brasileiros assassinados por armas de fogo em 2016. Crianças que tinham rosto, história, sonhos e famílias e que não viraram manchete.

Mas é pior. Muito pior.

Os relatórios anuais da Fundação Abrinq mostram que “as vítimas têm cor, classe social e endereço. São em sua maioria meninos negros, pobres, que vivem nas periferias e áreas metropolitanas das grandes cidades”. Não são apenas crianças assassinadas a esmo, mas crianças e adolescentes escolhidos: pelos assassinos, pela sociedade, pelo Estado, pelos hipócritas e pelos canalhas.

Eu gostaria de culpar o Bolsonaro pela morte dos meninos e meninas e educadores de Suzano. Seria fácil dizer que a culpa é dos jogos eletrônicos. Seria cômodo culpar as famílias dos assassinos ou os professores que eles tiveram ao longo da vida. Seria cômodo, fácil e mentiroso achar apenas um culpado.

Somos um país violento no qual 80% dos homicídios contra crianças e adolescentes são cometidos com armas de fogo e temos de olhar para isso dentro de um contexto geral de violência, sem concessões a respostas simplistas.

As crianças são matáveis. Todas as crianças brasileiras estão no ranking de matabilidade. Simplesmente porque nosso país não acredita nelas. E nós, todos os outros e todas as outras, não temos o direito de simplificar o problema.

É preciso falar de violência

Como eu disse no início do texto, para problemas complexos, soluções complexas.

Para tragédias, lucidez e atitude. Não temos o direito de nos conformar às recompensas das mídias sociais e achar que tudo ficará bem. Precisamos compreender que violência é essa que nos rodeia a vida. Acho importante que analisemos insistentemente as dinâmicas sociais e culturais (além das individuais e psíquicas, claro) que se relacionam com as muitas manifestações de violência no Brasil.

É óbvio que, do ponto de vista estatístico, vamos encontrar os públicos mais violados e violentados, sempre com destaque para questões étnico-raciais, de gênero e geracionais. Nas manchetes dos jornais, a violência sempre é praticada por indivíduos. Mas, se quisermos falar a sério sobre o tema, teremos de nos debruçar sobre a ambiência que permite sua manifestação. Se hoje há 75% mais assassinatos de crianças e adolescentes do que há 20 anos é porque algo vai muito mal no conjunto da sociedade.

Não podemos individualizar as responsabilidades e achar que, com isso, estaremos solucionando todos os casos: simplesmente porque a soma deles é muito menor que o conjunto. E, aqui, tenho muito mais perguntas do que respostas.

As tecnologias digitais impactam na percepção que crianças e adolescentes têm do mundo e da vida? Sim. Mas a violência doméstica contra elas e suas mães também, assim como outras tantas coisas que também impactam no que elas pensam e sentem. Ou não?

É sabido que as tecnologias digitais geram uma relação de recompensa e dependência em seus usuários e que, quanto antes as crianças e adolescentes forem apresentadas a isso, aumentarão as chances de serem pessoas com menor capacidade à empatia, ou seja, de se colocarem no lugar das outras pessoas. Pergunta: nós podemos tratar disso como sociedade ou esse é um tema que interessa apenas à cada criança ou adolescente e seus responsáveis? Outra pergunta: se aceitarmos que há relação entre mais acesso às tecnologias digitais e menos capacidade de se colocar no lugar do outro, estamos concordando que a violência entre crianças e adolescentes vai aumentar nos próximos anos e décadas?

É absolutamente necessário cruzarmos os temas da violência contra as mulheres e da violência contra as crianças. Inclusive porque, em ambos os casos, os maiores índices são dentro de casa e em meio às relações domésticas, inclusive com a prática recorrente do estupro. O que fez do Brasil um país tão perigoso para mulheres e crianças? Houve, realmente, um aumento desse tipo de violência ou apenas aumentou a sua visibilidade?

O mapa da violência no Brasil é assustador, mas, de alguma maneira e por algum motivo, parece-me que pouco aceitamos que a solução a isso seja coletiva. Temos de falar sobre isso. É importante tentar entender o porquê o discurso da violência, o apelo à disseminação do porte de arma e a permissividade à prevalência de discursos preconceituosos passaram a ser aceitáveis no país.

Temos de nos esforçar diariamente para entender o que está acontecendo e combater isso. Precisamos recuperar nossa capacidade de cuidar de todas as crianças do mundo. Simplesmente porque cada um e cada uma de nós é responsável por todas as crianças, sem exceção. Frida Kahlo tem uma frase da qual gosto muito e talvez nos sirva de inspiração neste momento duro: “rir nos fez invencíveis. Não como as que sempre ganham, mas como as que nunca se rendem”.

Sorrir e pensar são formas de resistir a tanta violência, como nos ensinam diariamente a própria Frida e também as crianças que sobrevivem nas ruas, nas casas e dentro de nós.


*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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