Glauber Piva

08 de março de 2019, 18h58

Nunca serei feminista. Mas não tenho o direito de ser machista

Em sua coluna na Fórum, Glauber Piva diz: “É a luta das feministas que as trouxe até aqui. Não fomos os homens que permitimos. São as mulheres que conquistaram. É preciso continuar e ampliar essa luta”

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Sou pai da Nina e, quando ela nasceu no banheiro de casa, ela me trouxe um presente irrenunciável: a consciência dura e insistente do machismo que me habita. Desde então, luto todos os dias contra ele e, na maioria das vezes, perco a luta. Mas persisto nela. E isso é necessário.

Não se pode negar o machismo e o patriarcado que nos trouxeram até aqui. Eles são parte de nossa matéria e, exatamente por isso, e pelo fato de eu ser homem, minha solidariedade às mulheres e suas lutas nunca fará de mim um feminista. Exatamente pelo fato de que nunca senti, nem sentirei, os riscos e violências físicas e simbólicas que, pelo simples fato de serem mulheres, elas sentem e vivem.

Esses riscos e as muitas formas de violências sofridas pelas mulheres são invisíveis a muitos homens (a maioria de nós) que ainda se escondem sob o véu do patriarcado. Não veem (não vemos?) que o simples fato de nascerem meninas já se constitui um perigo. Para meu espanto, todos esses homens têm ou tiveram uma mãe que, em muitos casos, apanharam de seus companheiros. E isso não os sensibilizou. Para escândalo geral, eles muitas vezes são pais de meninas, mas não se deixam tocar pela paternidade e pela violência à qual elas estão e permanecerão expostas.

As violências contra as mulheres não são uma soma de casos isolados, mas a repetição institucional de sua subalternização e da objetificação de seus corpos: dentro de casa, nas relações domésticas e familiares, no mercado de trabalho, na legislação eleitoral, no transporte público, no espaço público, na hora de lavar a louça, nos momentos de intimidade etc. etc.

Alguns números.

Em 2015 o Brasil registrou um caso de estupro a cada 11 minutos (1). Estima-se que este número represente apenas 10% do total de casos, o que levaria a um número de 500 mil estupros por ano no Brasil. Impossível não pensar na Nina.

Em nosso país, por volta de 70% das vítimas de estupro são crianças e adolescentes. Mais grave. Quem mais comete o crime são homens próximos à elas (2): não no carnaval, não pelo homem do saco, não pelo pipoqueiro, mas por seus pais, primos, tios ou namorados de suas mães.

Mas os dados pioram. Em 2016 houve, em média, dez estupros coletivos notificados todos os dias no sistema de saúde. Mas 30% dos municípios brasileiros não forneceram essas informações naquele ano. Ou seja, os números podem ser maiores.

Na cidade de São Paulo há um caso por dia de estupro em local público. No Rio de Janeiro (3), um caso de estupro em escola a cada cinco dias. Mais de 60% desses casos são contra meninas com menos de 12 anos.

Os dados não param. Em janeiro de 2019, a maior parte dos feminicídios (crimes cometidos contra uma mulher pelo falo dela ser mulher) foi cometido a facadas dentro da casa da vítima. Foram, pelo menos, 179 casos no Brasil, segundo a Folha de São Paulo. A cada 7,2 segundos uma mulher é vítima de violência física (4).

Mas esse machismo também tem cor. Segundo o Mapa da Violência de 2015, o assassinato de mulheres negras aumentou 54% em relação à década anterior, enquanto o de mulheres brancas diminuiu 9,8%.

Ser mulher negra e periférica no Brasil é ainda mais perigoso (isso a Estação Primeira de Mangueira nos contou no carnaval).

Os números são alarmantes e dolorosos. Por isso é tão importante voltar nossos olhos para nossas relações pessoais e a vida das mulheres que nos cercam. Eu não quero ser parte dessa engrenagem que fará minha filha ser chamada de puta a qualquer momento. Quero lutar contra minhas piadas machistas, meu olhar machista, minha mão machista que, ainda que indiretamente, fará com que minha filha esteja exposta a algum tipo de violência dos filhos dos meus amigos do futebol ou do trabalho. É necessário entender que a misoginia dos grupos de whatsapp transborda do virtual e tem materialidade: ela é parte do mundo real e da vida real de todas as mulheres.

Se um filho vê seu pai, ou tio, ou avô, sei lá, sendo machista e misógino entre seus amigos homens, vai repetir esse comportamento na escola, na rua, na balada. E esses nesses espaços estará minha filha, outras meninas, todas as meninas. O mesmo raciocínio vale para a homofobia, o racismo e o elitismo, claro. Mas hoje é importante falar da Nina e de todas as mulheres.

Piadas machistas são parte do que nos trouxe até aqui. Elas são apenas a expressão pretensamente simpática de nossa cultura que tenta agressivamente preservar o direito dos homens sobre os corpos e as vidas de todas as mulheres. São uma tentativa que, nós, os meninos, encontramos de menosprezar as mulheres, suas inteligências, desejos e habilidades e, por tabela, sermos legais, simpáticos e aceitáveis entre os iguais. É preciso romper essa corrente.

Nunca serei feminista. Mas quero ser parte das multidões que lutam contra o machismo que mata, estupra e silencia mulheres. Que a Nina saiba seu lugar de fala. Que ela tenha consciência de que, se ela chegou até aqui, se ela tem voz e direitos, é porque mulheres lutaram por séculos e séculos. É a luta das feministas que as trouxe até aqui. Não fomos os homens que permitimos. São as mulheres que conquistaram. É preciso continuar e ampliar essa luta.

A cada uma e todas vocês, eu agradeço.

(1)http://www.forumseguranca.org.br/publicacoes/10o-anuario-brasileiro-de-seguranca-publica/

(2)Fonte: Ipea, com base em dados de 2011 do Sistema de Informações de Agravo de Notificação do Ministério da Saúde

(3)Dados do Instituto de Segurança Pública obtidos pelo jornal Extra e referentes a Janeiro/2016 a Abril/2017

(4)Fonte: Relógios da Violência, do Instituto Maria da Penha

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