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25 de abril de 2018, 17h05

Golpismo nicaraguense tira a máscara

Em novo artigo, Igor Fuser diz que os opositores na Nicarágua já deixaram claro que o problema não é a previdência nem qualquer outra questão específica que está em jogo. Eles querem derrubar o governo. É o que fizeram no Brasil

Foto: Reprodução

Os estudantes de direita já estão na rua em Manágua, com a bandeira nacional, pedindo o fim do governo sandinista de Daniel Ortega, um presidente eleito com mais de 70% dos votos. Nas fotos só aparece gente branquinha, num país mestiço e indígena. A CNN está lá, com sua jornalista-âncora, Patricia Janiot, jogando lenha na fogueira. O quartel-general de mais essa “revolução colorida” é a Universidade Politécnica, onde estudam os filhos da elite. Conhecemos bem esse filme e sabemos como termina, quem são os autores e principalmente o diretor, que mora em Washington e fala inglês. Só muda o cenário. A Nicarágua é a bola da vez.

Sobre os conflitos dos últimos dias, muita desinformação. O que está claro é que não houve “manifestantes pacíficos” e sim grupos de choque muito bem organizados, com elementos treinados em combates urbanos, exímios em coquetel molotov. Máscaras anti-gás aparecem na hora, desde o primeiro dia. Estranho, né?
Mais estranho ainda é estudantes de Engenharia se insurgirem contra uma reforma da previdência que nem de longe os afeta.

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Na realidade, essa reforma, que serviu de pretexto para a rebelião direitista, só entrou na história porque o governo progressista recusou o projeto do FMI e dos empresários nicaraguenses, que queriam aumentar o tempo de contribuição e a idade mínima, entre outras coisas, exatamente no mesmo modelito que o governo Temer tentou aprovar no Brasil.

Os grupos opositores tentaram reeditar na Nicarágua as infames “guarimbas” da Venezuela, bloqueando ruas e incendiando edifícios públicos, como dois edifícios universitários que são redutos do sandinismo. Em várias cidades do país motociclistas percorreram os bairros insuflando a população a saquear o comércio — uma iniciativa claramente planejada.

Militantes civis sandinistas entraram em ação contra os golpistas e houve violência de todo lado, com várias mortes (ao menos um policial morreu). Numa cidade do interior, um grupo opositor tentou tomar de assalto a prefeitura e a polícia disparou, matando onze pessoas. É um episódio que certamente será investigado para que se conheçam os detalhes, mas a verdade é que não se tratam de manifestantes pacíficos.

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O governo está tentando manter a paz no país e mostrou flexibilidade ao retirar o projeto de reforma da previdência (que cobrava muito mais dos empresários do que dos trabalhadores) e chamar todos os envolvidos ao diálogo.

Mas os opositores já deixaram claro que o problema não é a previdência nem qualquer outra questão específica que está em jogo. Eles querem derrubar o governo. Nada menos do que isso, e já. É o que fizeram no Brasil e estão tentando fazer na Venezuela, na Bolívia. É a contrarrevolução, raivosa e violenta, dirigida a partir de Washington. Não nos deixemos enganar.


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