Igor Fuser

17 de junho de 2018, 21h40

Minhas Copas do Mundo

Se a seleção do Brasil se der bem, se ela se der mal, isso não fará a menor diferença em relação ao que realmente interessa.

(Foto: CBF)

A primeira Copa do Mundo de que eu me lembro é a de 1962. Minha única lembrança é a da final contra a Tchecoslováquia, 3 x 1 para o Brasil. Eu estava completando 6 anos de idade. Foi um domingo e eu estava com meus pais e meus dois irmãos passeando no Parque da Redenção, em Porto Alegre. Havia todo um clima de festa pela vitória do Brasil. Meus pais, os dois, artistas e de esquerda, eram completamente indiferentes ao futebol e a qualquer tipo de torcida. Nem tomaram conhecimento do fato. Não me lembro até hoje como foi que eu soube o que estava acontecendo.

A Copa seguinte foi a de 1966. Eu, por volta dos 10 anos de idade (faço aniversário em junho), ainda morando em Porto Alegre, já tinha um intenso interesse por futebol, era torcedor gremista fanático. Torci apaixonadamente pelo Brasil, acompanhei os jogos pelo rádio. No caso da Seleção Brasileira foram só três jogos, pois o time foi desclassificado nas oitavas de final (só participavam 16 países naquele tempo), derrotado que foi pela Hungria e por Portugal.

Eu era um garoto super-politizado para a minha idade e tinha imensa simpatia pelos chamados países comunistas. Acompanhei com o coração dividido os jogos do Brasil contra a Bulgária (vitória do escrete canarinho, como diziam os radialistas) e contra a Hungria, ambos países da “Cortina de Ferro”. Fiquei arrasado com a derrota do Brasil, até adoeci, e atribuí a doença a essa tristeza…

Quatro anos depois veio o meu grande trauma com a Seleção Brasileira, a histórica Copa de 1970, a do Tricampeonato. Era o auge da ditadura militar e eu, completando 14 anos, politizado até a medula, estava torcendo, mesmo, era para os revolucionários que, por aqueles dias, haviam sequestrado o embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick (que acabou sendo libertado em troca do resgate de 15 presos políticos, um deles o Zé Dirceu).

Minha mãe, Marlene Perlingeiro Crespo, militante do PCdoB, estava vivendo na clandestinidade, em São Paulo. No ano anterior, 1969, nossa família tinha saído, fugida, de Porto Alegre. Minha mãe já tinha sido presa duas vezes. Deixou os filhos com a avó materna, em Campos dos Goitacazes, RJ, e veio pra São Paulo. Em 1970 me mudei também pra capital paulista, vim morar com minha outra avó, na alameda Barão de Limeira. Meu pai, Fausto Fuser, estava no exílio (voluntário, essa é toda uma outra história), na Polônia, onde se formou em direção de cinema.

Assisti aos jogos no apartamento da minha avó, onde eu morava, junto com os parentes pelo lado paterno, tios e tias, todos de direita e a favor da ditadura. Era aquele clima de “pra frente, Brasil”, o ufanismo patrioteiro verde-amarelo dia e noite na televisão. Na escola, colegas me chamavam de “terrorista” porque falava mal do governo e elogiava Lamarca e Marighella, adorava as músicas do Geraldo Vandré.

Nesse clima, torci em silêncio contra o Brasil em todos os jogos. Comemorei, sem manifestar emoção, o gol da Tchecoslováquia contra o Brasil, que abriu o placar. Uma dupla emoção: gol contra o Brasil e feito por atleta de um país “comunista” (o jogador que fez o gol se ajoelhou no chão e fez o sinal da cruz, indicador de que algo havia de errado com aquele regime “ateu”, mas nisso eu só pensei muito depois). Minha alegria durou pouco e o Brasil goleou de 4×1.

Nunca uma Seleção Brasileira jogou tão bem quanto naquela Copa: Pelé, Tostão, Jairzinho, Carlos Alberto, Gerson… Sofri cada jogo, cada vitória do Brasil, suportando em silêncio a euforia dos meus parentes queridos, reacionários, que associavam as vitórias do Brasil às glórias do regime militar. Enquanto isso, a esquerda era perseguida, havia as torturas, os assassinatos, a resistência clandestina, e eu, adolescente, sabia disso tudo, acompanhava febrilmente a guerra secreta em curso no país, lia as edições clandestinas de “A Classe Operária”. Torci pela Itália na final contra o Brasil, outro 4×1, um jogaço. Eu era o único triste naquela sala em festa.

Em 1974, aos 18 anos, eu já estava ligado à militância de esquerda, fazia teatro popular no grupo União e Olho Vivo. Meus companheiros, quase todos, torciam pelo Brasil, moderadamente. O regime continuava usando o ufanismo da Seleção a seu favor, mas isso já não funcionava muito e eu tinha plena consciência de que “tanto faz” torcer a favor ou contra o Brasil na Copa, isso não muda absolutamente nada. Mas nunca consegui torcer pelo Brasil, sempre senti uma satisfação íntima cada vez que o Brasil perdia e um certo desconforto com as vitórias. No ano anterior, minha mãe tinha sido presa novamente, por um período mais longo. Ficou dois meses como prisioneira, incluindo três semanas no Doi-Codi, onde foi torturada.

Algumas vezes me esforcei para torcer a favor, em solidariedade às pessoas que me eram próximas. Não adiantou. Só consegui mesmo me envolver com os jogos do Brasil, torcendo pela vitória, recentemente, nos dois jogos que assisti da Copa de 2014, quando estava na Europa, em viagem de turismo, cercado por estrangeiros, contra a Croácia e contra a Espanha, se não me engano. Aí o sentimento de identidade nacional falou mais alto.

Também torci pelo Brasil no famoso 7×1 com a Alemanha, fiquei chocado e triste como todo mundo. Só um pouco triste. Nessa última Copa eu identificava, até certo ponto, a Seleção com o governo da Dilma, o que me levou até a comprar uma camisa da CBF (que doei aos sem-teto junto com outras roupas na recente tragédia do Largo Paissandu). Mas, ao mesmo tempo, tinha um certo receio de que aquele time repleto de babacas, influenciado pelo Hulk e pelo Ronaldão, aprontasse alguma presepada em caso de vitória, tipo se recusar a receber a taça das mãos da Dilma…. Essa era e é a minha teoria conspirativa particular.

Escrevo tudo isso pra dizer que acompanho com total indiferença a trajetória do Brasil por mais esta Copa. Torço pra que tudo dê certo com o evento, pois, afinal, é na Rússia, um país que está em disputa geopolítica com os Estados Unidos, os patrocinadores do golpe de 2016, ladrões do pré-sal, os verdadeiros inimigos do Brasil. A Rússia de Pútin, bem ou mal, é a herdeira da Revolução de Outubro de 1917.

Se a seleção do Brasil se der bem, se ela se der mal, isso não fará a menor diferença em relação ao que realmente interessa.

Portanto que cada um torça como quiser, não vou discutir nem me desgastar com ninguém por causa disso. Eu respeito a postura de todos e todas. E peço que respeitem a minha indiferença. Não me venham dizer que esse ou aquele comportamento é o mais correto, do ponto de vista político. Eu tenho minha história. Ninguém manda no meu coração. Vermelho.


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