Ingrid Gerolimich

22 de agosto de 2019, 22h10

Antes que seja tarde

Precisamos despertar com toda a urgência o sentimento de que lutar pela Amazônia é uma tarefa de todos os povos, antes que seja tarde

Fotos: Araquém Alcântara

A maior floresta tropical do mundo arde em chamas. Enquanto escrevo este texto, milhares de espécies da nossa flora e fauna morrem sob a onda de fogo que avança pelo bioma amazônico. O colorido da vegetação, o canto dos pássaros, o cheiro da mata, dão lugar a uma terra dizimada e, sobre ela, vidas sufocadas e carbonizadas perecem sobre um solo seco, morto.

Somente após o cenário apocalíptico vivido pelos moradores da cidade de São Paulo nesta semana é que um Brasil e um mundo consternados tiveram conhecimento da gravidade dos incêndios que se alastram, sem nenhum sinal de trégua, pelas áreas de proteção ambiental da floresta. Já são 72.843 focos de incêndio até o momento, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Reforçando-se que não se trata de uma tragédia resultante de algum evento climático, já que este ano não tivemos nenhum período de seca extrema que justificasse tal situação, as queimadas seguem a lógica que funciona há anos da mesma maneira: invasores desmatam terras públicas para lá pôr o gado ou a soja que alimenta o gado e assim seguem colocando abaixo a floresta que antes estava de pé. Não é novidade que a pecuária é a atividade que mais contribui para o desmatamento na Amazônia, ocupando mais de 65% da área desmatada, segundo o Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

E o que faz o presidente da República diante de tudo isso? Culpa as ONGs: “São os índios, quer que eu culpe os índios? Vai escrever os índios amanhã? Quer que eu culpe os marcianos? É, no meu entender, um indício fortíssimo que esse pessoal da ONG perdeu a teta deles. É simples”, vocifera o mandatário do maior país da América Latina, mantendo-se fiel ao seu estilo conhecido pelas falas pueris, idiotizadas, sem sentido, mas que atendem ao objetivo de gerar confusão naqueles que a recebem, tamanho é o choque diante da estupidez encarnada em cada palavra desferida.

Acontece que, desta vez, apesar das tentativas de criar mais uma de suas inúmeras cortinas de fumaça ou de se fingir de morto diante do caos instaurado, o mal está exposto e o mundo agora está com seus olhos voltados para o Brasil. Está mais do que posto que o que acontece na Amazônia é resultado não somente da irresponsabilidade deste governo no que diz respeito à sua incapacidade de resolver o problema, é mais que isso, trata-se de uma ação deliberada de combate ao que a floresta em pé representa.

Bolsonaro, desde a eleição, mirou o meio ambiente como uma espécie de inimigo a ser combatido, chamando o Ibama de “indústria de multas” após ser multado pelo órgão por pesca ilegal. Depois, afirmou que as políticas de licenciamento “atrapalham” a realização de obras de infraestrutura. Já eleito, tentou acabar com o Ministério do Meio Ambiente, com as pressões recuou, mas nomeou como ministro Ricardo Salles, condenado por fraude ambiental.  Esvaziou órgãos ambientais, contestou dados do Inpe por mostrarem o aumento do desmatamento na Amazônia, liberou em duzentos dias mais agrotóxicos que toda a União Europeia em oito anos, afirmou que vai rever todas as unidades de conservação criadas desde 1934 até hoje, não fará demarcação de terras indígenas e brigou com os principais países doadores do Fundo Amazônia, Noruega e Alemanha, e perdeu quase 300 milhões de reais destinados ao Fundo, tudo isso em menos de um ano.

Marina Silva, em artigo para o El Pais desta semana, chama o que está acontecendo na Amazônia de Holocausto Ambiental e acho que não poderia ter usado expressão mais pertinente para a situação. O holocausto de Hitler usava o discurso da genética para promover a destruição, no holocausto de Bolsonaro o meio ambiente é o inimigo. Em ambos, quem comanda é a necropolítica, o tânato que deve destruir tudo o que é vivo.

Na era da comunicação a disputa continua sendo a de narrativas, logo, a construção de um discurso que dê conta de fazer a relação de Bolsonaro com os preceitos do nazismo é fundamental para mostrar ao mundo que estamos diante de um evento de destruição em massa que causará prejuízos sem precedentes para todo o planeta. Neste sentido, é preciso mobilizar ações que extrapolem os limites geográficos do Brasil, levantando movimentos como o Ocuppy nos EUA, Europa e países da América Latina em defesa da Amazônia e do meio ambiente. Temos que mobilizar artistas internacionais a chamarem seu público para lutar pela nossa floresta. Estes movimentos serão fundamentais para pressionar os governos a realizarem sanções econômicas ao governo brasileiro com o intuito de frear o ímpeto destrutivo de Bolsonaro. Precisamos despertar com toda a urgência o sentimento de que lutar pela Amazônia é uma tarefa de todos os povos, antes que seja tarde.


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