quarta-feira, 30 set 2020
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Eu não sou sua “linda”! Um texto sobre o doce amargo da beleza feminina

No livro “O Mito da beleza”, Naomi Wolf fala sobre o que seria o último obstáculo criado para barrar os avanços da luta feminista no mundo ocidental: a ideologia da beleza. ou seja, a ideia construída de que o corpo feminino é o elemento que determina o significado da existência de uma mulher.

A ideologia da beleza surge para ocupar o lugar de outras ideologias que marcaram a história da mulher no mundo, como a religiosa e doméstica. Então, se antes o que dominava era o pensamento de que a mulher deveria ser passiva e maternal e cujo principal papel era ter filhos e cuidar da família, após as conquistas no campo da sexualidade e no mundo do trabalho, outra forma de manter a hierarquia dos sexos tornou-se necessária para que as mulheres não saíssem de suas condições de dominadas.  Assim nasce a ideologia da beleza, um instrumento de controle social capaz de exercer um poderoso domínio sobre a mente feminina e, o que é pior, fazendo com que enxerguem isto como algo natural, sem a percepção de que se trata de uma crença produzida.

O culto ao corpo sob um olhar estético exerce sobre nós, mulheres, o poder de nos constituir como sujeitos, determinando as bases da nossa relação com o mundo e com nós mesmas, se somos aceitas ou não e se nos aceitamos ou não. Já a aparência física de um homem nunca foi um elemento importante para determinar a sua posição na sociedade, o envelhecimento de um ator famoso, por exemplo, não é assunto nas revistas e comentários nas redes sociais. Agora, quando se trata de uma mulher na mesma situação, sabemos que não é assim que funciona. Isso mostra o quanto este estigma de que a existência feminina se dá em primeiro lugar através da aparência física é de uma violência simbólica devastadora.

Quem nunca ouviu a seguinte máxima: “homens são visuais, já as mulheres se atraem pelo que ouvem”? Agora, percebam a perversidade desta afirmação­: sob esta lógica, em uma relação heterossexual, os corpos femininos dependem de aprovação para a produção do desejo sexual masculino, aprovação esta baseada num padrão de beleza irreal, inclusive. Mas, quanto ao desejo sexual feminino, este seria convenientemente provocado pela capacidade intelectual masculina, e que, portanto, não depende de fatores externos e incontroláveis, como é o caso da beleza exigida da mulher.

É fato que diferenças de gênero como essa existem nas relações heterossexuais, mas o que sempre ouvimos é que elas são determinadas por fatores biológicos e que, dessa forma, devem ser aceitas como são. Mas, este tipo de diferença é constituído através de construções sociais e culturais que se formam ao longo da história, servindo apenas para produzir mais opressão, sob a justificativa de que se trata de uma “fatalidade biológica”.

A dimensão dos corpos masculinos está muito mais relacionada à experiência que este corpo proporciona do que ao que ele representa em termos de sua aparência física. Então, enquanto as mulheres estão em constante vigilância sobre seus corpos, monitorando cada quilo acumulado ou cada nova ruga, os homens estão vivenciando com mais plenitude as sensações em seus corpos. Vejam o sexo, por exemplo, enquanto os homens estão com suas atenções voltadas ao momento orgástico, muitas mulheres estão tão preocupadas se a posição ou a luz mostram partes do seu corpo com as quais se sentem desconfortáveis que não se entregam ao que está sendo experimentado ali.

Simone de Beauvoir em “O Segundo Sexo” fala sobre ir além do corpo objeto para chegar ao corpo vivido, um corpo cujo significado se dá nas experiências acumuladas ao longo da vida. É, na prática, passar menos tempo julgando nosso corpo para abrir espaço para outras coisas que esse mesmo corpo pode nos proporcionar, é amar nosso corpo pelo que ele nos possibilita e não pelo que ele aparenta. 

Então, vamos fazer esse exercício de ficarmos mais atentas às sensações do nosso corpo, ao invés de focarmos nossa atenção na sua aparência? Vamos prestar atenção ao toque, aos sons, ao que nos traz bem estar, ao que nos faz sentir vivas? Assim, podemos acumular mais passos nesta mudança de olhar que precisamos exercer para nos livrarmos da prisão social, psicológica, econômica e cultural que a ideologia da beleza representa em nossas vidas.

Ingrid Gerolimich
Ingrid Gerolimich
Socióloga, antropóloga, pesquisadora na área de políticas públicas pela UFRJ e fundadora do Instituto Motriz.